Comentário: Sherlock – 4ª Temporada: megalomania e o fim

Confundir artifício com conteúdo é um problema que faz parte das nossas vidas. Todos tivemos um professor muito simpático que não ensinava nada, ou um relacionamento com uma pessoa atraente que não durou três meses por a pessoa ser tão profunda quanto uma poça d’água. A produção de cultura é um reflexo de nós que a produzimos, e esta síndrome se espalha por filmes, séries e música.

“Sherlock”, da BBC, chegou na sua quarta temporada cercada por uma mística que se deve a um início incrível e muitos anos de espera entre uma temporada e outra. Desde sua estreia em 2010, o programa percorreu um longo caminho, que incluiu a criação de um séquito de fãs e a ascensão dos seus protagonistas ao estrelato mundial – Benedict Cumberbatch foi o dragão Smaug e o Doutor Estranho nesse meio-tempo, enquanto Martin Freeman foi Bilbo Bolseiro e também deu as caras no Universo Marvel. Em sua quarta temporada, no entanto, a série abriu mão de diversos elementos que a tornou o sucesso que ela é, conduzindo sua história para um final definitivo que amargou fortes quedas de audiência – e de qualidade.

Nesta temporada, as apostas aumentam, e famílias sofrem. Além de Sherlock e Watson sofrerem uma perda inestimável, um fantasma desconhecido do passado de Holmes ressurge para assombrá-lo, vindo do fundo de seu inconsciente. Com inúmeras vidas em risco, Sherlock precisará desvendar o maior mistério da sua vida no último lugar que imaginou que precisaria investigar: a sua infância.

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É exatamente no ponto de ser “o maior mistério” que o showrunner (manda-chuva da série) Steven Moffat erra, e não é a primeira vez que isso acontece. Moffat, que também era produtor-executivo de Doctor Who até sua última temporada, já havia ganhado fama de hiperbólico durante sua passagem na série do viajante espacial: todos os episódios tinham que ter perigos gravíssimos, o universo sempre estava em imenso risco, e o Doctor sempre precisava ser o heroi do espaço-tempo contínuo. A consequência disso é que muitas vezes os personagens sofrem em dileção de uma trama estrogonoficamente absurda, que parece servir apenas para agraciar os egos dos envolvidos ao nos fazer dizer “nossa, mas que plot twist!”.

E ele fez isso em “Sherlock” também.

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A série alcançou seu topo na sua segunda temporada, e isso é indiscutível. O Sherlock do século XXI encontrou um Moriarty à sua altura, e na queda de Reichenbach o show encontrou seu ponto mais alto. A partir daí foi difícil colocar um vilão que conseguisse não só estar no nível de Holmes, mas também que chegasse aos pés do último rival. Não conseguiu. Se você vê a série e não se lembra do nome do homem que Sherlock matou ao fim da temporada passada, não se culpe: ele de fato é esquecível.

O que, finalmente, nos traz à quarta temporada. Moffat e seu companheiro de escrita e Mycroft Holmes na série, Mark Gatiss, entenderam que precisavam de um vilão que, caso não fosse maior que Moriarty em sua vilania pura e simples, precisaria representar algo maior: um perigo maior, um símbolo maior e uma queda e redenção maior para Sherlock. Para isso, foram fundo no passado do personagem.

A temporada abriu com “The Six Thatchers“, um episódio denso que, embora previsível em seu plot twist – visto a necessidade da manutenção da dinâmica entre Holmes e Watson -, foi feito de maneira preguiçosa e clichê; um bom retorno à má forma vista na temporada anterior. O impacto que deveria ser sentido é diluído ao longo do programa, quando percebemos o rumo inevitável que a história tomava, restando somente o “como” – o qual, por sua vez, também foi decepcionante.

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O segundo episódio, “The Lying Detective“, apresentou uma melhora considerável exatamente por levar a série de volta para as suas origens. Sherlock investiga um homem mau e precisa provar a sua culpa, mesmo quando somente ele parece ser capaz de enxergar as evidências. Contando somente com a sua inteligência, tendo sido abandonado mesmo por Watson, o xangô de Baker Street, com seus raios e relâmpagos, resolve um caso como nos velhos tempos, e o sabor é agridoce: ao mesmo tempo em que ficamos felizes por ter um episódio bom como esse, é impossível não nos perguntarmos porque a série não seguiu sendo desta forma.

E é essa mesma pergunta que fica em nossa mente ao final do terceiro episódio.

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(Se você ainda não viu o último episódio, eu vou ser bonzinho e adiantar a conclusão. Caso tenha visto, pode seguir depois da imagem.)

A conclusão é que “Sherlock” marcou a história da TV britânica com sua criatividade, elenco formidável e equipe criativa que… Bem, cumpriu seu propósito. Ainda assim, a decadência passou a ser intrínseca à série no momento em que ela abraçou seu topo na segunda temporada. Dentre todas as evidências que apontam que a quarta temporada foi seu fim, pelo menos por um bom tempo, cabe a nós o consolo de que a série acabou bem – entre mortos e feridos, ainda houve dignidade em seu suspiro final. No fim, o maior inimigo de “Sherlock” não foi Moriarty, mas exatamente o defeito pelo qual seu protagonista homônimo é conhecido: a megalomania.

Continua aqui? Então vamos falar de “The Final Problem“.

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“O Problema Final”, em tradução livre, traz Sherlock enfrentando o fato de que ele tem uma irmã. Eurus Holmes foi nomeada em homenagem ao deus grego do vento leste – uma entidade maligna que trazia má sorte e chuva, e você subitamente nota que os pais dos irmãos Holmes queriam que essa garota tivesse um destino maquiavélico. O caso é que Eurus é brilhante mesmo quando comparada à Sherlock e Mycroft – próximos a ela, eles são dois meninos perdidos. A irmã Holmes é uma das mentes mais geniais da história da humanidade.

