Classicologia #14- “Era uma vez no Oeste” (1968)- Obra máxima de um gênero histórico

“As pessoas assustam melhor quando estão morrendo!”

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Lançado em 1968 e dirigido por Sergio Leone, Era uma vez no Oeste é uma das principais obras do western spaghetti. É o primeiro da trilogia Era uma vez… de Leone, sendo seus sucessores  Quando explode a vingança (1971) e Era uma vez na América (1984). O título sofreu modificação na tradução do original, do italiano (C’era uma volta il West), para o inglês (Once upon a time in the West), de modo que essa alteração permaneceu nas traduções para outras línguas, inclusive o português. Traduzido ao pé da letra, o nome do filme seria “Era uma vez o Oeste”, dando sentido de fim do Oeste, e não de localização como no título que conhecemos.

Como a maioria dos grandes clássicos, ele não teve boa recepção nem de crítica nem de público quando foi lançado. Porém, com o decorrer dos anos sua importância foi notada. No site Rotten Tomatoes, responsável por classificações de filmes, ele recebeu porcentagem de 98% pela crítica, e 95% pela audiência. Um sucesso!

Era uma vez no Oeste conta a história…

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Da ex-prostituta Jill McBain (Claudia Cardinale), do bandido Cheyenne (Jason Robards), do pistoleiro de aluguel Frank (Henry Fonda) e do “Harmonica” (Charles Bronson), que sempre é visto e ouvindo tocando uma gaita. Os quatro se encontram quando Morton (Gabrielle Ferzetti), um barão ferroviário, contrata Frank para afugentar Brett McBain (Frank Wolff), dono de terras por onde passaria a ferrovia que vinha em direção ao Oeste. Porém, o pistoleiro massacra a família e depois planta evidências incriminando Cheyenne. Nesse tempo, Jill chega à cidade, vinda de Nova Orleans, revelando que se havia se casado com Brett McBain, portanto, as terras ainda tinham dono. O homem com a gaita, Harmonica, aparece e junto com Cheyenne ajudam a mulher a manter sua propriedade. Além disso, Harmonica também acerta suas contas com Frank, revelando um doloroso motivo para essa vingança.

Trilha sonora- Salve, Morriconne!

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Sergio Leone e Ennio Morricone

A trilha sonora de Era uma vez no oeste foi composta antes do filme fazendo com que algumas cenas fossem inspiradas nas músicas que já existiam. As canções são assinadas por Ennio Morricone, nome marcante no mundo sonoro do cinema. Algumas de suas melhores composições já foram mostradas em um de nossos posts, sobre o filme Cinema Paradiso.

Ennio e Sergio Leone findaram uma parceria de sucesso. Ennio foi responsável pela trilha sonora de praticamente todos os filmes de Sergio. Dentre eles estão Por um punhado de dólares (1964); Por uns dólares a mais (1965); Três homens em conflito (1966) cuja trilha é uma das mais conhecidas do cinema, a famosa “música do assovio”; Era uma vez no Oeste (1968); Quando explode a vingança (1971); e Era uma vez na América (1984).

Sergio Leone- supremacia do Western Spaghetti

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Sergio Leone e o elenco de Era uma vez no Oeste

Sergio Leone nasceu em Roma no ano de 1929. Ele começou sua carreira no cinema como assistente de grandes diretores como Luigi Comencini (Pão, amor e fantasia, 1953), Mervyn Leroy (A ponte de Warteloo, 1941) e o renomado Vittorio de Sica (Ladrão de bicicletas, 1948).

Leone, no início de carreira como diretor, foi na contramão dos outros realizadores italianos da época. O cinema italiano estava focado em comédias, e Leone apareceu fazendo filmes épicos como Os últimos dias de Pompéia (1959) e Sodoma e Gomorra de 1962. Depois disso, ele começou a produção de faroestes, induzindo a criação de uma sub-categoria no gênero, os chamados western spaghetti, classificação para os faroestes italianos.

