Cobain: Montage of Heck (2015)

HARK!

Título: Cobain: Montage of Heck

Diretor: Brett Morgen

Ano: 2015

Pipocas: 10/10

Dirigido por Brett Morgen em parceria com a HBO Documentaries e com a Universal Studios, eis que temos Cobain: Montage of Heck, (mesmo nome de uma montagem que Kurt fez usando um gravador de quatro canais). O que temos aqui nada mais é do que o que a crítica tem chamado de “o retrato definitivo de Kurt Cobain”, em se tratando de documentários biográficos. Basicamente, a proposta do documentário é esta, mostrar o trajetória da criança que nasceu e passou a adolescência em Aberdeen até o surgimento e sucesso do Nirvana na cena musical de Seattle e sua já conhecida ruína. Montage of Heck estreou no Sundance Festival desse ano, teve algumas exibições em cinemas ao redor do mundo e estreou no Brasil em 18 de junho.

É importante deixar claro logo de início que, talvez, quem chega a esse documentário esperando ver toneladas de material do Nirvana pode sair um pouco frustrado. O Nirvana é significativamente presente no material, mas não hegemônico. Isso pode causar algum desconforto para quem espera, por exemplo, receber uma visão geral da carreira da banda, quais são as histórias por trás de seus discos; o que não acontece. O foco é apenas demonstrar do quanto Kurt influiu sobre o Nirvana, e o quanto o Nirvana influiu sobre ele.

O documentário foi considerado extremamente íntimo e isso deve, principalmente ao fato de a família de Kurt ter colaborado bastante com a produção. Além das entrevistas com Chris Novoselic (baixista do Nirvana e amigo de Kurt), temos também entrevistas com a mãe, o pai, a madrasta e a irmã de do rockstar. Além disso, na co-produção executiva tivemos Frances Cobain (filha de Kurt) e sua mãe, Courtney Love (viúva de Kurt) até tinha entrado para a produção, mas foi afastada por Morgen já que ela também estaria nas entrevistas, e o fato de ser produtora poderia fazer com que ela influenciasse na naturalidade do material final. Todas as entrevistas com os familiares, Chris, e com amigos de Kurt são tocantes e reveladoras no que diz respeito a “conhecê-lo” segundo sua personalidade cotidiana, por outro lado as entrevistas de Courtney são controversas, como não poderia deixar de ser diferente.

Brett Morgen, Courtney Love e Frances Cobain

Os discursos da família sobre infância de Kurt, sobre como ele se tornou um adolescente rebelde, revelam a complexidade e as contradições da personalidade do artista, situando a audiência no momento de passagem da sua infância para a adolescência e, depois, para a vida adulta, tornando possível a compreensão do porquê da identificação de toda uma geração com Kurt, o Nirvana e suas músicas. De forma geral, pode-se dizer que Kurt Cobainh iniciou seu processo de auto-destruição quando percebeu que jamais teria uma família nos padrões do sonho americano, foi nessa época que homens e mulheres “descobriram” o divórcio, e as crianças não estavam preparadas para lidar com novas configurações familiares, e nem as famílias configuradas de maneiras diferentes estavam para lidar com suas crianças. Além disso, era um tempo em que todos ansiavam por mais liberdade, e a cultura conservadora era atacada fortemente numa nova espécie de contra-culturalismo. Um aspecto muito interessante do documentário ao falar da vida Kurt antes das câmeras e da fama são as animações feitas por Stefan Nadelman, Hisko Husling, realmente lindíssimas.

Ao longo de todo o documentário é visível a preocupação em revelar um Kurt Cobain que, mesmo no palco, mesmo em entrevistas, era cotidiano. Para isso, a produção do documentário teve acesso a diversos arquivos pessoas do ex-vocalista/guitarrista de várias mídias diferentes. Ao assistir Montage of Heck, tem-se contato com fotos, rascunhos, vídeos e gravações de áudio de Kurt Cobain, a intenção foi realmente tornar o leitor familiar com o artista e com seu mundo, pois passados alguns minutos, o próprio expectador nota, por exemplo que está começando a reconhecer a ortografia de Kurt, isso entre outras minúcias da produção.

Por fim, a parte final do documentário mostra a beleza do Kurt pai, cuidando de sua filha recém nascida, e, ao mesmo, o excessivo uso de drogas. Numa decisão, extremamente de bom gosto, Morgen não entra no mérito das discussões sobre a morte de Kurt Cobain e essa atitude intensifica mais ainda o objetivo de o documentário ser sobre a pessoa de Kurt. Uma vez que não há mais a pessoa, não há mais o que ser documentado. Em suas próprias palavras, Morgen disse “O problema com a maioria dos filmes biográficos é que eles tentam dar conta de tudo o que você vê na Wikipedia”. Enfim, um documentário excelente, respeitoso e honesto, que não muda a imagem de Kurt Cobain aprofunda o conhecimento que existe não apenas sobre sua carreira, mas sobre sua vida.

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