Mas, como costuma acontecer com grandes mentes, Eurus é completamente louca.

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Para ser mais preciso, descobrimos logo no começo de “The Final Problem” que Eurus sofre de doenças psiquiátricas que parecem abarcar a psicopatia – “você não sente dor ao fazer isso?” “qual dessas sensações deveria ser a dor?” – e algum nível de autismo. Descobrimos também que Eurus deveria estar presa em Sherrinford (que quase foi o nome de Sherlock), uma instalação secreta onde as piores pessoas do mundo estão presas, e Sherlock, Mycroft e Watson partem para checar a mulher na prisão, depois de Sherlock passar pelo choque de descobrir ter uma irmã. Infelizmente para todos – e previsivelmente -, não tarda até descobrirmos que, no melhor estilo Rorschach, Eurus anuncia que não é ela que está presa com eles, mas eles que estão presos com ela.

Até aí o episódio funciona bem; com a exceção de uma cena de explosão risível e totalmente destoante da série, os outros elementos se encaixam de forma natural: a revelação não parece forçada, e Eurus é absolutamente medonha. O seu olhar frio e os relatos de Mycroft sobre o que a garota fazia e dizia são suficientes para criar uma aura diabólica em torno da mulher que mal conhecemos. Entretanto, no momento em que Eurus assume o controle da prisão, tudo descamba de maneira vergonhosa.

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A cena mais absurda e menos “Sherlock” que “Sherlock” já teve.

Primeiro porque descobrimos que Eurus influenciou Moriarty a fazer muitas coisas que o vilão fez contra Sherlock, dentre elas o bordão fantasmagórico, “sentiu a minha falta?”. Uma jogada interessante, para demonstrar como Eurus é maior do que o nêmesis de Holmes, mas que sai pela culatra ao enfraquecer o vilão; a partir do instante que vemos que Moriarty é um capanga de Eurus, o grande personagem perde um pouco do seu brilho.

Além disso, para que esta trama funcione, vários retcons (quando se altera oficialmente algo passado anteriormente na história) precisam acontecer, e Eurus precisaria ter planejado eventos extremamente intrincados e complexos com mais de 3 anos de antecedência. Por mais brilhante que ela de fato seja, elementos humanos e de pura sorte tiveram que se encaixar em uma ordem randômica para que seu plano funcionasse. Desta forma, ela já não é mais tão inteligente, visto que o principal elemento do seu plano era o acaso.

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Segundo porque o episódio se torna um spin-off  de “Jogos Mortais”, com Eurus obrigando Sherlock a fazer escolhas morais dúbias – e, por vezes, impossíveis -, com a vida das pessoas em jogo, em prol de um “estudo social” – que na verdade é a forma doentia de Eurus se conectar “emocionalmente” ao seu irmão favorito. A dinâmica do episódio é fraca a partir daí, longe de ser digna de um final de série, ou mesmo de temporada, e qualquer grau de ameaça que Eurus representava antes se torna pífia; ela é má, mas já não é mais medonha. Matar pessoas por matar, o próprio Moriarty já fazia.

E infelizmente é nesta dinâmica que o episódio segue e termina, com dois últimos plot twists. Um deles é a descoberta de que o cachorro de Sherlock que Eurus assassinou não era um cão, mas sim um garoto, melhor amigo do pequeno Holmes. Esta reviravolta funciona bem, amarrando a última ponta solta do episódio, e carrega o peso dramático necessário para gerar o bloqueio infantil na mente do jovem Sherlock, que impediria que ele se lembrasse da irmã.

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O segundo plot twist, o de que a garota no avião nunca existiu, é consideravelmente irrelevante; a menina mal passa por nossa cabeça, visto o número de personagens importantes que correm risco de vida, e tudo se mistura num mar de ameaças que Eurus lança e que depois de um tempo é impossível acompanhar. O vento leste sopra a lógica para longe de “Sherlock”, e nos vemos mais aceitando o final, talvez definitivo, que a série apresenta em seu desfecho. Assim como em toda a temporada – e em partes da temporada anterior -, faltou simplicidade; a essência da série, dos duelos de gênios, que guiaram e permearam o programa ao longo do tempo, e mantiveram os fãs esperando anos por mais três episódios do show.

Ainda assim, com todos estes poréns, a série continuou se mantendo ao longo dos seus três novos episódios na força dos seus diálogos e na capacidade de seus atores. As trocas entre Sherlock e Mycroft, e entre Sherlock e Watson, continuaram excelentes, e seus intérpretes seguiram entregando suas falas com alta qualidade. Em muitos pontos, o carisma de Cumberbatch e Freeman ajudava em nossa suspensão de descrença, e nos permitimos aceitar mais facilmente pontos mais absurdos da trama, de forma que, mesmo com falhas, o programa continuou sendo uma série acima da média.

A conclusão é que “Sherlock” marcou a história da TV britânica com sua criatividade, elenco formidável e equipe criativa que… Bem, cumpriu seu propósito. Ainda assim, a decadência passou a ser intrínseca à série no momento em que ela abraçou seu topo na segunda temporada. Dentre todas as evidências que apontam que a quarta temporada foi seu fim, pelo menos por um bom tempo, cabe a nós o consolo de que a série acabou bem – entre mortos e feridos, ainda houve dignidade em seu suspiro final. No fim, o maior inimigo de “Sherlock” não foi Moriarty, mas exatamente o defeito pelo qual seu protagonista homônimo é conhecido: a megalomania.

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.