Comentário | A franquia “Os Incríveis” e o poder da nostalgia

Lá em 2004, no meio de uma explosão crescente de filmes de super heróis como X-Men 2 e Homem-Aranha 2, a Disney/Pixar trouxe um pouco mais da sua belíssima arte animada para as grandes telas. E abraçando essa ideia de trabalhar com super poderes e uma super equipe nasceu Os Incríveis, o verdadeiro quarteto fantástico que balançou corações nos cinemas. Se naquela época o filme fez um baita sucesso, seu final deixou a oportunidade de revisitá-los em breve, só que esse “breve” demorou quase catorze anos.

É muito bom poder ir nesse exato momento ao cinema ou até mesmo olhar em algum site de compra de ingressos e ver aquele poster bonitinho de “Os Incríveis 2” e os horários de suas sessões, e perceber que eu não preciso necessariamente ter jogado The Incredibles: Rise of the Underminer no Playstation 2 para saber como foi o embate da super família contra o toupeira, ou até mesmo para saber como o Sr. e a Sra. Pêra estão lidando com os poderes tão inusitados e diversos que o Zezinho tem. A espera finalmente acabou e com ela veio o sentimento que mantém algumas franquias vivas por muito tempo, principalmente quando as suas sequências demoram uma década ou mais para serem lançadas: a nostalgia.

Quando foi lançado, o primeiro filme da família Pêra teve uma aceitação muito boa da crítica e de boa parte do público, pois além de trazer uma linguagem que conversava tanto com o público mais novo quanto com o mais velho, a sua narrativa era trabalhada em um equilíbrio entre humor, ação e algumas pitadas de romance entre Roberto e Helena – e ainda teve espaço para a jovem Violeta passar pela fase das borboletas no estômago. Agora, quase uma década e meia depois, o filme conseguiu repetir a dose que fez de “Os Incríveis” uma obra tão querida, quebrando recordes de bilheteria nos EUA e sustentando mais uma vez uma ótima nota em análises de diversos sites e canais de entretenimento. Para fazer uma comparação breve, o filme de 2004 conquistou 97% de aprovação e um selo “fresh” no site Rotten Tomatoes, enquanto a sua sequência marca atualmente 94% com o mesmo selo de qualidade. A nota do público, ao contrário da nota da crítica, cresceu, saindo de 75% para 87%, ambas com a aprovação de qualidade no site do tomatinho.

Mas, afinal, por qual motivo esses filmes são tão importantes? Do ponto de vista de uma criança, jovem ou até mesmo um adulto que acompanhou a primeira aventura de uma possível franquia e se identificou de alguma forma com o filme, seja com seus personagens ou com algum elemento que tenha lhe passado uma boa vibe, uma continuação é sempre bem vinda – não podemos negar que muitas vezes queremos revisitar lugares e pessoas mesmo correndo o risco de não acrescentar nada de positivo com a sequência. Mas, além de ser somente uma sequência, “Os Incríveis 2” é uma daquelas continuações que nos ganham pelo tempo que vivemos acompanhando aquele único filme, revendo e revivendo aquele conto que provavelmente já sabemos de cor, mas não nos cansamos, e é isso que torna tudo tão especial.

Existem vários exemplos bastante recentes de sequências que tomaram todos os holofotes possíveis ao serem anunciadas e quebraram barreiras e recordes quando finalmente se tornaram disponíveis ao público. Procurando Dory, que em 2016 se tornou a animação com o maior valor arrecadado em seu final de semana de estreia nos Estados Unidos, só veio perder essa posição este mês para “Os Incríveis 2”, que abriu com $182 milhões de dólares contra $135 milhões do filme de Dory. E se olharmos para a franquia Star Wars, esses números só crescem.

E qual seria o grande triunfo da nostalgia de Os Incríveis? A relação entre todos os personagens ali. Desde uma conversa ao redor da mesa durante um jantar, até o agrupamento dos heróis mantidos presos em uma sala juntos e a sinceridade do relacionamento entre aquela família movia tudo, tudo isso era expressado dentro e fora das telas. Os Incríveis fala muito mais do processo de se construir uma família e saber aceitar as mudanças que estão para acontecer, do que se importar com uma cena de confronto entre super heróis e um robô gigante – que por sinal são ótimos momentos no longa. O filme trabalha o amadurecimento de um homem que tinha uma carreira brilhante enquanto Sr. Incrível e que resolveu mudar seu modo de viver para ser um pai; e de uma mulher que abandonou o uniforme para cuidar de seus filhos e vivenciar experiências as quais ela provavelmente nunca vai esquecer – nem se arrepender. Além do entretenimento, o filme conseguiu ser um reflexo sincero daquilo que muitas famílias encaram, só que com um pouco mais de animação – sim, esse foi um duplo trocadilho.

os incríveis

Muito além de ser somente uma continuação, “Os Incríveis 2” vem para trazer nova vida para uma franquia que já se tornou a favorita de muitas pessoas mesmo antes de se tornar de fato uma série de filmes. É legal ver esses personagens em ação outra vez? Sem dúvidas! Mas é melhor ainda saber que o cuidado com essa franquia não mudou, e que nem toda sequência é feita somente para fins lucrativos.

 


Entre no nosso grupo secreto no Facebook para interagir com autores e outros leitores e também no grupo do Telegram!

The following two tabs change content below.

Jardas Costa

PontoCaster, fã da DC e da Marvel (não DC vs Marvel), apreciador de um bom kalzone e sempre esperançoso por toda obra que está por vir, porque todo bom filme é uma boa forma de se compartilhar a vida.