Comentário: Stranger Things – 1ª Temporada

A série da Netflix “Stranger Things” estreou já com uma segunda temporada engatilhada, e é fácil dizer o porquê depois de devorar os oito episódios que formam o primeiro ano do programa. Com um elenco infantil fantástico, uma trama curiosa e um clima oitentista charmoso, “Stranger Things” é o que “Fringe” seria se fosse dirigida por Steven Spielberg.

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Dito isso, preciso começar com um mea culpa: eu estava errado. Nas minhas Primeiras Impressões, disse que a série não tinha demonstrado conteúdo próprio o suficiente para ser instigante se excluíssemos toda a nostalgia. Já no (fantástico) terceiro episódio, dei o braço a torcer: a maneira como a história se desenvolvia parecia, sim, ter um pouco de tudo, como listei no texto inicial, mas um algo a mais a faz ser maior que a soma de suas partes e atingir várias gerações com o mesmo sucesso.

A construção dos personagens, principalmente os infantis, é muito interessante e leve ao mesmo tempo. O núcleo dos amigos Mike, Dustin, Lucas e da menina Onze (apelidada de “On” no legendado; “Eleven” e “El” no original) tem um carisma fascinante, e é a busca deles por Will que leva a história para frente. Destaque para a química de Mike e Onze: a naturalidade com que os dois se relacionam traduz com perfeição todo o carinho e inocência presentes num amor (?) juvenil.

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Os adolescentes são representados por Jonathan e Nancy (que, “por acaso”, divide o nome com a protagonista de “A Hora do Pesadelo“, e mora próximo a uma certa rua Elm na série), que obviamente fecham um triângulo amoroso com Steve Harrington, o quarterback que é chamado por seu nome completo. Ainda assim, longe de ser um “Crepúsculo” da vida, o triângulo é bem articulado durante os episódios, de forma que os relacionamentos e seus participantes evoluem, tanto internamente quanto em relação à trama. (Inclusive, a série é tão curiosa que até esses romances têm um desfecho curioso.)

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Quando crescemos e vamos aos adultos, Winona Ryder (de “Edward Mãos de Tesoura”) não é a primeira a aparecer nos créditos só por ser a mais famosa. Sua Joyce Byers é mãe do desaparecido Will e, com Mike, são os únicos personagens que desde o princípio se recusam a aceitar a perda do garoto. É dela algumas das cenas e conceitos mais interessantes da série; o alfabeto com luzes de natal certamente fará parte do imaginário cult enquanto a série ganha em fama.

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Se Joyce Byers é a mulher de ação, o sherife Hopper, interpretado por David Harbour (da saudosa série “The Newsroom”) é certamente o G.I. Joe da parada. Motivado por uma história pregressa discreta, que só se desenrola no último capítulo, Hopper é o típico policial misterioso empático (e ligeiramente paranoico) dos filmes de suspense (lembrando que – “coincidência” – o nome do diretor de “O Massacre da Serra Elétrica” é Tobe Hooper, e no remake 3D do filme, o Xerife também passou a ter esse nome). Enquanto Joyce e as crianças são nossos olhos na trama, Hopper é nossas mãos e braço, invadindo, batendo e cortando seu caminho através das barreiras dos vilões para chegar à verdade sobre o sumiço do pequeno Will.

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Vilões esses que, por sua vez, são ninguém menos que o governo estadunidense. Personificado na figura do Dr. Brenner, vemos logo no princípio da série a Guerra Fria é o pano de fundo escolhido para as crueldades cometidas pelos EUA ao longo do show. A série ganha contornos mais graves de terror enquanto vemos submersões, gritos e experiências extracorpóreas através dos olhos do doutor, que sorri enquanto tudo isso acontece. Mais aterrorizante ainda é saber que a operação MKUltra, mencionada logo no começo da série, realmente aconteceu, e muitos indivíduos foram drogados e torturados com fins de pesquisa na área de controle mental. Deus salve a América, não é mesmo?

No aspecto técnico, a série é impecável. Enquanto a fotografia e a direção de arte se aproveitam da paisagem de Jackson, Georgia, em seus lindos lagos e florestas e desfiladeiros, o cuidado da produção vai muito além dos apetrechos oitentistas usados pelos personagens, de forma que cada pedaço do cenário acrescenta à história. Cada pôster na parede remete a um acontecimento futuro, como em alguns exemplos ótimos que estão escondidos na frase seguinte, marcada em branco para você somente ler caso já tenha visto a série. Vemos um poster de Evil Dead na parede em um episódio, e logo a seguir uma personagem morre arrastada para dentro de um buraco, exatamente como no poster; um poster de David Bowie faz a gente desconfiar se o aparato que Onze usa na banheira não parece demais com um traje espacial de um “homem das estrelas”; isso sem contar o momento que uma personagem diz “vocês já leram algo do Stephen King?” para explicar os poderes de Onze.

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Isso tudo seria o suficiente para fazer a série ser apaixonante, embora não necessariamente interessante, se não fosse pela trama de ficção científica que se desenrola. Entre portais e monstros com nomes mitológicos transitando para lá e para cá, sempre cabe um bom professor (ou aluno) de ciências para usar um pouco de teoria científica para embasar a premissa. E como funciona! Enquanto recebemos uma aula sobre o equilibrista e a pulga, no episódio 5, nossa mente já está trabalhando, assim como das crianças, para entender como isso pode ser aplicado para salvar Will e os outros que estão sofrendo com estes ataques. A narrativa não fica pesada com estes momentos, mas ganha muito, nos colocando cada vez mais fundo neste buraco de minhoca terrivelmente maravilhoso.

Apesar de 9 em cada 10 sites chamar “Stranger Things” de “uma carta de amor aos anos 80” (um título muito preguiçoso, diga-se de passagem), a série é mais do que isso. Ela é um reconhecimento do que funciona com o grande público em termos de sci-fi, bebendo de “Fringe”, “Arquivo X” (por que digitei Arquivo X duas vezes?), e até “Sob a Pele” em sua trama principal, enquanto vai aos anos 80 para aprender a como tratar seus personagens. Sendo assim, não é somente uma missiva romântica a esta década, mas um bilhete discreto trocado na sala que declara a admiração por personagens ricos e divertidos, independente do contexto no qual estão inseridos.

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Ao fim (do texto e da série), “Stranger Things” certamente é um ponto fora da curva em sua qualidade e charme; uma série que, mais estranha ou não, certamente é mais marcante e apaixonante do que grande parte do entretenimento que chega às nossas telas.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.