Comentário: One Day at a Time (2017): como comédia é um ótimo drama

Aqui no PontoJão, estamos sempre batendo na necessidade de abordarmos temas relevantes nos produtos culturais e termos maior representatividade no cinema e nas outras mídias. “One Day at a Time”, a comédia que estreou na Netflix recentemente, marca essas três caixas com sucesso: é uma comédia relevante, inclusiva e culturalmente esclarecedora para a nossa sociedade. O problema é que isso, por si só, não garante a qualidade de um programa; com a intensidade de seus assuntos, “One Day at a Time” se vende como comédia, mas quase funcionaria melhor como drama.

one day at a time

A trama trata da família de Penelope Alvarez (Justina Machado), uma ex-militar que volta do Afeganistão para estar com sua família. Com sua origem cubana, os Alvarez precisam lidar com os conflitos geracionais que surgem em seu meio: a matriarca Lydia (Rita Moreno), mãe de Penelope, é uma cubana clássica, religiosa e conservadora; já Elena (Isabella Gomez), filha de Penelope, é uma adolescente feminista, envolvida com ativismo e ambientalismo, muito disposta a romper as tradições de sua família. O filho mais novo, Alex (Marcel Ruiz), é um consumistinha que não compreende a realidade financeira da sua família (e é muito chato, como um todo), e o senhorio que aluga o apartamento para os Alvarez, Schneider (Todd Grinnell), é um homem-menino que se considera parte da família.

O arranjo da série permite que todo tipo de arco relevante hoje em dia seja explorado no decorrer da série. Embora o centro do programa seja a realidade de famílias latinas morando nos Estados Unidos – o preconceito, as adversidades na migração e o fato de compartilharem o Sonho Americano -, “One Day at a Time” é um bingo excelente de todas as causas sociais que estão em voga. Vemos desde o sofrimento dos militares e sua dificuldade de readequação até a questão do significado do feminismo para diversas gerações, passando por religião, cotas e diversidade sexual.

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Isso faz com que a série seja altamente relevante. Dentro de uma roupagem carismática de comédia, os temas não parecem forçados, e são trabalhados de maneira natural, mesmo que formulaica, ao longo dos 13 episódios que compõem a primeira temporada. Assim sendo, é interessante que ela ganhe destaque e leve esses debates para mais círculos.

O problema principal de “One Day at a Time”, contudo, se dá em outro âmbito: a série é profundamente sem graça – o que é meio importante para uma série de comédia, convenhamos.

Em meio aos seus arcos interessantes, o humor da série, em si, bate fraco, com piadas previsíveis a milhas de distância e trocadilhos moles. O timing dos atores é bom, mas o texto parece privilegiar a importância social sobre o fator comédia – o que não é necessariamente terrível, mas certamente enfraquece a entrega. A série ainda se mantém interessante e leve… Só não é engraçada. E as risadas enlatadas de fundo só realçam o quão sem graça é o momento em questão.

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Como um todo, “One Day at a Time” é divertida, embora dificilmente vá te fazer gargalhar em algum momento. Seja como for, ela é uma série fluida que faz com que seus temas sejam aceitos melhor em ambientes nos quais eles não entrariam de outra forma. Para passar o tempo enquanto se está em um almoço desconfortável de família, “One Day at a Time” é uma boa pedida para antes da refeição, e certamente vai render debates interessantes com aquele seu tio preconceituoso. Se ficar difícil, tente lembrar que eles ainda são família, e leve um dia de cada vez – até porque, em última análise, esse é o objetivo da série.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.