Comentário | Ponyo (2010): adolescência, paternidade e maternidade

“Ponyo — Uma Amizade que Veio do Mar” foi lançado em 2010 e é uma obra prima do Studio Ghibli: discutir isso é insanidade. Miyazaki realiza um grande feito aqui, não apenas no visual, mas também (e como de costume), na narrativa. Até aí, nada a se contestar também. Mas, para além disso, o que essa aventura do mar pode nos mostrar é muito mais cotidiano e familiar do que a tradicional realidade fantástica explorada em outros filmes como Meu Amigo Totoro e As Viagens de Chihiro, para citar clássicos do estúdio e, também, A Tartaruga Vermelha, uma parceria mais recente. 

Ponyo resenha

Cadê o conflito em Ponyo?

O modelo “ghibliano” de produzir de Hayao Miyazaki e, consequentemente, sua forma contar de histórias é incomum. Por “modelo ghibliano”, entenda-se “geralmente desenhar os quadros da história antes de ter um roteiro em mente de fato”. Isso acaba, não por esconder, mas diluir algumas profundidades em sua (anti)narrativa. Não perceber isso só atesta que “as realidades mais óbvias são as mais difíceis de serem percebidas”, mesmo.

Talvez, tenhamos ficado mal acostumados, consumido histórias que são necessariamente guiadas por um fio condutor de tensão único muito óbvio que esfrega um conflito em nossa cara o tempo todo em direção à sua resolução. Se procurarmos por isso em Ponyo, porém, deixaremos escapar que, talvez, o filme esteja falando muito mais sobre amadurecimento do que, simplesmente, da história de um peixe que quer virar gente para viver uma amizade e, em seguida, como essa criatura e seu novo amigo saem a procura de uma adulta durante uma enchente marítima.

crítica Ponyo

Fujimoto e Ponyo: Pai contra Filha

O primeiro personagem cujas atitudes têm de ser colocadas em perspectiva é Fujimoto. O mago do mar é visto pela filha como um “bruxo malvado”. Nenhuma surpresa, já que tudo o que ele faz é tentar controlar e mitigar a transformação pela qual Ponyo está passando. Vale lembrar que a peixinha acaba por conhecer o mundo dos humanos por acidente e, felizmente, ela foi encontrada por pessoas boas: Sosuke e Lisa.

Parte da resistência de Fujimoto não vem apenas da não compreensão das mudanças pelas quais a filha está passando, mas da oposição que existe entre suas visões do mundo fora da água. Ponyo teve uma ótima experiência com as pessoas da superfície, foi acolhida sem ressalvas e pôde ver atitudes muito positivas, mesmo diante de dificuldades e situações complicadas e inexplicáveis. Fujimoto, por outro lado, só avalia que estas pessoas pertencem à mesma espécie que está poluindo os mares e acabando com a vida marinha sistematicamente. Um bom parêntese aqui é que, de certa forma, a temática ambiental transpassa os filmes de Miyazaki com frequência, destacando a ligação harmoniosa que deveria haver entre os homens e o espaço onde habitam. 

Ponyo personagens

A resistência de Fujimoto às mudanças da filha podem ser facilmente entendidas como as de um pai com dificuldades para lidar com a adolescência dos filhos. Essa fase da vida salta aos olhos ao pensarmos no personagem porque é justamente quando há uma etapa de passagem mais brusca em que o ser humano não é mais criança mas ainda não convive totalmente no mundo dos adultos. Esse meio termo é incômodo, dificulta o encontro de referenciais identitários e pode naturalmente levar as pessoas para testes de “tentativa e erro” em série. Frequentemente, os acertos são analisados como o cumprimento de uma obrigação tácita, já os erros são vistos como algo digno de opróbrio eterno e remorso.

Ponyo “adolescendo”

O método de “tentativa e erro” pode ser o único caminho para certos aprendizados, contudo, algumas tentativas são mais acompanhadas de inconsequência do que outras. Se nessa história Fujimoto faz o pai pouco compreensivo e que quer conservar uma ordem anteriormente estabelecida que lhe era confortável, por outro lado, Ponyo é uma garota que age de maneira inconsequente na busca pela concretização de suas aspirações.

Ao ingerir todos os elixires mágicos da caverna do pai e retornar uma vez mais para o mundo dos humanos a procura do seu amigo, Ponyo causa um enorme desequilíbrio ambiental que alaga toda parte costeira da cidade. Naturalmente, um transtorno muito grande é criado: navios correm enorme risco em alto mar, a cidade fica parada durante o alagamento e o abrigo para idosos fica inacessível. Certamente, nada disso foi levado em consideração pela protagonista pois seu objetivo era apenas um: rever Sosuke.

ponyo e sosuke

Mesmo cogitar que Ponyo tenha feito qualquer uma dessas coisas por mal soa errado, todavia, as consequências negativas do seu comportamento são inegáveis. Para resolver esses problemas, a intervenção de um poder maior se faria necessária.

A Maternidade em Ponyo

É sutil, mas Ponyo faz uma singela ode à maternidade e isso é lindo. Lisa e Granmamare têm, inegavelmente, suas maternidades louvadas por motivos diferentes. A primeira recebe louros pelos resultados evidentes de um esforço que a audiência nunca viu. Koichi (pai do Sosuke, talvez você se lembre dele por nome) parece ser ligeiramente ausente graças ao seu trabalho, então, não é um exagero pensar que é possível que Lisa tenha sido responsável por boa parte da educação de Sosuke e, para fim de argumento, que pai/mãe não gostaria de um filho com as características dele?

Imagem relacionada

Já Granmamare é menos presente ao longo da história mas, ao fim, ela é quem tranquiliza Fujimoto e conduz o acordo que dará à Ponyo a oportunidade de se transformar e crescer da maneira como entendeu que deseja ser e, ao mesmo tempo, pondo ordem ao caos ambiental criado incidentalmente pela filha.

Por fim, Ponyo dilui em sua trama esses significados que podem passar totalmente desapercebidos sem prejudicar sua compreensão.

Ou não, e essa é realmente apenas a história de uma amizade que veio do mar.


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