Comentário: Kin (2014)

KIN

“Dizem que a loucura transita na família. Dizem o mesmo sobre criatividade e paixão.”

É assim que começa a biografia da dupla Larkin Poe em seu site, resumindo a curiosa ascendência de suas integrantes, a qual inclui um parentesco distante com o genial Edgar Allan Poe. As irmãs Rebecca (vocal, guitarra, violão, bandolim e piano) e Megan (vocal de apoio, guitarra lap steel e dobro) Lovell formaram essa banda a partir de um variado histórico de influências musicais. Elas tocaram violino clássico durante a infância, participaram de coral, tiveram um trio de bluegrass (música de raiz americana e uma vertente do country) na adolescência e sempre escutaram muito rock’n’roll clássico. Com a criação da Larkin Poe, a dupla aproveitou toda essa bagagem de estilos para fazer experimentações com o seu som ao longo dos anos e, depois de cinco EPs, a banda lançou seu primeiro álbum, “Kin” (disponível no Spotify e na Deezer).

Comparado aos trabalhos anteriores da dupla, “Kin” apresenta uma grande mudança de conteúdo e formato; violinos foram deixados de lado e o bandolim passou a ser um discreto coadjuvante, enquanto as guitarras assumem liderança de um pop rock (ora mais pop, ora mais rock) influenciado pelo blues. Mesmo assim, as integrantes não perderam contato com as suas raízes do folk e country, ou a oportunidade de inserir outros elementos. A recorrente suavidade também está presente, mas divide espaço com algumas composições mais sombrias e com uma entrega mais agressiva.

Como o título já anuncia, “Kin” (que significa “parentes”) traz músicas que focam nos sentimentos de Rebecca e Megan, além de incluir memórias da excêntrica árvore genealógica das duas. O carro-chefe é “Jailbreak”, uma canção poderosa e com um toque de southern rock blueseiro, abrindo o álbum com uma letra que assume o tom de “a porta da rua é serventia da casa/já vai tarde”. O som que Megan tira com o slide em sua guitarra Rickenbacker Bakelite lap steel é ótimo e tem seu maior brilho nessa faixa. “Dandelion” é uma das mais interessantes, com uma roupagem pop (na versão de estúdio) dentro de um clima soturno, refletindo, curiosamente, com despreocupação e angústia sobre mortalidade.

A levada da música seguinte, “Don’t”, é ditada pelo riff inicial mais sujo da Fender Jazzmaster de Rebecca, em uma música simples e direta. Com ar de glam rock, a canção também inclui vocais muito bem trabalhados no estilo soul. “Sugar High” tem guitarras de bastante energia pop rock, além de ser bem voltada para o refrão, assim como “High Horse”. Em “We Intertwine” e “Crown of Fire” ouvimos o country alternativo, marcante nas origens da dupla. A belíssima primeira (lançada no primeiro EP da banda) é uma canção extremamente poética, solar e otimista em todos os sentidos, enquanto a segunda mostra sua beleza ao combinar confissões de um coração confuso e sofrido, em uma melodia aparentemente animada. Nesta faixa a dupla nos lembra que o amor é algo altamente inflamável, assim como Johnny Cash já havia cantado.“Elephant” causa um estranhamento inicial pela batida e a entrega quase hip hop, mas cativa pela criatividade com que isso é feito. Memórias sombrias de família surgem em “Banks of Allatoona” e “Jesse”, mas é em “Stubborn Love” o ponto alto de intimidade do álbum. Esta delicada faixa é uma declaração mútua de amor entre as irmãs e apresenta uma excelente harmonização vocal, um dos maiores atributos da dupla – e um deleite para o ouvinte. A reflexiva e sentimental balada “Overachiever” fecha esse álbum cheio de climas diferentes.

“Kin” é um álbum delicioso, que apresenta canções com cara de rádio (no melhor sentido da expressão) e deixa a curiosidade de saber quais serão os novos rumos da banda Larkin Poe, além de boas expectativas quanto a esse futuro.

 

Se você gostou de “Kin”, também poderá gostar de:
– “Are You Experienced?”, Jimi Hendrix (1967);
– “El Camino”, The Black Keys (2011).

 Bônus:

Uma diversão a mais é assistir aos vídeos que elas postam no YouTube, com um pouco do que as inspira musicalmente. Os covers vão de Simon & Garfunkel a Michael Jackson. Confira esse de “Off The Wall”:

 

 

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