Comentário: New Girl – 6ª temporada (2016-2017) é “tchau” com gosto de “adeus”

ALERTA: sitcom não tem spoiler. Mas, caso você ache que tem, saiba que esse texto contém partes da trama da 1ª a 6ª temporada da série.

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A série “New Girl”, estrelada por Zooey Deschanel, nasceu com alma indie. A atriz, conhecida primariamente pelo filme “(500) Dias Com Ela”, já trazia em sua bagagem a imagem de uma mulher “diferente das outras”, com estilo desapegado e adoravelmente estranha – o que, em inglês, costumam chamar de “quirky“. Sua personagem na série, Jessica Day, seguiu a mesma linha, ao ponto de ser difícil dizer se ela foi perfeita para a personagem ou se a personagem foi moldada pensando nela.

Seja a história qual for, já temos seis anos da estreia de “New Girl”. Enfrentando audiência instável, a série finalizou seu sexto ano com um final de temporada que de todas as formas teve gosto de um fim de série. O revés, no entanto, fica no fato de que Jessica Day continuou presa às características que definiam a personagem no início da série, de forma que todos os personagens pareceram evoluir… Menos a protagonista.

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É comum em séries longas que os coadjuvantes ganhem tanto ou mais espaço que os protagonistas, principalmente quando se mostram carismáticos ou mais queridos pelo público. Embora a história seja a de Jess, se adaptando à uma nova realidade, é difícil pensar em “New Girl” e não lembrar, por exemplo, de Schmidt e Cece. O primeiro, que era um galinha à la Joey e Barney Stinson, se encantou desde o início pela melhor amiga de Jess, mas só a ganhou de fato quando a mulher viu a mudança em seu comportamento. Enquanto Schmidt virou um homem belo, recatado e do lar, Cece gradativamente abriu mão de sua limitada carreira de modelo para se tornar agente de modelos, mostrando um amadurecimento natural da personagem. Juntos, o casal rendeu algumas das cenas mais adoráveis e emocionantes da série, com um novo ápice no final desta temporada.

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Enquanto isso, Nick Miller, nos últimos anos, foi, basicamente, estranho. Um dos personagens mais curiosos da televisão atualmente, Miller manteve suas manias e raciocínio louco ao longo das seis temporadas, tendo demonstrado progresso real na temporada anterior e na atual. De bartender descompromissado, Nick foi à dono de bar e, posteriormente, escritor cada vez melhor sucedido na carreira. Sua desconfiança com o mundo foi descascada aos poucos – desde sua resistência a deixar seu dinheiro em bancos até a se abrir emocionalmente para uma parceira -, ao ponto de ter um longo e (razoavelmente) saudável relacionamento à distância com Reagan (a eternamente insossa Megan Fox). Por mais que continue bizarro como sempre, é inegável que Nick de fato chegou a um lugar diferente de onde começou.

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De todos do elenco principal, contudo, o personagem que mais demonstrou crescimento foi Winston. Inicialmente entrando para substituir o personagem Coach, que saiu por conflito de agenda do ator que o interpretava, Winston se destacou por ser o morador mais inocente e doce do loft – o que é se dizer algo de uma série onde todos parecem uma versão adulta e neurótica de um desenho infantil. Despretensioso e sempre apaixonado por seu gato, Winston criou para si uma carreira, arrumou uma companheira e terminou a sexta temporada pronto para finalmente encarar seu passado.

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E onde isso nos deixa em relação à Jess? Nos primeiros anos da série, tudo se desenhava para que ela se tornasse o clássico estereótipo do Manic Pixie Dream Girl: a garota estranha e “diferente das outras” que chega para virar a vida de um homem de cabeça para baixo e para convidá-lo à aventura (como Ramona Flowers, em “Scott Pilgrim Contra o Mundo” e a própria Summer em “(500) Dias Com Ela”). Dentro deste conceito, a mulher é somente uma ferramenta de roteiro para progredir o personagem masculino, de forma que ela mesma é unidimensional – a moça nada mais é do que “inspiradora”, na melhor das hipóteses.

Contudo, Jess foi gradativamente deixando este molde limitador para trás ao vermos que seus companheiros de loft eram mais estranhos e aventureiros do que a própria garota, de forma que o clichê se inverteu. Ainda assim, alguma coisa parecia continuar a segurar a personagem: seus relacionamentos não progrediam, sua carreira era limitada e sua maturidade, como um todo, parecia ter atingido um teto. Ao terminar um dos seus relacionamentos mais estáveis, seu ex diz: “o problema é o Nick, Jess. Sempre foi.”

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E notamos que é exatamente isso. A personagem ficou impedida de evoluir mais por vários desses anos pela necessidade dos produtores de uni-la à Nick Miller ao final da série – muito provavelmente por demanda da audiência. Ainda assim, enquanto Nick tinha mais espaço para crescer, por ter iniciado a série bem mais imaturo, Jess estagnou exatamente naquela fala de seu ex-namorado. A partir dali, só cabia à personagem esperar pelo fim da série para ser pareada com sua alma gêmea.

Isso não quer dizer que a série parou de ser engraçada ou divertida. O que houve foi que o protagonismo de Jess em “New Girl” caiu e foi dando espaço para as tramas paralelas de seus coadjuvantes, com seus próprios caminhos a trilhar. Os diálogos e os arcos continuaram tão absurdos e divertidos quanto sempre foram, e “New Girl”, ao contrário de outras séries com sua idade, conseguiu manter sua qualidade intacta. O mérito da série se manteve igual, e tão engraçada quanto sempre foi.

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Há chances reais de “New Girl” voltar na próxima temporada; os analistas reportam que a série está disputando uma vaga na programação com outra veterana, “Brooklyn Nine-Nine”, mas que está a frente na disputa por ser produzida pelo mesmo canal que a exibe, facilitando as negociações. Ainda assim, é estranho pensar que este pode ser o último ano de Jess e companhia, principalmente ao vermos que todos os seus amigos de loft continuam avançando consideravelmente em suas vidas, exceto a protagonista. Entre risos, bons roteiros e tramas paralelas, foram excelentes seis anos, mas sofreu a protagonista, presa à uma necessidade dos produtores de mantê-la, para sempre, a “new girl“.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.