Coldplay: “A Head Full of Dreams” (2015)

A evolução, como arte, é imprecisa. O que para alguns parece um retrocesso pode ser uma adaptação necessária para a sobrevivência. Coldplay – amado por muitos, odiado por tantos quanto – chega ao seu sétimo (e talvez último) álbum em seu constante processo de mutação, mais barulhento, dançante e esperançoso do que nunca. Cabe perguntar se isso é suficiente.

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Coldplay foi a primeira banda que comecei a escutar quando música se tornou parte integrante da minha vida. Como bom garoto melancólico que eu (sou?) fui, a introspecção das letras e as melodias intensas se comunicavam muito comigo, e consequentemente cresci ouvindo seus trabalhos. “The Scientist” foi a primeira música que toquei em público na vida, “Fix You” me embalou em noites tristes e “Death and All His Friends” mudou minha vida.

Explicar isso é importante para que eu possa dizer com mais clareza qual é o problema de “A Head Full of Dreams”: preterir seu conteúdo.

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Em um rápido panorama histórico, “A Head Full of Dreams” é o Coldplay voltando a ser a banda intensa em seus sentimentos depois da tristeza apática que marcou o sexto lançamento do grupo, “Ghost Stories” (2014). Na rebarba de seu divórcio, Chris Martin obviamente foi o pivô deste álbum do ano passado, envolto em uma aura azulada, espectral e deprimida, que ainda continha joias como “Ghost Story” e “Oceans” em sua lista de faixas.

Qualquer discussão acerca de “eles não são mais como antes” é inútil; pessoas mudam, e bandas são formadas por pessoas. Exigir estabilidade eterna das bandas é ilógico. Ainda assim, o ponto em “A Head Full of Dreams” (doravante chamado de “AHFoD”, para facilitar) que gera dissonância é o processo pelo qual a banda tem passado pelos últimos anos de aumento na qualidade de produção enquanto as composições e o valor da banda, como um conjunto, não parecem seguir o mesmo padrão.

Desde “Mylo Xyloto” (2011), os álbuns apresentam mais camadas de som, e o eletrônico mostrou-se cada vez mais forte – em grande parte por causa do amor do vocalista Chris Martin por hiphop e R&B, demonstrado naquele álbum em “Princess of China”, em uma parceria com Rihanna, e em “AHFoD” em “Hymn for the Weekend”, em um dueto com ninguém menos que Beyoncé. Enquanto isso, as letras do grupo, outrora poéticas (embora não necessariamente complexas), decaíram com o passar do tempo, culminando aqui com o inacreditável verso: “meu coração faz boom / bo-boom boom“, na faixa oculta “X Marks the Spot”, como se isso significasse alguma coisa.

A alma, que era algo que o Coldplay mostrava e era mesmo capaz de vender em seus CDs sem perdê-la, também aparece de maneira cada vez mais escassa nas composições. Em “AHFoD”, percebemos relances desta característica tão particular da banda no trecho final da canção-título, que abre o álbum, bem como em momentos de “Everglow”.

As canções que merecem mais destaque neste que pode ser o derradeiro disco da banda estão na segunda metade dele. A divisão é marcada por “Kaleidoscope”, que conta com uma versão de Barack Obama de “Amazing Grace”, e parece virar o álbum para uma direção mais contemplativa dentro da sua temática de esperança. “Army of One”, embora não muito marcante, carrega o álbum até “Amazing Day” – talvez a melhor faixa do CD -, que prova que não é preciso abrir mão de ter sentido e significado para ser alto-astral. “Colour Spectrum” é uma faixa acústica de transição, comum nos trabalhos anteriores da banda, que nos entrega a “Up&Up”, que fica na disputa de melhor música de “AHFoD”.

O que esta segunda metade tem de interessante, a primeira tem de genérica e esquecível. A segunda faixa, “Birds”, ensaia algo diferente, mas seu fim abrupto não é o suficiente para que ela seja marcante, enquanto “Adventure of a Lifetime” é a música do Coldplay que tocará nas boates pelo mundo afora – e só. “Fun” tem a participação da incrível Tove Lo, mas sofre com um refrão fraco e sem charme.

“A Head Full of Dreams” é um álbum que, se realmente for o último, funciona perfeitamente nesse sentido. De herois resistentes tribulados em “Parachutes” (2000), à glória em “Viva la Vida (or Death and All His Friends)” (2008) e a queda em “Ghost Stories”, o sétimo álbum da banda é conceitual em ser um cântico de renascimento, bem como um hino de esperança e gratidão. Conceito, contudo, não garante conteúdo, e enquanto as faixas possam ter apelo nas rádios com seus coros de um verso, a embalagem bonita e bem produzida não reflete o que há dentro da caixa.

Como fã (ou ex-fã, embora eu não acredite que isso exista), fico dividido entre esperar ou não que este seja o último álbum – até porque Chris Martin costuma dizer isso no lançamento de todos os CDs desde “Viva la Vida”, depois dizendo que cada um demanda tanto esforço que “parece ser o último”. Pessoalmente, desejaria que eles saíssem de cena com algo realmente inesquecível, como sei que são capazes de fazer. Como Chris diz ao final da última canção, “nunca desista”.

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.