Comentário |Cinema Pop: passado, presente e futuro – uma conspiração

O ano é 1975, um certo Steven Spielberg lança Tubarão. Nos anos seguintes, George Lucas lança Guerra nas Estrelas, e, anos mais tarde, os dois colaboram, com roteiro de Lawrence Kasdan (de O Império Contra-Ataca), na criação de Indiana Jones. E o cinema popular nunca mais foi o mesmo. Histórias de aventura como essas sempre existiram em Hollywood, foram inventadas por Hollywood, mas essa sequência foi divisora de águas. Foi a primeira vez que esses filmes, os hoje chamados blockbusters, se viam livres da censura do código Hays. Casablanca, os filmes de Hitchcock, Lawrence da Arábia – esta não é uma história exaustiva do cinema, preencha você as lacunas –, criaram a receita do que é um filme, mas eles tinham de lidar com limitações tecnológicas e moralistas. Entre 1930 e 1968, nenhum filme lançado nos EUA podia conter nudez (sim, antes de 1930 isso não era problema), profanidade (não estou falando só de palavrões, mas termos como Jesus, Cristo, inferno et cetera, uma dublagem brasileira seria considerada profana naqueles tempos), insinuações sexuais, menções ao parto, miscigenação, e essas são apenas algumas das proibições, tinha também a lista de “coisas a serem evitadas”. Quebrar essas regras te botava numa lista negra e você nunca mais achava trabalho ou precisava pegar emprestado o nome de um amigo.

Como é natural depois de um longo período de censura, os filmes pós-código Hays foram pura porra-louquice. E que delícia foi esse período, quando finalmente foi permitido aos cineastas estadounidenses a experimentação na narrativa. Foi aí que gente como Sidney Lumet, Martin Scorcese, Brian DePalma, pôde trabalhar em paz. Também foi um período sombrio, em que quase todo o filme se dedicava a explorar a miséria humana com requintes de crueldade. Bons que os filmes fossem, o expectador saía do cinema desesperado para tomar um banho. E, claro, como é de praxe, não demorou para que a coisa ficasse cansativa, repetitiva. Até as maiores crueldades se tornam banais quando repetidas mil vezes. O público, talvez – é necessário que eu deixe claro que isso não passa de especulação minha, eu não estava lá, só analiso acontecimentos e tento dar sentido a eles –, pedia por leveza.

Cinema pop

O fim dos anos 1970 até os anos 1980 ofereceu essa leveza e criou a maior parte das referências à cultura pop regurgitadas nas obras contemporâneas. Não me peça para explicar o que c***lhos aconteceu na década de 1990. Descobriram a palavra “estilo” e ela foi abusada de todas as formas possíveis. Enfim, Armageddon foi cometido às telas de cinema. Um épico de 3 horas de duração, com sensação temporal de 7 horas, composto basicamente de clichês, explosões e manipulação emocional, indo de cenas em que pessoas de todos os cantos do mundo rezam para a bandeira dos EUA até aquela música nauseante do Aerosmith.

Só pro caso de você não saber de que música estamos falando.

Armageddon foi outro divisor de águas. O que começou com Tubarão, acabou em Armageddon. Michael Bay entendeu o sistema e ditou as regras para o cinema pop contemporâneo dali em diante.  

Falar do contemporâneo é particularmente complicado porque não se sabe quais serão as consequências. É fácil e divertido culpar o Michael Bay pela superficialidade nos blockbusters atuais, mas é mentira. Filmes bestas do tipo desligue o cérebro e veja o brilho das chaves tilintando em frente aos seus olhos sempre existiram e sempre existirão e, por alguma razão que me escapa, sempre serão um sucesso. É bom tirar sarro de Transformers, mas quantas sequências esse filme teve e qual foi o lucro obtido? É seguro dizer que Michael Bay também riu bastante.

