Comentário | Shazam! (2019): bem-humorado, mas não tão leve

Para a alegria dos fãs e de um público cansado dos tropeços do Universo Estendido DC, “Shazam!” conseguiu compensar as expectativas para a aventura solo do herói. Depois de tanto tempo procurando alguém puro de coração, o mago (Djimon Hounsou) encontrou alguém digno para que pudesse dominar os poderes dos deuses. Esse alguém é Billy Batson (Asher Angel) que, bastando falar SHAZAM!, se torna um ser poderoso na sua versão adulta, agora na pele de Zachary Levi.

Antes mesmo que Billy tivesse esse encontro que lhe concederia superpoderes, sabemos que o mesmo tinha um conflito pesado a encarar: a oportunidade de reencontrar sua mãe. Garoto órfão, preferia viver fugindo de qualquer lar que lhe fosse concedido, só para alcançar seu objetivo. Nesse caminho, Billy foi se tornando problemático, o que o impedia de tentar ver a situação com outras lentes.

A boa notícia é que, mesmo tendo esse vazio a fim de ser preenchido, o moço mantinha a chama do seu coração acesa. Ainda que a produção tenha rendido esse arco por mais tempo em tela para combinar o clássico momento eureka do personagem com o drama, o contexto em si foi bem triste, visto que a busca pelo amor materno no final não teve uma reciprocidade para fazer valer tantos anos de perseverança.

Asher Angel como Billy Batson.

De qualquer modo, o tema de adoção não foi o principal assunto em “Shazam!”, e sim a família. Assim como Billy, tivemos outros personagens para complementar esse argumento. Aí entramos em outra base em paralelo que ficou por conta do vilão Dr. Thaddeus Sivana (Mark Strong).

Claro que o oponente do Capitão Marvel protagonizou as atrocidades que um vilão poderia fazer (que, inclusive, foram o que vestiram o longa com uma pegada de terror) e até discursou o típico monologo, ainda assim, a história de Sivana tinha um plano de fundo delicado.

A cena de abertura mostra duas crianças e um pai na estrada a caminho de um jantar, uma dessas crianças era a todo tempo contrariada pelo irmão e a figura paterna. Após acontecimentos turbulentos dentro do veículo, os três acabaram se envolvendo num acidente, que deixa o Mr. Sivana gravemente ferido. Mais tarde descobrimos que o menino que era diminuído enquanto tentava apenas se entreter se tratava de Sivana e que seu pai sobrevivera ao acidente, embora paraplégico. O pior de tudo isso era que a culpa da causa do acidente caiu sobre Thaddeus.

Ainda que tal situação tenha levado as motivações de Thaddeus ser um vilão vingativo, por trás dessa trivialidade o personagem cresceu em cima de uma frustração por acreditar que sempre estragava tudo, fazendo assim buscar por resoluções que pudessem provar seu potencial, e com isso, se opõe de uma vez por todas da pressão imposta meu irmão e pai, nem que para esse ensejo fosse um receptáculo de demônios dispostos a espalhar o caos.

Cada caso é um caso, mas de um lado tivemos Billy querendo tanto alcançar um objetivo que não se permitiu por muito tempo ter outras pessoas em sua vida; e não muito diferente dele, alguém tão cego por poder que não sobressaiu além do fardo da acusação, dando a volta por cima de maneira mais saudável. Ambos, por pesares das circunstâncias perderam várias chances de fazerem parte de um vínculo tão importante para uma pessoa: a família.

“Shazam!” carrega o brilho de uma produção bem-humorada e leve que agradou com o carisma, mas debaixo do alívio cômico, nem tudo são flores para os personagens. Divertido, mas não tão leve.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.