Comentário | Coringa, violência e arte

“Conriga” surpreendeu ao levar um Leão de Ouro no Festival de Veneza, um dos mais importantes do mundo. A mostra, até então, nunca havia premiado adaptações de quadrinhos e, apesar de, no geral, as expectativas e opiniões estarem elevando cada vez o conceito de crítica e público a respeito do filme solo do palhaço, foi com alguma surpresa que esse prêmio surgiu. Os fiéis da DC, que já se rejubilavam no Oscar de Maquiagem do Esquadrão Suicida não couberam mais em si.

Todavia, o filme está envolto em polêmicas que, talvez, a essa altura, tenham muito pouco a ver a direção de Todd Philips, a atuação de Joaquim Phoenix, a DC, a Warner ou os fãs de quadrinhos — por mais que alguns sejam, de fato, delirantes e se recusem a amadurecer. O fato é que optou-se por uma história de origem do Coringa em que o personagem é, a princípio, retratado como uma pessoa que tem problemas psicológicos e dificuldades de se inserir na sociedade e manter relacionamentos interpessoais.

Coringa resenha

Ora, qualquer um que tenha convivido com o personagem por mais de trinta segundos poderia pensá-lo como a pessoa que sem saúde mental; essa é, inclusive, a premissa do vilão. Assim, quem leu e entendeu A Piada Mortal, viu que Alan Moore não propôs que o Batman lutasse contra o vilão na cena final. Naquele momento, os personagens têm um diálogo e o morcego se coloca à disposição para resgatar Coringa de sua insanidade.

Coringa assistir
Se inglês não é teu forte, desculpa, não achei o painel em português. Mas dá um Google aí.

Contudo, aparentemente, uma parcela do público, em especial consumidores contumazes de cultura pop, tem uma dificuldade muito grande para entender representações simbólicas. A má compreensão de personagens que possuem um ethos cinzento, deixa marcas na cultura — vide Capitão Nascimento que, para muitos, nem é considerado vilão. Acredito que o caso de “Coringa” seja preocupante porque pessoas que costumam falar muito mal de diversidade representativa quando aplicada à personagens LBGTQ+, negros, asiáticos, mulheres, etc., decidiram ter o Coringa como seu baluarte.

Coringa
Se esse perfil não estiver mais ativo e postando é porque as denúncias surtiram efeito.

Todavia, nada pode ser afirmado de fato sobre como o filme será recebido pelo público até que as reações apareçam — apesar de que desgraças “influenciadas” pelo cinema não sejam novidades . Mas o fato é que ter um filme dedicado a um vilão tão ridiculamente carismático e marcante para a cultura pop, produzido com rigor artístico e uma estética aprazível pode, na verdade, fazer a diferença, destacando ainda mais a incapacidade do grande público de entender nuances ao internalizar certos “valores de uma obra” quando eles são evidentemente antiéticos, desumanos e implicitamente desencorajados pela própria trama.

Aliás, sendo bem honesto, especialmente com o público que costuma consumir filmes de heróis de maneira mais passional, existe, ainda, um choque quando qualquer tema ligeiramente politizado aparece nesse contexto, como o feminismo em Mulher Maravilha e Capitã Marvel ou o racismo em Pantera Negra, esquecendo-se de que parte dos quadrinhos, o gênero de super-heróis especialmente, tem sua criação fundada em motivações políticas.

Capitão América socando um nazista
É certo socar um nazista?

Além disso, vale chamar atenção para o fato de que talvez Coringa seja o primeiro filme de vilão realmente atrativo até então. Tivemos Esquadrão Suicida, (que aparentemente só eu gostei) e Venom (quem se importa?).

Por fim, não há nada de novo de baixo do sol e o que quer que aconteça com “Coringa”, podemos relacionar a Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. O diretor, muito incomodado com a repercussão de seu filme, pediu que ele fosse retirado de circulação até a sua morte. Mas o fato é que Laranja Mecânica (tanto o livro de Burgess, quanto o filme de Kubrick) dificilmente faz uma apologia à violência apesar de retratá-la tão graficamente — muito pelo contrário! O autor do romance e o diretor do filme não foram, de maneira alguma responsáveis pelos crimes que foram cometidos impulsionadas pela simpatia do público pela personalidade de Alex, especialmente da primeira metade da trama.

Contudo, como dizer que a vida não imitou a arte?

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