Referência | Crazy Ex-Girlfriend (2015 – 2019): de algum jeito você pertence

Sabe aquela série que é tão especial para você que a sua vontade é que todo mundo assista? Bem, assim me sentia em relação a “Crazy Ex-Girlfriend”, a finalizada série da CW. Falando do canal, a atração era mais uma das exceções que fazia parte da programação, sobrevivendo com uma baixa audiência e com um pequeno público fiel. A boa notícia é que apesar das dificuldades, os realizadores se empenharam para fazer quatro temporadas de um show importante e memorável.

Indo na contramão por consumir tantas séries ao mesmo tempo, me interessei pelo programa por se tratar de um musical. No cinema, muitos são os filmes que acompanharam gerações, já com o mundo do seriador, é fácil lembrar de “Hannah Montana” e “Glee” – se bem que a primeira não era um musical, mas trabalhava com um pouco com a música – mas desde a primeira impressão, é nítido que “Crazy Ex-Girlfriend” tinha um diferencial em seu formato, no entanto, podendo não agradar a todos que conferiram o seu piloto.

 

Cada temporada se dedicou a mostrar uma fase de Rebecca Bunch (Rachel Bloom) – a protagonista que é rotulada no título – assim como as pessoas que acompanharam e fizeram parte de suas mudanças. Na primeira entendemos o porquê do nome da série, ao mesmo tempo que adentramos nesse universo tão sensível e consciente.

Mesmo com um importante papel numa firma de advocacia, Rebecca deixa tudo para trás em Nova York e parte para a pequena West Covina, Califórnia, tudo isso porque acredita que ao reencontrar o cara pelo qual é perdidamente apaixonada – Josh Chan (Vincent Rodriguez III) – tudo ficaria perfeito em sua vida.

É nesse ato impulsivo que damos início a trama. Claro que mudar de região significaria ter que se readaptar em tudo, então, para manter as suas intenções camufladas, Rebecca precisou fazer com que as coisas parecessem normais, sem levantar suspeitas. Na sua busca por um novo emprego, se abre a janela para uma das aproximações mais improváveis e cativantes que poderia ter: Rebecca e sua futura melhor amiga Paula Proctor (a brilhante Donna Lynne Champlin).

Daí, é possível tirar algo em comum entre as duas: o desespero para se encaixar e agradar o outro. Rebecca não imaginava que ao chegar em West Covina teria uma “concorrente” impedindo o seu namoro com Josh, o que aguça sua obsessão com a belíssima instrutora de ioga – Valencia (Gabrielle Ruiz). Já com Paula, o carinho por Rececca é tão grande que se envolve rapidamente com as decisões da protagonista para conquistar Josh.

Rebecca no episódio piloto.

A intenção aqui não é fazer um resumo da temporada, mas só nos dois primeiros episódios é possível traçar a linha de abordagem que a série faz sobre o comportamento humano. Dentro disso, a música é usada para ilustrar os diversos conflitos dos personagens – como o incrível número musical sobre uma mensagem de texto enviada acidentalmente para a pessoa errada.

O mais contagiante em “Crazy Ex-Girlfriend” é como ela provou que não é difícil fazer um retrato honesto sobre o nosso “eu” num único show. O texto da série foi tão hábil e advertido que foi ganhando notoriedade pela atenção e esmero que desenvolvia suas questões.

Saúde Mental

Saúde mental foi um dos temas em que mais se persistiu até a finalização do programa. Nas mais variadas atitudes de Rebecca, no último instante, o que sempre voltava era a frustração e dúvida do que estava fazendo. Tudo o que ela queria era arranjar uma forma de expressar os sentimentos por Josh, mesmo que no percurso tivesse que ser aceita por todos os amigos do cara que não correspondia o mesmo amor. No fim de tantas tentativas para se declarar, Rebecca perdia a si mesma.

Foi uma jornada fabulosa e amplamente madura de se acompanhar. A protagonista do show sofria por muitas paixões e indecisões, mas longe desses sentimentos, tinha uma pessoa que precisava se conhecer, se rever, se lapidar e superar: o seu próprio eu. A maneira com que “Crazy Ex-Girlfriend” trilhou por quatro temporadas sem deixar o seu alvo principal fraquejar, se tornou especial e um dos percursores que mantinha a chama acesa entre o público.

