Comentário: Mumford & Sons – “Wilder Mind” (2015)

“Outra borda frágil, e um som delicado
E você encalhou
Próximo a uma lâmina cega, uma promessa fora do alcance de sua visão
Não há nada para você aqui esta noite.”

mumford-sons-wilder-mind

Já fazia um tempo que Mumford & Sons não lançava um álbum – o último, “Babel” (2012), mantinha-se fiel ao estilo do álbum de estreia (“Sigh No More”, 2009), porém ligeiramente aquém da qualidade do mesmo. Novamente três anos depois, “Wilder Mind” (Island Records/Glassnote/Gentlemen of the Road, 2015) (disponível na íntegra no Spotify) traz um som que se distancia consideravelmente do estilo inicial, com os ensaios anteriores de rock agora se tornando o ato principal do álbum, após um claro processo de desconstrução e reinvenção (que resultou na ausência de banjos…).

Quando olhamos o resultado como um todo, é notável que o quarteto enxugou tudo o que haviam feito até então à sua essência, despindo-se de coisas que julgaram desnecessárias no caminho (o que, infelizmente, inclui os banjos) para construir algo diferente sobre a fundação restante. É um exercício interessante de simplicidade e reinvenção, com todos os bônus e ônus do processo: exploram-se novas facetas, mas perdem-se elementos bons e diferenciais. Abaixo segue as impressões, faixa a faixa, desta nova empreitada do quarteto.

A “mente mais selvagem” do título já aparece na faixa de abertura “Tompkins Square Park”, que mostra a forte diferença em relação aos trabalhos anteriores; tirando o timbre singular do vocalista Marcus Mumford, poderíamos estar escutando um trabalho mais pop do Interpol. Isso não reduz a qualidade da faixa, com sua letra melancólica, abrindo caminho para a balada “Believe”, primeiro single do álbum. A canção tem riffs que a marcam (embora não sejam marcantes em si), e ainda mantém o momentum. “The Wolf” (que tem uma ótima apresentação ao vivo no Saturday Night Live) fecha uma boa trilogia de abertura, com impacto e o crescendo que é uma assinatura das músicas da banda.

Somos levados à faixa título, “Wilder Mind”. A inquietação exposta no nome da música está presente na letra, porém pouco na melodia em si; o contraste é agradável, e a sensação de inconformidade é passada de forma mais intensa. “Just Smoke” e “Monster” são canções que ficam proporcionalmente mais calmas e mais pesadas (liricamente falando) e que, no todo, servem como entrada para outro single do álbum, “Snake Eyes” – a qual novamente apresenta o selo Crescendo Mumford & Sons. “Broad-Shouldered Beast” não tem um arranjo marcante, porém a letra é envolvente. Já “Cold Arms” se apresenta como uma das melhores faixas do álbum; seu ritmo, contudo, explica o porquê de não ter sido posta entre os singles.

“Ditmas” e “Only Love” – duas canções complementares entre si que vêm em seguida – acabam sufocadas entre a excelente faixa anterior e a igualmente boa “Hot Gates” – quarto single do álbum. “Hot Gates” encerra “Wilder Mind” em um tom intimista e reflexivo, trazendo nuances de emoções tão delicadas quanto a sua letra, que aparece na introdução deste comentário.

Em suma, “Wilder Mind” é uma amostra do que o Mumford & Sons pode fazer fora da sua zona de conforto. Contudo, com exceção dos singles, o trabalho mostra mais um potencial ainda inexplorado do que um resultado concreto. Caso isso te deixe ressabiado, não deixe de ouvir o álbum: o Mumford & Sons se mantém capaz de compor músicas instigantes com letras excelentes, as quais enriquecem este álbum que, em si, é uma experiência – no sentido mais abrangente da palavra.

Se você gostou de “Wilder Mind”, poderá gostar de:

“El Pintor”, Interpol (2014)

“My Head Is An Animal”, Of Monsters and Men (2011)

The following two tabs change content below.

erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.