Comentário: “A Piada Mortal” (1988)

Abuso físico. Paraplegia. Tortura psicológica. Niilismo. Piadas. Você poderia estar lendo “Garota Exemplar” ou vendo um filme de Lars von Trier, mas você encontrou tudo isso em uma revista em quadrinhos (ou “graphic novel“, para os puristas) de pouco mais de 40 páginas.

Esta é uma história longe de ser infantil, e (provavelmente não por acaso) este é o gibi favorito de Tim Burton.

Esta é a “Piada Mortal” de Alan Moore e Brian Bolland.

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Histórias em quadrinhos (HQs) foram infantilizadas durante boa parte da sua existência. Ainda nos idos de 1940/50, quando as histórias começavam a amadurecer, o livro “A Sedução dos Inocentes”, publicado pelo psicólogo Fredric Wertham em 1954, atacou as HQs e acabou por criar a Comics Code Authority (CCA) no mesmo ano. A CCA era um órgão formado pelas próprias editoras com fins de se autorregulamentar (mais ou menos como acontece com o mercado publicitário hoje em dia) e evitar que pais amedrontados impedissem seus filhos de consumir HQs. Isso contribuiu grandemente para as histórias infantiloides que se seguiram (com a criação de personagens estapafúrdios principalmente para o Batman e para o Superman) e para a consolidação errônea da ideia de que “quadrinhos são coisa de criança”.

O Código só começou a enfraquecer nos anos 1970. A Marvel se negou a ceder à pressão que proibia que uma história do Homem-Aranha mostrasse Harry Osborn se viciando em pílulas. Nesse caso, a CCA se deu por vencida e permitiu que os quadrinhos mostrassem uso de drogas, desde que de forma negativa.

A primeira história sem o selo de aprovação da CCA só viria em setembro de 1985 pelas mãos de Alan Moore na excelente “A Maldição”, publicada durante a mitológica passagem do roteirista britânico pela série de terror do Monstro do Pântano, da DC Comics.

Ainda assim, a Marvel só rompeu com o código definitivamente em 2001, e a DC somente em 2011, finalmente enterrando o CCA.

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Cena de “A Maldição”.

Isso tudo é importante para entender a importância de “A Piada Mortal”. Três anos depois da história (brutal) citada acima, Alan Moore foi convidado por Brian Bolland para escrever uma história sobre o Coringa. Não sobre o Batman, mas sobre o Palhaço do Crime. Alan Moore aceitou, e assim nascia um mito.

“A Piada Mortal” parte do princípio que o Coringa cita em um de seus monólogos ensandecidos na revista: “o que separa o homem mais são do mundo da insanidade é um dia ruim”. Para comprovar isso, o Coringa ataca e tortura o comissário Jim Gordon e sua filha, Barbara Gordon, apenas para fazer o comissário enlouquecer.

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O primeiro motivo pelo qual a história é tão importante é pelo nível de violência que ela insere em seu enredo. O próprio ilustrador, Bolland, disse ter ficado perturbado com certas cenas que Moore descreveu em seu roteiro, dizendo que, se pudesse, faria diferente. São agressões, tanto física quanto psicológica, que encontra poucos paralelos nos quadrinhos mainstream. Sendo sincero, só consigo me lembrar de cenas semelhantes em Watchmen – outra HQ de Alan Moore.

O segundo motivo é a sua estrutura narrativa coesa. Brian Bolland não é o ilustrador mais criativo do mundo (se quiser ver o que Moore é capaz de fazer quando unido a um ilustrador mais pirado, leia as histórias que Stephen Bissette fez com Moore em “Saga do Monstro do Pântano), de forma que os quadros são bem didáticos, mas extremamente ricos em detalhes. Aliando isso à história em si, “A Piada Mortal” rende várias releituras, vendo pontos diferentes a cada uma delas.

Ainda assim, talvez o motivo mais basilar para a fama da história seja a maneira como Alan Moore trata o Coringa como personagem em si e a dinâmica dele com o Batman. Toda a arte e diálogo mantém a ideia de que Batman e Coringa são dois lados da mesma moeda, e talvez muito mais parecidos do que gostariam de admitir; enquanto o Batman vê no caos do mundo uma oportunidade e necessidade de se tornar o heroi que sua sociedade precisa, o Coringa vê qualquer ato de resistência ao caos como inviável, sendo a própria loucura a única resposta sã para essa situação.

Isso é a exata essência do que torna o Coringa o maior vilão da (excelente) galeria de vilões do Batman, tratada de uma forma profunda e sintética ao mesmo tempo.

KillingJoke

O fato de a história mostrar o passado do Coringa (talvez somente um deles) e ter um desfecho em aberto são apenas bônus em uma HQ que é uma aula de quadrinhos e contexto social da época. A marca de Moore/Bolland é sentida até hoje, e reverberou recentemente na polêmica da capa da Batgirl que relembrava a tortura que a personagem sofreu – além da adaptação em longa-metragem de animação que a DC está desenvolvendo.

De qualquer forma, para o bem ou para o mal, os retratos da sádica piada do Coringa perduraram nas histórias seguintes (Bárbara Gordon, paraplégica, se tornou a Oráculo) e nas páginas da nossa sociedade. Ano após ano, “A Piada Mortal” está lá para nos lembrar de que a vida “não tem cláusula de sanidade”.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.