Comentário – Sense8 (2015)

Sense8 é uma série dos irmãos Watchowsky, lançanda no dia cinco desse mês na Netflix e chamou muita a atenção nos últimos dias. Nós escrevemos recentemente as nossas primeiras impressões para quem pretende começar a ver e quer ter uma ideia do que se passa, caso você ainda não tenha visto nada da série, recomendamos que leiam aqui antes de ler o texto abaixo.

O que Sense8 entrega ao público, em termos de história, é uma ficção científica bastante evidente em sua construção. Existe um grupo de “super-humanos” que estão conectados uns aos outros de uma maneira misteriosa; os “sensate”. Ao longo de toda a primeira temporada existe a preocupação de ir explicando aos poucos o que está havendo com os oito personagens principais, ao mesmo tempo em que cada um desenvolve sua própria história com o desenrolar de seus próprios problemas. Nesse meio tempo, alguns deles são descobertos por um outro grupo de sensates e são caçados para passar por experimentos científicos.  Num primeiro momento assusta o fato de serem oito personagens principais. Ou seja, oito histórias individuais com oito tramas marginais convergindo para uma trama principal que as une. Talvez o grande mérito que os irmãos Watchowsky merecem receber pela série é o fato de eles terem construído essa narrativa de tal maneira que não deixa o espectador perdido. O roteiro não é entregado totalmente mastigado para quem está assistindo, mas, ainda assim, não se tem a sensação de que se está perdido na série, que não se sabe quem é quem ou o que está havendo com cada um.

O que dividiu bastante a opinião de quem resolveu sentar e assistir Sense8 é a questão LGBTT, muito presente nos primeiros capítulos (e na série como um todo, mas perdendo um pouco os holofotes com o desenvolvimento da trama). Devido ao fato de Lana Watchowsky ter sido Larry num passado recente, é natural que exista algum tipo de “propaganda” ou mesmo “militância” LGBTT. Isso certamente incomoda uma parcela do público, agrada outra, enquanto há ainda um grupo que está totalmente alheio a esse tipo de questão e encaram o fato apenas como mais um recurso estilístico-visual da série. Talvez o único problema desse núcleo específico aconteça entre as personagens Nomi (Jamie Clayton) e Amanita (Freema Agyeman). Trata-se de um casal transex-lésbico que recebeu todos os clichés românticos possíveis. Quando ambas estão interagindo com os outros personagens e com as tramas principais, tudo flui normalmente, porém quando interagem entre si, ou estão entretidas em suas próprias tramas, vê-se um rastro de preguiça dos roteiristas que escreveram suas falas – o que é, de certa forma, injustificável diante da premissa criativa da obra como um todo. Pra encerrar com o fato de não haver necessidade para tantos clichês, há outro casal LGBTT na série, por exemplo, que tem textos bem mais elaborados e interessantes, bem menos previsíveis.

Amanita (Freema Agyeman) e Nomi (Jamie Clayton)

Além do argumento da obra em si, e de suas questões político-sociais, a série se propõe também a ser um espetáculo visual. As mudanças constantes de cenários, durante diálogos, flashbacks, lutas, proporcionam à audiência uma experiência visual única e de extremo bom gosto em relação à variedade cultural. É possível presenciarmos cenas de luta que acontecem em Seul e em Nairóbi ao mesmo tempo, quando Capheus (Aml Ameen) interage com Sun (Bae Doona); ou diálogos na sombria e chuvosa Berlim de Wolfgang (Max Riemelt) e na vibrante e calorosa Mumbai de Kala (Tina Desai). A montagem da série é esplêndida nos deixando constantemente sem fôlego diante dos cenários representados.

Ainda sobre a questão de haver oito personagens principais, é interessante dizer que isso resolve um problema que costumamos considerar constante nos gêneros de ficção científica e ação; a “síndrome de MacGyver”, isto é, aquele personagem que consegue fazer absolutamente qualquer coisa e tem aptidão para absolutamente tudo. Sabe tudo que é necessário para resolver todo e qualquer problema que possa aparecer. Como os oito personagens se complementam entre si em suas capacidades e habilidades, quem assiste fica completamente convencido com o fato de eles constantemente estarem “trocando de lugar” quando é necessário que isso ou aquilo seja feito de acordo com essa ou aquela aptidão.

Por fim, pode-se dizer que Sense8 é uma espécie de redenção da carreira dos irmãos Wachowsky, visto que seus últimos trabalhos foram muito mal recebidos e tem qualidade inferior à Matrix (referência não só para eles, mas para o cinema em geral) e, agora, à Sense8. O roteiro é bom, para quem gosta de ficção científica com boas doses de mistério e investigação é um prato cheio, apesar de a história perder, em alguns momentos, o foco para que algumas propagandas ideológicas sejam feitas em cima de diversos clichés de roteiro. Mas, afinal, deveria a obra cair longe do autor?

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Hippie com raiva.