Comentário | Uma breve história do Super Sentai

Super Sentai é umas das três maiores franquias de tokusatsu do Japão ao lado de “Kamen Rider” e “Ultraman”, e sua origem é um tanto complicada. Em 1975, o artista Shotaro Ishinomori, o mesmo criador do “Kamen Rider“,  produziu “Himitsu Sentai Goranger”, uma história em quadrinhos sobre um time de agentes secretos que utilizava tecnologia para deter um grupo terrorista chamado Exército da Cruz Negra. Vendo um grande potencial na obra, a produtora Toei Company adaptou a história para um programa televisivo semanal, que em pouco tempo se tornou a maior sensação da época.

Himitsu Sentai Goranger (1975)

O conceito do programa se adequava perfeitamente ao público infantil japonês e de quebra ainda era educativo por três motivos: primeiro, o uniforme dos heróis representava noções básicas da educação infantil com as cores primárias dos uniformes refletidas nos codinomes dos agente, formas simples nos visores e números no capacete que correspondiam à quantidade de listras nas fantasias; em segundo lugar, o programa mostrava a importância dos estudos e dos exercícios físicos combinando em seus personagens alguma especialidade científica e habilidades marciais; e por último, o programa ensinava o valor da maior virtude do povo japonês: o trabalho em equipe.

Apesar de cada membro ser eficiente sozinho, unidos eles eram capazes de atingir qualquer objetivo e essa era a ideia que unia o povo japonês no período de ascensão econômica. Havia esse sentimento patriótico de mostrar ao mundo o valor do Japão através da conquista do mercado externo, mas somente seria possível se todos se esforçassem para o bem maior. Goranger transmitia bem essa mensagem, ainda mais porque o líder do grupo vestia vermelho para representar a bandeira do Japão. A série chegou ao fim após 84 episódios, uma quantidade que nenhum outro Super Sentai repetiria.

Battle Fever J (1979)

A série seguinte, “J.A.K.Q. Dengekitai”, não teve o mesmo sucesso e chegou ao fim após 35 episódios, o que fez a Toei Company repensar na produção das séries das super equipes. Por incrível que pareça, foi com a ajuda da Marvel Comics que eles se recuperaram produzindo “Battle Fever J” em 1979 – a série foi a segunda co-criação da Toei com a Marvel, a primeira sendo “Spider-Man”, esta inclusive considerada pela Casa das Ideias como um de seus universos paralelos, a Terra-79203. É neste ponto da história que a origem do Super Sentai se complica.

“Battle Fever J” foi o primeiro Sentai a apresentar em todos os episódios um segmento de batalha com robô gigante, que aliás foi inspirado no “Spider-Man”, e com isso a série foi considerada o primeiro Super Sentai, enquanto as séries anteriores sem robôs apenas como Sentai. Shotaro Ishinomori também não tinha intenção de serializar anualmente outros Sentai, então uma troca na nomenclatura vinha bem a calhar em questão de direitos autorais. Foi só em 1995 que Goranger e J.A.K.Q. foram incluídos como parte da franquia, mas até hoje existem alguns fãs que não concordam com a decisão.

Kaitou Sentai Lupinranger VS Keisatsu Sentai Patranger (2018)

Daí pra frente, o Super Sentai se manteve estável na programação japonesa, há mais de 40 anos ininterruptos, sempre seguindo uma fórmula base, mas também trazendo mudanças sutis a cada nova temporada. Por exemplo, se “Battle Fever J” tinha um robô gigante, a série seguinte, “Denziman”, teria um robô gigante que se transformava, e a próxima, “Sun Vulcan”, teria dois veículos gigantes que se transformariam em um robô. Seguindo essa evolução, “Uchu Sentai Kyuranger”, de 2017, chegou à loucura de dezesseis robôs combinados para formar a Orion Bazooka, entretanto, a Toei parece ter percebido que “mais” nem sempre significa “melhor” e tirou um pouco o pé do acelerador em 2018 com “Kaitou Sentai Lupinranger VS Keisatsu Sentai Patranger”, série que, apesar de ter dois Sentais numa única temporada, é muito mais controlada e sagaz em todos os outros aspectos.

Entre altos e baixos, a franquia abordou uma infinidade de temas para manter o público interessado ao longo dos anos, inclusive alguns que se repetiriam como carros em Turboranger, Carranger, e Go-onger; dinossauros em Zyuranger, Abaranger e Kyoryuger; animais selvagens em Liveman, Gingaman, Gaoranger e ninjas em Kakuranger, Hurricaneger e Nin’ninger. Infelizmente, nem toda essa criatividade temática, brinquedos brilhantes e reinvenções estão sendo suficientes para impedir a queda vertiginosa na audiência. O faturamento com brinquedos também não está na melhor das situações: quase dez bilhões de ienes atrás do faturamento nacional de “Kamen Rider”, entretanto, mundialmente como a franquia também lucra com merchandising de “Power Rangers”, cujo faturamento mais do que dobra e ultrapassa o do motoqueiro mascarado. “É complicado” define bem a situação do Super Sentai no momento, apesar da altíssima qualidade da série atual.

super sentai
Comando Estelar Flashman (1986)

No Brasil, o Super Sentai é lembrado com nostalgia pelos fãs que assistiam aos “Gigantes Guerreiros Goggle Five”, “Esquadrão Relâmpago Changeman”, “Comando Estelar Flashman” e “Defensores da Luz Maskman”. Outras séries nunca mais chegaram oficialmente por aqui, especialmente porque no final dos anos 80 e início dos anos 90 houve uma grande quantidade de séries tokusatsu que fez o público perder o interesse com o tempo. Um novo público infantil só retomaria esse interesse com a adaptação estadunidense de “Kyoryu Sentai Zyuranger” tão conhecida como “Power Rangers” que, falem bem ou falem mal, tem sido benéfica para a franquia de modo geral.

 


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