Comentário: BoJack Horseman – 3ª Temporada

Observação: Esse texto pode conter spoilers moderados. Se você se importa com isso cheque nossos textos anteriores sobre a série. Se não, espero que goste das linhas abaixo. 

A terceira temporada de BoJack Horseman tem repercutido de maneira inacreditável para o formato do show. Isso é algo realmente surpreendente, visto que estamos falando de uma animação para adultos com uma carga extremamente existencialista, além do absurdo nível de representação e crítica das realidades em que está inserida.

Estruturalmente falando, o que salta primeiramente aos olhos de quem já assistiu as temporadas anteriores da triste vida BoJack, é que a narrativa está mais refinada. Em vários momentos os episódios são entrecortados de maneira que só façam sentido ao final. A metalinguagem foi finalmente explorada de maneira muito precisa (embora tímida) e elementos que pareciam jogados aleatoriamente ao longo de toda a temporada convergiram para criar piadas inacreditáveis. A construção do texto e o crescendo da série foi, em vários momentos, simplesmente, incrível.

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A narração focada no nosso has been favorito mostra BoJack perseguindo um grande ideal dessa vez. Com o sucesso de Secretariat, filme que teve a versão digitalizada dele como ator principal, um Oscar seria um páreo possível e, na falta de objetivos de vida mais relevantes, BoJack resolve investir todos os seus esforços nisso.

Isso dá margem para vermos BoJack sendo a pior pessoa do mundo, do primeiro ao último episódio. A terceira temporada é, definitivamente, o fundo do poço para o personagem. Mas esse não é apenas um momento extremo de sua vida em que nada dá certo. Essa é uma fase ruim que se estende ao longo dos 12 episódios. Em geral, uma fórmula é identificável: BoJack imagina que algo vai trazê-lo felicidade; ao alcançar isso ele se frustra por não sentir-se totalmente satisfeito (como se isso fosse possível), pede ajuda e não recebe, por já ter sacaneado com todos os amigos. A variação disso é quando os objetivos não são alcançados e os resultados são igualmente desastrosos. No fim das contas, só a única coisa que resta é o desespero da solidão.

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Uma crítica feroz à felicidade enlata que é vendida pela mídia e pela auto-ajuda de quinta categoria tão recorrente nas nossas vidas, atestando que o cumprimento de determinadas metas serão capazes de nos salvar de nós mesmos, das escolhas que não foram felizes, enfim, da vida como ela é. Além disso, a maior parte do vazio do protagonista se dá porque todos os seus relacionamentos foram baseados na sua carreira como ator, algo que ele faz, mas que se confunde de maneira disfuncional com quem ele é.

Porém, apesar da série ser homônima ao protagonista, os outros personagens também brilham em diversos momentos. Ana Spanikopita, responsável pela publicidade de BoJack, e  Emily, amiga de infância de Todd, fazem aparições que chamam atenção. Enquanto Ana tem um rápido relacionamento amoroso com BoJack e lança uma luz em alguns fatos da vida dele, Emily demonstra interesse em Todd, algo que ao final traz uma revelação interessante sobre o personagem. Em outro núcleo, Diane fica um pouco apagada ao longo da temporada, mas ganha um episódio muito bom em que ela tem um aborto. O tema é discutido amplamente e vários espectros da discussão são mostrados. Como não poderia deixar de ser, um humor polêmico e, por vezes, desconfortável aparece aqui e ali, deixando a discussões sobre o que é “politicamente correto” ou qual é o “limite do humor”, sinceramente, desnorteadas.

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Pôster da 4ª temporada que já foi confirmada

Narcisismo. A busca por uma felicidade que não vem. A ansiedade por sentir-se completo. A necessidade que fazer amigos que deem suporte e nos perdoem, apesar de sermos incapazes de melhorar, ou mesmo agirmos de forma decente com eles. Esse é o quadro da pós-modernidade que a série pinta com um realismo avassalador. Além disso, existe a tendência niilista de BoJack, que aponta para o desespero da falta de sentido na vida em seu caminhar imparável para a morte. Porém, o nada também se apresentou em Todd, que, justamente pela ausência de significado em si mesmo, torna-se capaz de perder a oportunidade da sua vida e, ainda assim, sentir-se extremamente feliz e satisfeito.

Como era de se esperar, e já tem se tornado uma característica da série, o fim da terceira temporada de BoJack Horse deixa muitas dúvidas no ar e janelas de oportunidade para fazer com que a quarta temporada seja ainda mais devastadora.

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