Classicologia #24- O Pagador de Promessas (1962)- Um Zé…

“- Queria encomendar a alma dele…

– Encomendar a quem? Ao Demônio?”

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Diante da dúvida sobre qual filme escrever neste domingo, recebi a dica de falar sobre um filme nacional. Eu ainda não tinha feito isso aqui na coluna, e visto que recentemente foi comemorado o Dia do Cinema Brasileiro, recebi essa ideia como um presente!

Então, lembrei-me de O Pagador de Promessas (1962), um dos filmes brasileiros mais aclamados, dirigido por Anselmo Duarte, e baseado na peça homônima, escrita por Dias Gomes. Li a peça quando estava na faculdade, e acabou se tornando membro do meu top 5 de obras literárias preferidas.

O pagador de promessas conta a história de…

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Zé do Burro (Leonardo Villar), que após ter seu burro Nicolau quase morto em uma tempestade, resolveu fazer uma promessa para curar o animal. A promessa consistia nele levar uma cruz de madeira, à pé, até a igreja de Santa Bárbara. Entretanto, ao chegar lá, o padre proibiu Zé de entrar nela com a cruz, pois a promessa havia sido feita em um terreiro de candomblé que adorava à Iansã.

Temáticas

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O Pagador de Promessas se passa na Bahia, estado brasileiro que representa com veemência o sincretismo religioso, ou seja, a mistura de várias crenças religiosas. Lá, convivem as crenças cristãs junto com as crenças pagãs, representadas pelo candomblé, umbanda, dentre outras.

No enredo do filme, esse sincretismo é inaceitável para o Padre, que não deixa Zé do Burro cumprir sua promessa até o fim, pois foi feita a Iansã. E isso também fica perceptível em uma cena quando, na procissão, o Padre faz sinal para as pessoas que não são cristãs ficarem afastadas da porta da igreja, junto com Zé do Burro. Interessante é notar, no final do filme, que são os próprios pagãos que carregam Zé, morto, em sua cruz para dentro da igreja.

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Além disso, o filme aborda a relação manipuladora da mídia. Zé é assediado pelos repórteres locais, que aproveitando da inocência do humilde homem, distorcem suas palavras. Ele revela que por conta da promessa iria dividir sua terra igualmente entre os vizinhos, e o jornalista reverte a situação mostrando Zé como apoiador da Reforma Agrária. Zé também é retratado como um novo Cristo pelo jornal e sua “fama”, seria usada, intencionalmente, a favor do governo.

O Pagador de promessas deve ser assistido porque…

Foi o único filme brasileiro, até hoje, a vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes. As atuações de Leonardo Villar e Glória Menezes, que faz o papel da esposa de Zé, são tão belas que chegam a traumatizar o espectador. Zé é humilde, ingênuo e talvez esse tenha sido o seu problema, ser uma pessoa boa e de fé, que apesar toda a pressão sofrida, resistiu enquanto pôde.

O melhor amigo do protagonista é o burro Nicolau, e não é difícil imaginar o porquê. De todas as pessoas que Zé conhece em função de sua promessa, pouquíssimas realmente querem lhe ajudar, enquanto as outras só querem se aproveitar da situação. Inclusive a própria esposa, que acabou traindo-o com outro homem. Em suma, uma obra rica em conteúdo que mostra que o cinema brasileiro é riquíssimo e tem muito a oferecer, além de “adiantar o lado” dos que não gostam muito de ler as obras literárias.

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