Comentário | Predadores assassinos: voltando ao terror em sua melhor forma

Não é mais novidade mas, se olhamos para as produções hollywoodianas não será difícil perceber um nicho sendo explorado em cima de algo de sucesso. O remake de “Brinquedo Assassino” estreou recentemente e acumulou muitas críticas positivas, mas ao mesmo tempo em que o filme original ganhava continuações lá em 1988, outros títulos surgiram com um tanto em comum: bonecos malignos em enredos bizarros tocando o terror. Filmes como “Bonecos da Morte” (1989), “Boneca Assassina” (1991) são exemplos. Também, não foi à toa “Boneco do Mal” (2016) emplacar nas telonas logo quando “Annabelle” (2014) esteve no auge encaminhado para o segundo longa.

Mas não apenas os belos brinquedos que marcaram nossas infâncias ganharam diversas histórias macabras no cinema. A BBC One trouxe e continua trazendo curiosidades impressionantes sobre o mundo animalesco, mas o terror também encontrou seu meio para retratá-los.

Recapitulando

Lançado em 1975, “Tubarão” foi um marco para a Sétima Arte. Sucesso de bilheteria, vencedor de 5 categorias no Oscar de 1976, um Globo de Ouro, um BFTA, e um Grammy, o suspense dirigido por Steven Spielberg trouxe a figura que encabeça o título do longa  responsável por instaurar o pânico e tensão sobre banhistas numa praia. O resultado da barganha de um blockbuster, foi ter mais três filmes, fechando a franquia em 1987. Claro que os sucessores não tiveram a mesma sorte que o primeiro, mas tê-los atrelados a um projeto de grande reconhecimento, retrata a mania americana de empurrar continuações incansavelmente.

Cena do filme “Tubarão”.

Partindo para outros exemplos de que ter animais assassinos como vilões era bem aceito pelo público, como esquecer de “Anaconda” (1997)? O filme com uma enorme cobra em cgi e que trazia Jennifer Lopez, Ice Cube e Owen Wilson no elenco arrasou na bilheteria. Assim, a coisa borrachuda adquiriu mais três continuações, uma mais brega e pobre de roteiro do que a outra, encerradas em 2009. Só bastava ter um bicho grande capaz de envolver os corpos das vítimas que a fórmula estava pronta – e a câmera em primeira pessoa dando o efeito da predadora se aproximando só aumentava a tosquice.

Se após os importantes prêmios de “Tubarão”, o animal pôde ser visto em outros títulos independentes e até na saga de filmes de “Sharknado”, com a cobra não foi diferente: “King Cobra” (1999), “Python: A Cobra Assassina” (2000), “Python: A Cobra Assassina 2” (2002), “Boa vs Python” (2004) – e pensar que Freddy vs Jason tiveram o maior duelo -, “Boa: A Cobra Assassina” (2006), “Serpentes a Bordo” (2006), “Mega Snake” (2007), “G.I.Joe: A Origem de Cobra”. Em suma, a Anaconda conseguiu motivar vários filmes duvidosos com cobras e serpentes matando gente.

Vislumbre da anaconda no filme de 1997.

De qualquer modo, vários animais se fizeram presentes em tramas sangrentas. Ratos (“Calafrio”, 1971), abelhas (“Abelhas Selvagens”, 1976), gatos (“Trama Sinistra”, 1977), piranhas (“Piranha”, 1978), javali (“O Corte da Navalha”, 1984), pássaros (“O Ataque dos Pássaros”, 1987), lesmas (“Slugs”, 1988), vermes (“Ataque dos Vermes Malditos”, 1990), aranhas (“Malditas Aranhas!”, 2002), dente de sabre (“Predador”, 2002), cachorros (“Cães Assassinos”, 2006), ursos (“Perseguidos”, 2010), lobos (“Terra dos Lobos”, 2010) e até a fusão de piranha com anaconda (“Piranhaconda”, 2012), mas há um terceiro animal que se tornou fundamental para o nicho: crocodilo.

É um tanto que inevitável e usual, mas ao falar em filmes com o predador, logo lembramos de “Crocodilo” (2000) de Tobe Hooper – que veio com mais um longa dois anos depois. Bem sucedido dentre os que foram citados, o réptil tem alguns títulos que conseguiram se destacar para o gênero. “Primitivo” (2007), “Morte Súbita” (2007) e aquele que se tornou uma franquia: “Pânico no Lago” (1999).

Desde então, cinco sequências somaram para o terror. “Pânico no Lago 2” (2007), “Pânico no Lago 3” (2010), “Pânico no Lago: Capítulo Final” (2012), “Pânico no Lago: Projeto Anaconda” (2015) – outro crossover mostrando como a indústria não para de apelar para chamar atenção – e “Pânico no Lago: O Legado” (2018). Mas não foi em 2012 o fim? Apesar da franquia ordinária, ainda há o que se elogiar no espinhoso caminho.

Voltando à melhor forma

2007 foi um ano rentável para o crocodylidae, tanto que não somente dois filmes ganharam os holofotes na época, mas também um terceiro: “Medo Profundo”. Lembro-me até da primeira vez que tive contato com a produção através de um dvd. A capa não era muito atraente, mas ao menos os slogan (“o que você não pode ver, pode matá-lo”) prometia um pouco de tensão, sensação essa que eu sempre buscava com o horror. Dar uma chance valeu a pena, e a trama agradou tanto que assisti várias vezes.

