Classicologia #18- Nós que nos amávamos tanto (1974)-História, cinema e amor

“-Oh… e quem é ela?

 -É uma amiga minha.

-Você tem dormido com ela?”

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No início deste ano, mais precisamente no dia 19 de janeiro, o mundo perdeu um dos maiores gênios da sétima arte, o diretor italiano Ettore Scola, diretor de obras aclamadas como Feios, sujos e malvados (1976) e Casanova e a Revolução (1982). Porém, o Classicologia deste domingo vem fazer uma homenagem ao filme que é considerado sua obra máxima, Nós que nos amávamos tanto. Minha relação com este filme foi de amor à primeira vista! Lembro que quando o assisti, fiquei tão encantada que eu queria usá-lo como referência em todos os trabalhos que eu fazia. Talvez eu seja meio louca apaixonada, mas depois de ver essa obra prima, quem não fica?!

Antonio, Gianni e Nicola são três amigos…

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Que se conhecem durante a Resistência Italiana. Os personagens são interpretados, respectivamente, por Nino Manfredi, Vittorio Gassman e Stefano Satta Flores. O enredo do filme trata sobre a vida de cada personagem, a convivência desses amigos entre si, e o amor que todos eles acabaram tendo por Luciana (Giovanna Ralli). O filme aborda um período de 30 anos (1945-1975), estabelecendo, assim, um retrato da vida dos personagens diante das transformações políticas e sociais italianas.

O que tem em Nós que nos amávamos tanto

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Nós que amávamos tanto retrata dois momentos da Itália, durante e depois da Resistência Italiana, movimento contra o governo fascista, liderado por Mussolini, e a ocupação nazista da Alemanha na Itália. O filme não pertence, mas faz uma belíssima homenagem ao movimento neorrealista, cujo objetivo era realmente promover críticas ao governo autoritário daquela época.

Além da crítica ao fascismo, o neorrealismo é resgatado através de elementos metalinguísticos, pelo próprio cinema. O personagem Nicola é admirador da fase neorrealista, e inclusive, perde o emprego após uma discussão sobre a importância dessa fase artística para a Itália. Depois, ele participa de um programa de perguntas e respostas sobre o assunto e perde após responder uma pergunta sobre o filme Ladrão de Bicicletas. Segundo os jurados do programa a resposta estava errada, mas depois, de forma levemente humorada, a resposta de Nicola é confirmada pelo próprio diretor do filme, Vittorio de Sica. A resposta em questão diz respeito ao ator mirim Enzo Staiolla, que em uma cena de Ladrão de Bicicletas, foi acusado por De Sica de ter roubado um maço de cigarros e colocado no bolso. O diretor fez isso de propósito, já que queria uma reação natural e convincente do ator em cena.

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Cena do filme A doce vida, de Frederico Fellini

Outro diretor citado é Michelangelo Antonioni e seu filme O Eclipse (1962), mas na verdade o maior homenageado de Nós que nos amávamos tanto é Frederico Felinni, ganhando esse mérito por escrito nos créditos finais e tendo, durante o filme, a sua obra A doce vida (1960) mostrada nos bastidores, em uma sequência mais do que adorável!

O uso de aspectos políticos e do cinema são base para entendermos a relação entre Luciana e os três amigos. Cada um deles fez parte da vida da moça, sendo Antonio o primeiro de todos, mas que foi trocado por Gianni, e, posteriormente ela também se envolveu com Nicola. Entretanto, no final do filme, Luciana e Antonio voltam a ficar juntos. Ou seja, assim como a política e o cinema tem suas fases, os amores de Luciana também, intensos e duradouros enquanto história. Essa relação, que lembra até o famoso poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, aquele mesmo que diz que “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili…”

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Um das cenas em que é utilizada a imobilidade e o jogo de luzes para representar o pensamento de um personagem

Outro fato interessante no filme são os aspectos técnicos. Há a repetição de cenas no início do filme, além da transição entre o preto e branco e o colorido, em meados do filme, marcando a passagem do tempo. Outro aspecto interessante aparece depois que Luciana e Antonio assistem a uma peça teatral e  saem pelas ruas imitando a técnica que viram. Consiste em reproduzir o pensamento dos atores com pausas e jogo de luz. Ou seja, o personagem que tem seu pensamento reproduzido fica evidenciado em relação a um fundo escuro e os outros personagens todos imóveis.

Por que assistir Nós que nos amávamos tanto

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É um filme extremamente rico! Sua proposta, envolta em um contexto histórico e com leve toque de humor, é mostrar as idas e vindas da vida. É uma reflexão acerca dos sofrimentos e experiências pelos quais passamos, sem saber se aquilo um dia valerá a pena. É o exemplo de que na realidade não há finais felizes sempre e que tudo depende de cada escolha que fazemos.  Amizades, amores, empregos, família… hoje nós amamos, mas e amanhã, continuará assim? As personalidades mudam de acordo que o mundo muda. É como o próprio filme diz, “Achávamos que mudaríamos o mundo, mas foi ele fez que nos fez mudar”!

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Classicologia é a coluna quinzenal de Nay Berger (me, myself and I!), e aqui tenho a intenção em tirar aquele “cheiro de poeira” dos grandes clássicos do Cinema mundial.

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