Comentário: House of Cards – 3ª Temporada (2015)

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“Foi algo que meu pai me ensinou”, disse Frank Underwood, na agora longínqua segunda temporada de House of Cards, quando lhe foi perguntado o motivo de ele dar dois socos na mesa com certa frequência. “A ideia é endurecer suas juntas da mão para não quebrá-las caso entre em uma luta. Também tem o benefício adicional de se estar batendo na madeira. Meu pai achava que sucesso é uma mistura de preparação e sorte. Bater na mesa mata dois coelhos com uma cajadada só.”

Já havíamos visto que Francis J. Underwood está sempre pronto para uma luta, e pudemos assistir muitas delas, com o diferencial de que elas sempre ocorriam nas sombras e nos bastidores. Fosse com a lei relativa à educação da primeira temporada ou o relacionamento com os chineses no segundo ano da série, Underwood era a mão que se movia fora dos holofotes – agora não mais. Frank agora está sob total atenção do país, e não houve soco em madeira que o preparasse para o que estava por vir.

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Caso você (tenha passado os últimos dois anos num bunker no Vale do Jordão) não conheça a série, “House of Cards” é uma série original Netflix que conta a história do implacável e cruel político Francis Underwood (Kevin Spacey) e sua esposa igualmente calculista e ambiciosa Claire (Robin Wright) em sua escalada às esferas mais altas do poder – a custo de muito suor, intrigas e, eventualmente, algum derramamento de sangue.

“House of Cards”, em seus termos, é uma “Game of Thrones” moderna – e melhor. Suas tramas e discussões sobre o corromper do ser humano através do poder – ou, em alguns casos, o poder através da corrupção – é traduzida em uma narrativa fluida, impetuosa e magnética. Dos acordes iniciais de sua genial abertura feita por Jeff Beal até o momento em que o último episódio disponível acaba, “House of Cards” consegue manter o expectador preso a cada linha de diálogo e a todos os menores movimentos de seus personagens. Isso se dá principalmente graças a sua atmosfera atemporal, seu roteiro polido e seus atores impecáveis.

A começar por Kevin Spacey. O consagrado ator, ganhador do Oscar por “Beleza Americana” (“American Beauty”, 2000), apresenta em Frank Underwood tudo o que imaginamos dos piores políticos possíveis. Além de suas atitudes moralmente falidas em cena, os momentos de quebra da quarta parede, na qual ele se comunica com a audiência, nos dá vislumbres de sua mente – o que nos torna cúmplices resistentes de suas ações, nos deixando com um gosto agridoce principalmente devido à sua personalidade malignamente magnética. Sua cadência fria é quebrada eventualmente por arroubos de ira ou momentos de grande fragilidade, e a entrega de Spacey no papel nos faz ir além da casca de seu personagem, sendo expostos às nuances secretas que ele só apresenta para sua esposa.

Que tem seu destaque próprio. A Claire Underwood de Robin Wright (a Jenny de “Forrest Gump”, 1994) é uma personagem única em diversos aspectos, com uma atuação excepcional que rendeu a atriz um merecido Globo de Ouro em 2014. Enquanto sua dinâmica com Frank poderia definir sua participação na série, como em tantas outras, vemos em Claire uma mulher que não está atrás de seu marido, dando suporte, mas ao lado dele – e por vezes à sua frente – utilizando-se de seu posicionamento estratégico para alcançar seus objetivos. São dela os maiores sacrifícios no decorrer dos episódios; enquanto inicialmente poderíamos pensar que ela os fazia para elevar seu marido, o desdobramento da série – principalmente nesta terceira temporada – nos fez observar como suas ações calculadas buscavam uma agenda própria em sua interação com o meio.

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Meio este retratado por uma fotografia e montagem impecáveis. Seja com os claros closes em seus personagens mesmo em takes abertos, para aumentar a proporção deles dentre os demais e em relação ao seu redor, ou em tomadas escuras no porão da Casa Branca, através da fumaça de charutos (ironicamente) cubanos, o resultado das cenas sempre é o de nos levar além do tempo passado. Ao atravessar meses, vemos o impacto que estes têm em Claire, Frank e companhia, mas não há morosidade que pese sobre o espectador – o que contribui para o fator “assistir vários episódios seguidos” (“e por vezes se esquecer de dormir”). Sob as lentes de “House of Cards”, a Casa Branca nunca foi tão obscura.

Todo esse cenário ímpar é povoado por uma miríade de personagens de apoio marcantes. Nesta terceira temporada, vemos o braço direito de Frank e alcoólatra em recuperação Doug Stamper (Michael Kelly, em atuação louvável) lidando com os desdobramentos resultantes da temporada anterior já no primeiro episódio da série, e mantendo-o em um crescendo constante que culminou em um final questionável; Remy Danton (Mahershala Ali) e Jackie Sharp (Molly Parker) ganham espaço e notoriedade, e Sharp sai das sombras para seu próprio jogo nos episódios desse ano.

Mas quem rouba a cena é o presidente da Rússia, Viktor Petrov (Lars Mikkelsen, de “Sherlock”, e irmão mais velho do atual Hannibal – que família). Com o escopo internacional que a série toma nesta temporada, encontramos em Petrov, além de um óbvio avatar de Vladmir Putin (até com direito a Pussy Riot), um antagonista a Frank que consegue enfrentá-lo em todos os níveis. Seu ímpeto e falta de escrúpulos se mostram tão fortes quanto os de Underwood, com a vantagem de ter seu país sob um regime que governa com mãos de ferro e verve totalitária – te lembra alguém?

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Os diálogos entre Petrov e Underwood são facilmente os melhores desta temporada (algumas certamente figurando entre as melhores de toda a série), e cada vez que o imprevisível presidente russo é visto entrando em cena sabe-se somente que algo caótico está para acontecer.

Essa entropia latente permeia toda a terceira temporada, e isso já era imaginável. Agora que Francis Underwood está no topo, o único lugar para onde ele pode ir é para baixo – embora a série mantenha sua força e qualidade criativas. Muitas vezes “House of Cards” nos engana e se apresenta quanto um drama político, quando na verdade as suas dinâmicas em cena – principalmente do casal principal – nos faz perceber que ela é uma série que desconstrói o ser humano e apresenta o que há de pior em nós através do maior catalisador de caráter que já foi concebido na sociedade: o poder.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.