Comentário | Buscando… E o mito da imparcialidade

Atenção: esse texto possui spoilers

Diante de dilemas, é muito comum se dizer que “quem a vê a situação de fora, consegue enxergar melhor”. Esse argumento apela para a imparcialidade de uma pessoa que não esteja envolvida com o conflito em questão e também deslegitima, de certa forma, as ações tomadas por quem está sendo diretamente afetado, como se a esses fosse retirada qualquer capacidade de senso crítico, estando, assim, a mercê das próprias emoções, enquanto aqueles pudessem pensar de maneira lógica e racional.

imparcialidade

 

Pensando nisso, Buscando… (Aneesh Chaganty) tem como recurso principal a interessante proposta de ser um filme que se passa através de telas (computadores, celulares, web cams, televisões, dispositivos de gravação, etc). Sendo essa a forma escolhida para contar a história, o conteúdo da narrativa é simples: Margot Kim (Michelle La) desaparece e David Kim (Jonh Cho), seu pai, começa a procurar por ela.

Pai e filha têm uma boa convivência, embora ambos não lidem bem com a perda de Pamela Nam Kim (Sara Sohn), esposa e mãe dos demais personagens, respectivamente. As investigações sobre o sumiço de Margot trazem essa percepção à tona e o fato de que talvez a menina seja mais negativamente afetada pelo luto do que David imaginava até então. Assim, um relacionamento que parecia ótimo, na verdade, se sustenta em aparências e o pai pouco sabe sobre a vida da filha de fato. Ao longo da investigação, a paternidade de David vai sendo colocada em xeque, visto que o suposto desaparecimento pode vir a ser, na verdade, uma fuga.

É nesse momento que o público entra na história.

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Evidentemente que ao espectador só resta observar o desenlace da trama, contudo, o fato de termos a história se passando em telas dá aos personagens uma trivialidade que torna eles menos dramáticos no sentido literal da palavra “drama”: “atuação”. Portanto, não parece que estamos acompanhando uma estória e sim assistindo a uma história documental jornalística. Dessa maneira, vemos de fora, e fazemos os julgamentos a respeito das motivações para Margot fugir, dos lapsos de David enquanto pai e dos demais são personagens satélites que gravitam em torno deles. Assim, não os julgamos enquanto ficção com a carga pessoal que normalmente faríamos. Muito menos somos levados a, empaticamente, nos colocar no lugar das personagens.

Assim como num noticiário, acompanhamos o desenvolvimento da história como se tudo já tivesse acontecido, nada pudesse ser feito e nenhum comentário seria minimamente relevante.

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Porém, é na levada final do filme que o espectador deixa de ser tratado como quem está de fora, e pode ver as coisas de maneira mais passional. Todo o problema da policial que vai até as últimas consequências para proteger um filho provoca indignação e, a partir daí, tendemos a parar de ver o filme como fatos dados, sob os quais nem nos cabe opinar, e passamos a questionar a moral dos personagens e suas atitudes. Por fim, talvez o próprio roteiro apele para as nossas emoções quando “decide” salvar Margot e, assim, dar a um pai relapso a chance de redenção.

O que Buscando… nos traz é que, talvez, ao olhar através de uma determinada quantidade de lentes, conseguimos nos distanciar emocionalmente do que está acontecendo. Mas a questão é: quantas telas são necessárias para evocar nossa “imparcialidade”?

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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.