Classicologia #26 – Paris, Texas (1984): Reencontrar e Reencontrar-se.

“Eu costumava conversar a sós com você depois que você partiu. Eu costumava falar com você o tempo todo, mesmo estando sozinha. Conversei com você por meses a fio. Agora não sei o que dizer. Era mais fácil quando eu apenas o imaginava”

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Presidente da Academia do Cinema Europeu, Wim Wenders é um dos nomes mais aclamados quando se fala do cinema alemão contemporâneo.  Diretor do magnífico Alice nas Cidades (1974), dez anos mais tarde, lançou aquela que seria considerada uma de suas melhores obras, Paris, Texas, que ,no Festival de Cannes, em 1984, foi agraciado com uma Palma de Ouro por Melhor filme.

Paris, Texas é a história…

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De Travis (Harry Dean Stanton), que após um desaparecimento de quatro anos, é resgatado de um hospital no deserto do Texas por seu irmão Walt (Dean Stockwell). Walt e sua esposa foram responsáveis por cuidar do filho dele , Hunter (Hunter Carson). A trama do filme se desenrola ao mostrar essa reaproximação entre pai e filho, e a busca pelo reencontro com Jane (Nastassja Kinski), a esposa/mãe que saiu de casa e nunca mais voltou.

O que é Paris, Texas…

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Confesso que assisti a esse filme sem ler a sinopse. O que me chamou atenção foi a foto da belíssima Nastassja Kinski na capa do filme, e do nome que é junção de dois lugares que povoam a mente das pessoas. O árido Texas, cenário de grandes faroestes, e a delicada Paris, eterna referência aos apaixonados.

A curiosidade sobre a nomenclatura dura boa parte do filme, até descobrirmos que esta é a localização de um lote vazio, onde, segundo Travis, os pais se conheceram e ele foi concebido. Fora da ficção, realmente existe uma Paris no Texas, entretanto não é um lote vazio, e sim uma cidade.

Juntando os grãos

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Paris, Texas é um filme que enquanto você assiste apenas quer saber o motivo da amnésia de Travis, o porquê de ele aparecer feito um mendigo no meio nada. Ao analisarmos profundamente, vemos que Travis é o retrato de uma sociedade alienada e vítima de seu próprio desejo.

Ele se torna um ninguém ao tentar, justamente, descobrir sua identidade, uma busca sofrida, que mostra o existencialismo presente neste filme. Quando Travis tenta reconstruir a relação com seu filho, ele tenta se encaixar em estereótipos. Um exemplo é quando vai buscar Hunter na escola, vestido de maneira diferente. Isso demonstra a forma como a superficialidade do consumismo, da mídia, da aceitação, tenta preencher, na vida das pessoas, um espaço que deveria ser reservado a personalidade em si, ao próprio “eu”. O trabalho de Walt, como montador de outdoors, exemplifica a relação quase intrínseca, nos dias atuais, de como é quase impossível viver nessa sociedade manipuladora, imperativa.

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A fuga para essas exortações representa-se através de Jane. Ela trabalha numa boate de strip-tease ouvindo as lamentações de seus clientes. É nela, uma desconhecida, que eles encontram conforto. Foi assim que Travis a reencontrou. E a parte mais emocionante do filme ocorre quando ele, sem saber quem estava o ouvindo, conta a história de sua vida. Impossível não se emocionar.

Paris, Texas deve ser assistido porque…

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É um filme que faz um belo uso dos cenários para transmitir ao expectador a sensação de estar perdido, procurando por si mesmo. A sequência de abertura do filme, de Travis caminhando pelo deserto é uma das coisas mais lindas que o cinema já fez. As paisagens dão uma sensação de infinito, de que é praticamente impossível os personagens alcançarem seus objetivos. Isso tudo mesclado à música hipnotizante do guitarrista Ry Cooder.

Um filme que, apesar de triste, e sofrido, soa doce, mostrando-nos como as relações, seja entre irmãos, pai/filho, marido/esposa, podem ser complicadas, mas que só começam a dar certo quando descobrimos quem somos. Uma obra- prima sobre reencontros: consigo mesmo e com aqueles que são importantes.

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