Clube da Luta (1996)

110764191_1GG.jpg

Título: Clube da Luta (“Fight Club”)

Autor: Chuck Palahniuk

Ano de lançamento: 1996

Editora: LeYa

Naturalmente, quando um romance é adaptado para o cinema, o filme acaba por ser mais facilmente reconhecido, sendo até normal alguém comentar “- nossa! Tem um livro disso?” quando se faz alguma menção do material. Não quero me alongar nos motivos para isso, mas vamos concordar que a disseminação de material publicitário do cinema e o tempo de consumo do produto cinematográfico são bem diferentes do literário e influenciam bastante para que os filmes se tornem mais famosos. Entretanto, se é para ver um lado bom nas múltiplas adaptações, temos o cinema sempre nos indicando excelentes livros, e esses sempre nos indicando excelentes filmes; mas há exceções, claro! E é mencionando o filme Clube da Luta de David Fincher que eu gostaria de destrinchar um pouquinho o incrível livro de Chuck Palahniuk. Por mais injusto que possa parecer, o filme quase não recebeu nomeações ou premiações, por outro lado, o livro já é consagrado por público e crítica e foi devidamente premiado várias vezes e existe um simples motivo para tal (motivo esse que vai muito além do que qualquer crítica pode dizer). É impossível ficar indiferente ao romance, ame-o ou odeie-o – às vezes ao mesmo tempo –  é impossível sair dessa leitura da mesma forma que se entra, caso se chegue ao final (e talvez mesmo que não se chegue).

Os motivos que podem causar um abandono do livro são, assim como tudo nesse livro, óbvios como um soco na cara. A narrativa dele gera tanto incômodo como as comparações e metáforas feitas, pois, em geral, possuem um humor negríssimo. Quando essas figuras de linguagem não estão presentes, o que acontece é uma descrição tão visceral da miséria humana, que, sinceramente, dá até arrependimento da existência. Somando-se a isso, ainda temos um narrador sem nome e sem grandes descrições e, para aqueles que ficaram enojados com a cara arrebentada do Jared Leto em meados do filme, recomendo pularem algumas páginas cujas as descrições são extremamente gráficas.

fightclub_272pyxurz
Jared Leto: e ae, pegava?

Contudo nem só de briga viverão os homens, mas de toda palavra que sair da boca de Tyler Durden. O que quero dizer com isso é que o fato de haver um clube do qual não se pode falar, e paradoxalmente esse clube ser o título do livro, não é o que há de mais importante na trama, na verdade, nas palavras de Tyler, o clube está acontecendo todos os dias da semana a todos os momentos, exceto aos sábados de madrugada (quando as lutas acontecem). Em outras palavras, a reunião de marmanjos é apenas um pretexto para falar de coisas mais relevantes, que vão desde o sentido da vida, ou a falta dele, até uma interpretação sincera da masculinidade contemporânea: homens que foram criados para fazer, acontecer e conquistar, que nada fazem, não acontecem e, portanto, nada conquistam. Em contrapartida, quem prega esse evangelho, não apenas para os membros do clube, Projeto Desordem Destruição mais a frente, mas também qualquer aventureiro perdido nas páginas do livro, é um homem que possivelmente é tudo o que você gostaria de ser, bonito, inteligente, forte, organizado, um líder nato, o super-homem, não de Krypton, mas de Nietzsche, completo em si mesmo em sem nenhuma amarra moral. Para além do bem e do mal. Por fim, não bastasse a incoerência de ter um líder que é tudo que ele diz que seus liderados jamais serão e nem deveriam querer ser, há ainda o paradoxo da burocratização da anarquia quando os clubes evoluem de simples reuniões em porões espalhados pelo país para um grupo treinado e articulado, organizado sistematicamente para criar o caos. O Projeto Desordem Destruição leva todas as camadas da trama à última potência, seja o problema de identidade que o narrador tem, seu romance com Marla Singer e seu relacionamento com o mundo em geral.

O que pode-se dizer ao final desse livro é que ele provavelmente não vai nos tornar pessoas melhores e, segundo sua própria filosofia, nem deveria. Mas, com toda certeza, um novo leque de armas mortais caseiras se abre para o leitor e, talvez, as coisas que fazemos no automático passem a, finalmente, ter exatamente o sentido que possuem, que nós, com mais, ou menos, consciência, ignoramos: nenhum. Talvez esse seja o plot twist que estávamos esperando para parar de apertar botões e puxar alavancas, e vivermos de fato.

Leia Também:

Uma listinha sobre anarquistas legais da cultura pop

Nossas primeiras impressões de Clube da Luta 2

The following two tabs change content below.
Hippie com raiva.