Se formos falar do contemporâneo, até arriscaria dizer que a atual função da Disney no entretenimento é outro divisor de águas, diferente e mais espantoso que Tubarão e Michael Bay juntos. Nenhum outro produtor, que eu saiba, causou efeitos tão fortes. Falo das franquias Marvel e Guerra nas Estrelas. Elas têm tantos pontos em comum: vilões nada ameaçadores, um maniqueísmo velado – tentam disfarçar a presença do bem e do mal com ambiguidade moral, mas no clímax fica bem claro onde está o bem, por exemplo: em Os Últimos Jedi, Kylo Ren ofereceu aliança à Rey (Darth Vader fez o mesmo com Luke em Império, só que, ao invés de dizer “vamos dar fim a essa merda”, ele disse “una-se ao lado negro”) nublando a impressão de bem e mal, mas no fim do filme os papéis estão bem divididos e definidos, o que mata o propósito da cena –, piadas do começo ao fim até em momentos que deveriam ser dramáticos, e, principalmente, existe uma sensação de inconsequência nos atos – o vilão pode eliminar metade da população do universo, mas o espectador sabe desde o começo que é reversível porque existem tantos outros filmes envolvendo as personagens mortas em pré-produção. A Disney e suas franquias incluíram até uma metalinguagem nova no cinema, a consciência de que aquelas personagens são lucrativas, representam mais do que seus papéis nos filmes, elas são produto. Sempre foi assim, produtos de personagens populares sempre foram vendidos, as engrenagens da máquina é que nunca foram tão expostas. Pode ser que o consumidor só esteja tão familiarizado com essas maquinações do capitalismo que seja impossível esconder as intenções, mas pode ser outra coisa. Se sou vago, é porque a “coisa”, pra mim, não está clara. Digo, não sei até onde isso pode chegar.

Que existe uma padronização, isso é óbvio. Que o consumidor engole essa padronização sem pensar duas vezes, também. Mas e daí? O objetivo dessa fórmula, que, me parece, foi aperfeiçoada pela Disney, é agradar o maior número de pessoas possível ao mesmo tempo que causando repulsa no menor número de pessoas possível. Atingir um ponto zen budista de neutralidade. Pra arte, isso é péssimo, o resultado é insípido, mas os investidores estão gozando litros e o consumidor parece bem. Esses filmes são muito bem avaliados, tanto pelo público quanto pelos críticos – não tanto nem todos pelos críticos, no entanto, eles não são considerados Ruins por quase ninguém, até porque eles não podem ser Ruins, objetivamente falando. Mas para onde isso vai nos levar? Essa estratégia é muito parecida com as das corporações que precarizam o trabalho. Amazon, Uber, Ifoods… são prejudiciais, nós sabemos disso, mas, meu deus, como são convenientes. E, meu deus, como esses filmes são convenientes. Não tem como errar com eles. Está entediado? Bota o mais recente dos Vingadores, vai te fazer rir, vai te distrair dos problemas por três horas, e, se não for suficiente, maratone Guerra nas Estrelas de novo, ou Toy Story, ou qualquer outra animação que faça você rir, chorar e, ao mesmo tempo, não parece trazer consequência alguma ao seu estado emocional quando o filme acaba.

Se até agora eu foquei em Hollywood é porque nenhum outro país investiu tanto na indústria do entretenimento. Filmes latino-americanos, europeus, asiáticos, africanos, dependem de verbas públicas e o cinema independente estadounidense depende de caridade (Terence Mallick pedindo dinheiro dos amigos ricos, por exemplo). O que vai ser desse pessoal no futuro, eu prefiro não pensar nisso. Alguns, como Jim Jarmusch, têm cedido à indústria do streaming, que não pode, por enquanto, ser tão exigente quanto Hollywood, onde um filme que lucra milhões é considerado fracasso porque custou bilhão pra fazer.

Tenho minhas teorias sobre as consequências disso e, de novo, parece com as intenções das corporações “malignas, porém convenientes”: automação. Essa fórmula Disney do cinema inofensivo e viciante pode ser alimentada num algoritmo. Esses roteiros já são escritos por múltiplos funcionários, cada um responsável por uma demografia, em busca da desassociação com o indivíduo. Daí à automação completa, me parece, basta uma inteligência artificial bem programada. Isso soa conspiracionista, mas quando eu vejo o tanto de dinheiro envolvido em investimentos em inteligência artificial, parece que não estamos longe disso. Atores ainda serão necessários. Câmeras e alguém para dirigir as cenas, também, por enquanto. Só por enquanto. Roteiristas já são figuras ignoradas e as mais fáceis de substituir. Pode ser que no começo sejam necessários nomes humanos nos créditos para não assustar ninguém, mas, quando o consumidor descobrir que aqueles filmes tão amados do ano passado foram feitos por um algoritmo, vai ser só mais uma conveniência.

Este comentário foi escrito pelo Raphael Dias do blog Delirium Scribens e da newsletter descupla qualquer coisa (<— assine).

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