Comentário: Brandon Flowers, “The Desired Effect” (2015)

O primeiro som do álbum é o que temos mais próximo de glitter em forma sonora, e a explosão seguinte já nos localiza: estamos no novo CD solo de Brandon Flowers, “The Desired Effect” (Island/Virgil EMI, 2015). O amor de Flowers pelos sons e batidas dos anos 80 está presente, e às vezes ganha um contorno meio obsessivo daquele apaixonado que esconde cartas no caderno da amada para ela achar depois e que aparece com uma caixa de som do lado de fora da casa dela – vestindo uma jaqueta neón – para pedir perdão à garota com “With or Without You” de fundo. Talvez esse seja o mais próximo que chegamos de uma projeção visual do novo trabalho do vocalista do The Killers.

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Antes, preciso admitir que gosto bastante de The Killers e do último álbum solo de Flowers, “Flamingo” (2010), mas gosto ainda mais de músicas da década de 80, então os óculos que uso para enxergar esse álbum (?) são aviadores espelhados que fazem tocar “Danger Zone” de fundo sempre que os ponho (i.e., provavelmente serei parcial na minha avaliação).

Como a ordem das músicas – excetuando a primeira e a última – não parece afetar o conjunto da obra, vou me dar ao direito de fazer a mesma coisa. A música de abertura já citada, “Dreams Come True”, é pontuada todo o tempo por efeitos mágicos, o que a) nos faz esperar um “bippity boppity boo” a qualquer momento; b) enjoa depois de um tempo. Por outro lado, “Can’t Deny My Love”, que a segue, é forte e enérgica (o que subentende que tive que me controlar para não cantar junto no meu ambiente de trabalho) e é, provavelmente, a melhor faixa do álbum nas primeiras ouvidas.

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Capa do single.

“I Can Change” e “Never Get You Right” são as músicas que trazem a essência do som oitentista com adornos contemporâneos de batida eletrônica, e enriquecem o álbum como experiência ao torná-lo mais tridimensional em sua composição; o contraste entre os sintetizadores perenes (em todas as músicas, inclusive) e a batida-de-boate que nos é conhecida gera uma criatura deveras interessante. Já a tridimensionalidade de letra é muito favorecida por “Between Me and You”, que explora com delicadeza um monólogo que muitos de nós, se já não tivemos, teremos em breve: o (inútil ato de) planejar do futuro que, por definição, está fora do nosso controle. Flowers balanceia em sua letra suas expectativas com promessas que pretende cumprir, e o resultado é uma bela canção de perseverança em prol de possibilidades além de sua capacidade de geri-las.

“Still Want You” e “Diggin’ Up the Heart” são as clássicas músicas inocentes que embalariam o fim de clássicos que víamos na Sessão da Tarde – o que é uma coisa legal se você, como eu, curtia esse viés.

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“Lonely Town” (nessa, inclusive, ele diz estar “parado do lado de fora da sua casa”. Não disse?) e, principalmente, “Untangled Heart” são hinos dos anos 80 para os anos 80. As notas que ressoam no refrão vão te dar nostalgia de uma época que você provavelmente não viveu – e mesmo os que viveram, estavam geograficamente deslocados do cenário que Flowers pinta com sua voz sempre afinada.

Fechamos o álbum com “The Way It’s Always Been”, uma faixa mais introspectiva que vê Flowers vendo um dia em sua vida e se perguntando se algo realmente mudou em todo esse tempo. Dessa forma, a faixa funciona como uma analogia para todo o álbum: o segundo trabalho solo de Brandon Flowers ao mesmo tempo traz sua paixão pelo passado com uma roupagem (discretamente) moderna para provar que alguns conceitos e formatos sobrevivem ao teste do tempo, ao mesmo tempo que é uma prece para que outras coisas se mantenham as mesmas em um mundo que tem uma queda por renegar o que já foi em prol do que quer ser sempre que as coisas complicam. Tendo este objetivo em mente, o álbum de Flowers é consistente – embora nem sempre na sua melhor forma -, e de fato alcança seu efeito desejado.

Se você gostou de “The Desired Effect” pode gostar de:
Goldfrapp, “Head First” (2010);
Cut Copy, “Free Your Mind” (2014);

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.