Comentário: O Babadook (2014): o demônio e a depressão

Quanto mais negar, mais forte eu fico.

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O filme escrito e dirigido por Jennifer Kent — surpreendendo na sua primeira direção em um longa —, traz a história de Amelia Vanick (Essie Davis), que enfrenta problemas no cotidiano por conta da rebeldia de seu filho Samuel (Noah Wiseman), enquanto lida com a perda de seu marido.

Como se não bastasse para Amelia a dor do luto, uma dor de dente constante, e um péssimo relacionamento com a sua irmã Claire (Hayley McElhinney), o seu filho ainda alimenta a ideia de que há um monstro no seu quarto, e a tendência aumenta depois de ler o tão convidativo livro — ponto para a excelente ilustração de Alex Juhasz — “The Babadook”.

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“The Babadook” é o tipo de filme que não é fácil de entender, e precisa ser abraçado para ser apreciado. Apesar dos seus primeiros 30 minutos serem lentos, há muitos detalhes ali que servirão para compreender a sua trama, e, principalmente, os conflitos dos seus personagens. As atuações impactantes de Essie e Noah — que até então me eram desconhecidos — acompanham o longa num tom melancólico, e isso envolve cada vez mais o telespectador na convivência travada entre mãe e filho – os quais compartilham cenas intensas de tirar o fôlego.

Outro ponto positivo é como Jennifer Kent acerta por não mostrar mais que o necessário da figura de Babadook no momento em que ele se manifesta.  Além disso, a fotografia escura é o que favorece ainda a sua representação.

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Mas o seu maior trunfo aqui não está no drama e no toque de terror que compõem o filme, e sim em Babadook e seu significado, que nada mais é do que toda a dor reprimida que Amelia carrega. E isso reflete como muitas vezes nos encontramos na mesma situação que ela ao enfrentar o luto: caindo na rotina e a grande dificuldade em se reerguer. O que define se vamos seguir em frente ou não é o tempo e nossas escolhas.

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O seu desfecho pode não fazer muito sentido para alguns, e passar bem longe de ser satisfatório, mas é necessária atenção para compreender o que ele representa – afinal, nem sempre temos um final feliz. Uns julgaram como um terror anticlímax, com poucas cenas relevantes que apelam para o gênero, mas, no geral, “The Babadook” é muito mais que um monstro de um livro ilustrado, e aborda com maestria uma metáfora para um sentimento que, querendo ou não, em algum momento fará parte das nossas vidas.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.