Comentário | Clerks — O Legado do Primeiro Filme de Kevin Smith

Explosões gigantes, animais feitos em CGI, efeitos especiais que são incríveis (durante alguns meses) e uma profusão de nomes subindo nos créditos são algumas das características mais comuns na maioria dos filmes que fazem muito sucesso hoje. Exceto pela época do Oscar (a copa do mundo dos filmes), quando todo mundo fica meio cult, isso é o que as pessoas costumam ver no cinema. O fato é que essa ruma de pomposidades, além, é claro, da enorme quantidade de zeros preenchida em contratos de figurões que movimentam a indústria, acabam tirando o espaço de filmes que, com pouquíssimos recursos, conseguem fazer enormes proezas. 

Um desses casos de produções independentes que são melhores do que muita tralha bilionária de Hollywood é Clerks (O Balconista). Escrito e dirigido por Kevin Smith nos idos de 1994, o filme tem uma história praticamente inexistente e mostra situações cômicas em contextos que faziam parte do único universo conhecido por seu idealizador na época. O primeiro filme da carreira de Smith teve de vencer os danos causados por uma enchente, orçamento curto e falta de pessoal, além de outros percalços para sair do papel e chegar a ser distribuído pela Miramax. Tudo isso é válido para lançar um holofote sobre algumas coisas que são realmente importantes para quem aprecia filmes ou quer fazer cinema.

Clerks Kevin Smith


Em primeiro lugar, nada de mundos ‘estrombólicos’, cheios de complicação e personagens vindos de algum esquema monomítico de Joseph Campbell. Situações e pessoas “normais” funcionam bem. O cotidiano pode ser complexo por si só, apesar de banal. Kevin Smith optou por não ser pretensioso e resolveu rodar seu filme no ambiente em que mais tinha estado até então: uma loja de conveniências (a única em que ele havia sido empregado, inclusive). Além disso, seus personagens principais, Dante Hicks e Randal Graves são baseados nele mesmo e em seu amigo Brian Johnson, remontando a época em que eles trabalhavam juntos e parecia que os clientes estavam constantemente ali para interromper suas conversas. 

Em seguida, Clerks é a prova de que uma ideia na cabeça e uma câmera na mão podem funcionar, sim! Desde que com um bom roteiro. O filme é praticamente uma peça teatral, com poucos cenários e ações, mas, em compensação, muitos e ricos diálogos cômicos. Kevin Smith trata a direção dos diálogos com absoluta minúcia, o que deixa bem claro que, paradoxalmente à improvisação de conversas reais, é justamente de lá que eles foram tirados.

Ok, ok, “ideia na cabeça e câmera na mão, mas quem paga a conta?” A resposta… — ninguém (a princípio). O diretor e roteirista de Clerks gastou em torno de 27 mil dólares de seu bolso. Uma bagatela se comparada aos 1,5 milhões que renderam a Moonlight o Oscar de melhor filme (um valor também surpreendente, convenhamos). O diretor conseguiu se financiar com o dinheiro da venda de suas coleções de discos e quadrinhos além de uma uma gigantesca dívida de inúmeros cartões de crédito estourados. 

Por fim, mas não menos importante, ter amigos que topem entrar nas suas enrascadas é fundamental. Boa parte do elenco e equipe técnica foi composta por pessoas muito próximas a Kevin, que ajudavam quando alguém não ia para a gravação (algo recorrente). Receber uma mãozinha de um conhecido é normal, mas, quando se está gravando numa loja de conveniências de 11 da noite às 5 da manhã, isso não é tão comum quanto pode parecer e, ainda por cima, algumas coisas ganham outras proporções, como ter a própria irmã dizendo que masturba macacos para viver. É bem verdade que muitos desses “atores”, jamais fizeram qualquer outro filme relevante, contudo, Clerks, definitivamente, vale a pena.

Kevin Smith Clerks


O filme ainda foi gravado em preto e branco para eliminar os custos com iluminação e tratamento de imagem, o que prova que soluções criativas podem ser mais importantes do que financiamento. Isso fica perceptível tanto na apresentação do filme por si só, quanto no conhecimento de todo o seu making of e na inspiração que ele é capaz de gerar em aspirantes a escritores, diretores, produtores e toda essa patota cinematográfica.


Este texto foi originalmente publicado na Revista Crokodilo que você pode baixar gratuitamente aqui!

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