Mas com certeza, a maior virtude foi pelo fato de podermos nos identificar fortemente com as características de Rebecca. Mesmo com o humor negro, ácido e sarcástico para arrancar um riso com facilidade, foi gratificante poder se sentir representado com uma personagem tão cheia de nuances. A escalada para a auto compreensão da moça foi um ponto que se manteve forte, contudo, nas fragilidades, conhecimentos, dúvidas, rótulos e evoluções a atração se estendia com seu jeito sincero de retratar tais experiências.

Representando e coreografando

No episódio final da série, no show, Rachel Bloom disse o quão importante era receber o feedback de que as músicas faziam o telespectador não se sentir sozinho. Não só a sua personagem transmitia o apelo forte com o qual o público se espelhava, e sim, todas as pessoas que eram ligadas a sua vida viveram figuras em situações que não seria muito difícil de você se pegar pensando “eu já passei por isso” – seja com Rebecca sendo a última a entender o contexto na roda de conversa ou Paula fazendo de tudo para evitar comemorar uma festa de aniversário por não saber lidar com como a coisa é.

Por utilizar do teatro musical, o finalizado programa da CW adotou o artifício perfeito que lhe possibilitou identidade e liberdade criativa. E por falar na criatividade, para cada nova faixa e seu respectivo videoclipe, era impossível não embarcar e se encantar pela forma com que a música era inserida perante os arcos desenvolvidos: sempre com coreografias cômicas, e belos figurinos, “Crazy Ex-girlfriend” brilhava ao referenciar e revisitar os gêneros da cultura pop. Mas claro que esse trunfo não seria tão emblemático se não fosse por todas as letras originais e com elas se encaixavam com o roteiro dedicado e honesto.

Assim, além de termos aquele momento impagável e envolvente de ver os membros do elenco soltarem a voz, das mais de 100 músicas que compuseram para a atração, fica difícil selecionar as melhores sem que a lista se limite a menos de 40 canções como também, às maneiras que foram expressadas – a coisa era tão especial que a Rachel liberou no último dia 7 uma música inédita que faria parte do 4×5.

Empoderamento feminino

Foram muitas as qualidades que caracterizam “Crazy Ex-Girlfriend” e tendo como criação duas mentes fenomenais – a de Rachel e Aline Brosh McKenna – e grande espaço para o protagonismo feminino, é imprescindível falar como a série deu voz para o empoderamento. A começar pelo nome que encabeçou a série. Irônico, não foi à toa ter um rótulo para Rebecca, rótulo esse que muitas mulheres recebem por puro machismo.

Voltando para a música, são incontáveis as vezes em que o programa ousou para falar de diversos temas sobre as mulheres: os perrengues que passam para se arrumar prum encontro; menstruação, sexualidade, órgão reprodutor, aborto, doenças, corpo, todas as abordagens feitas abertamente pontuando a trama que se mostrava evoluir cada vez mais.

Se engana quem achou que a série se tratou de mais um clichê de comédia romântica. Claro que pela intensidade que jogava com um texto habilidoso e afiado, tivemos momentos de metalinguagem satirizando a trivialidade do gênero, mas “Crazy Ex-Girlfriend” foi mais longe. Aos poucos, não acompanhávamos mais uma Rebecca perdidamente apaixonada, e sim, uma mulher que tinha seu passado e camadas sendo relevados para que entendêssemos sua trajetória: a busca pela felicidade e autocontrole.

Felizmente, a atração acabou no auge e abraçando com exatidão o que construíra, mas deixando para os fãs o legado de algo imenso e um sentimento de saudade. É muito difícil se encontrar neste mundo e até mesmo quem concorde com você, mas a série da ex louca foi consciente e madura para retratar os perrengues que é poder pertencer e aprender com a trilha que percorreu. Os altos e baixos surgiram, mas Rebecca pôde enfim estar no controle de suas emoções e decisões, para então caminhar para a que a faz feliz.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.