Acompanhada pelo marido Adam e sua irmã caçula Lee, Gracie segue de férias no norte da Austrália. No caminho, ela contrata o guia para conduzi-los a uma pesca num pântano. Chegando lá, o quarteto acaba sendo surpreendido por um crocodilo que vira o barco em que estavam, colocando-os numa linha de perigo e sobrevivência.

A boa recepção do filme australiano com certeza se deve a forma em que a dupla de diretores Andrew Traucki e David Nerlich construíram e exploraram as nuances de pavor e luta pela vida de seus personagens. O inimigo na natureza estava presente, mas o quesito isolamento, de algum jeito, enriquecia a história, além de se debruçar acerca do desespero e iminente aflição que o enredo investia.

Cena do filme “Medo Profundo” (2007).

Nessa onda em que animais predadores estão cada vez mais presentes nos cinemas, ano passado uma sequência para “Medo Profundo” foi confirmada. Batizada de “Black Water: Abyss”, a história será centrada no grupo de amigos que descem à boca de uma caverna para se protegerem de uma tempestade, mas lá acabam sendo encurralados por crocodilos. Tentador, não é mesmo? Com o aparente isolamento pincelado pela descrição, é de esperar uma baita produção.

Durante esse tempo, no dia 26 setembro, os amantes do terror foram prestigiados por uma empreitada acima da média: “Predadores Assassinos”. Depois de a Flórida ser inundada por uma enchente, a ordem era para que todos evacuassem a área afetada, o que não impediu que Halley (Kaya Scodelario) partisse em busca do seu pai Dave (Barry Pepper). Pior do que estarem cercados por água, a dupla se dá conta que são alvos de crocodilos que infestam a região.

Cena de Predadores Assassinos (2019).

Dirigido por Alejandre Aja (“Piranhas 3D”), o filme é frouxo no arco dramático em que trabalhou entre pai e filha, mas o que diz respeito a instaurar o terror, “Crawl” (no original) se mostra inteligente ao explorar de maneira intrigante, sufocante e divertida o perigo e tribulação numa ambientação limitada e claustrofóbica com a ameaça constante de crocodilos.

Para quem tem dúvidas, Aja sustenta o filme com um ritmo que rapidamente agarra o espectador e o mantém imerso até que os protagonistas consigam se safar da adversidade. Sem compromisso, tudo o que “Predadores Assassinos” quer é te entregar uma experiência inquietante num período curto de duração. No final, terror é o que não falta.

Tubarões

Assim como as serpentes tiveram sua franquia com Anaconda, os crocodilos tiveram Pânico no Lago, os tubarões também. Não, não se trata de Sharknado e sim de “Open Water”. Talvez você não saiba do que se trata pelo título em inglês, mas a saga de três filmes recebeu nomes distintos nas traduções nacionais.

A primeira foi “Mar Aberto” (2003) a qual obteve o nome ao pé da letra do original (“Open Water”). A segunda foi “Pânico em Alto Mar”. (“Open Water: Adrift”, 2006) e a terceira “Terror Profundo” (“Open Water: Cage Dive”, 2017). Mesmo tendo um público fiel, no intervalo de tempo, outras façanhas trouxeram a vilania do tubarão. “Bait” (2012) e “Megatubarão” (2018) são exemplos de produções que conseguiram agradar a audiência, mas há duas que se destacaram, de fato: Águas Rasas (2016) e Medo Profundo (2016).

Comandado por Jaume Collet-Serra (“A Casa de Cera”, 2005), “The Shallows” (no original) agradou crítica e espectadores na trama que trazia uma surfista (Blake Lively) que, em meio ao luto, buscou conforto numa isolada praia paradisíaca e acabou sendo atacada por um tubarão. A luta pela sobrevivência e o estado de isolamento novamente foram o foco aqui, com o acréscimo de uma fotografia belíssima.

Cena de Águas Rasas (2016).

Produzido em 2016, chegando aos cinemas americanos em 2017 e no Brasil em 2018, “Medo Profundo” manteve o tubarão – os nomes se repetem, eu sei – como na inimigo trama em que duas irmãs (Claire Holt e Mandy Moore) de férias no méxico ficam encurraladas a 47 metros de profundidade no oceano. A ideia era ficar a 7 metros por alguns minutos, mas a corda que prendia a gaiola acabou se partindo.

A premissa de isolamento, e obviamente, sobrevivência se repetiram aqui, mas o longa também se destacou pelo contraste de cores entre azul e vermelho na fotografia, assim como a pegada de claustrofobia e aflição que se fizeram presentes entre as irmãs. Contudo, o apelo mais psicológico não acabou agradando a crítica que sentiu falta dos ataques do predador, mas ainda assim, a bilheteria foi o que vingou a película. Como resultado, “Medo Profundo: Segundo Ataque” enfim estreou na quarta-feira, dia vinte de novembro, trazendo quatro amigas em viagem no México para adentrar as ruínas de uma cidade subterrânea, Maia, para descobrirem que estão cercadas por tubarões.

Já as cobras, há um bom tempo que não dão as caras em produções duvidosas e muito menos em tramas bem amarradas fazendo buzz mundo afora, enquanto o crocodilos e tubarões estão chamando atenção.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.