Filmografia de Sergio Leone:

  • 1954 –Hanno rubato un tram
  • 1959 –Os Últimos Dias de Pompéia
  • 1961 –O Colosso de Rodes
  • 1962 –Sodoma e Gomorra
  • 1964 –Por Um Punhado de dólares
  • 1965 –Por Uns Dólares a Mais
  • 1966 –Três Homens em Conflito
  • 1969 –Era Uma Vez no Oeste
  • 1971 –Quando Explode a Vingança
  • 1973 –Meu Nome é Ninguém (algumas cenas)
  • 1975 –Trinity e Seus Companheiros
  • 1984 –Era Uma Vez América

 

Os astros e a estrela

Era uma vez no Oeste conta com a participação de um elenco primoroso. Artistas que conseguiram abrilhantar mais ainda o lindo enredo do filme e que podem se orgulhar desta obra ser um dos motivos pelo qual eles são lembrados até hoje.

Jason Robards

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Jason participou de vários filmes de sucesso, dentre eles Suave é a noite (1962), e Magnólia (1999) e foi casado com a atriz Lauren Bacall (À beira do abismo, 1946) entre 1961 e 1969. Jason participou da Segunda Guerra Mundial e em 1941 sobreviveu ao ataque de Pearl Harbor.

Henry Fonda

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Pai dos também atores Jane Fonda e Peter Fonda, Henry tem uma vasta filmografia, da qual se pode ressaltar seu trabalho em As vinhas da ira (1940), Guerra e Paz (1956) e Num lago dourado (1981). E assim como Jason Robards, Henry Fonda também participou na Segunda Guerra Mundial.

Charles Bronson

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Charles começou sua carreira nos anos 50, mas só ganhou notoriedade duas décadas depois. Ele ficou conhecido por seus filmes de ação e de aventura, sendo, muitas vezes, mencionado como “o homem de poucas palavras mas de muita ação”. Participou de Sete homens e um destino (1960) e foi protagonista na série de filmes Desejo de Matar.

Claudia Cardinale

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Uma das maiores musas do cinema, Claudia trabalhou com os maiores diretores do cinema italiano. Dotada de grande beleza e talento, Claudia apareceu em diversos filmes famosos como Rocco e seus irmãos (1960), (1963), e no cinema americano em A pantera cor de rosa (1963).

 

 Western– importância cultural e histórica

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O western é um gênero que já existia mesmo antes de sua representação cinematográfica. A música folk americana e a literatura já retratavam os conflitos internos dos EUA, a expansão das estradas de ferro e os combates entre indígenas e colonizadores. Seu primórdio consistia nas chamadas narrativas de cativeiro, onde uma mulher branca era raptada por um índio e esperava por um homem branco para salvá-la. Essa mulher era a representação do cristianismo, pois sofria todo o mal e ansiava pela ajuda de Deus. Da mesma forma que ela, o homem branco também era uma representação cristã, de modo que suas táticas de sobrevivência na natureza e o fato de vencer os índios enquanto levava a mulher de volta à civilização é uma simbologia da redenção religiosa. Essa estrutura narrativa serviu de base para os filmes que surgiram algum tempo depois.

Porém, para cristalizar o mito e fazer com que ninguém perdesse o interesse, o faroeste foi se adaptando de acordo com os fatos que abalavam a sociedade americana. Começou representando a colonização americana, depois se inspirou na Grande Depressão dos anos 30 onde as pessoas migravam do campo para a cidade devido a miséria que assolava o país; a Segunda Guerra Mundial; a Guerra Fria e toda a evolução tecnológica desta época. Sendo, desta forma, o western uma representação, mesmo que um pouco mitológica, da evolução socioeconômica dos Estados Unidos.

O western é um estilo que influenciou vários outros, como por exemplo os filmes brasileiros sobre cangaço, os samurais japoneses, filmes mexicanos, dentre outros, incluindo as “imitações” sobre o oeste realizadas no cinema italiano culminando no que conhecemos como western spaghetti.

Era uma vez no Oeste deve ser assistido porque…

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É um filme que dissolve a imagem estereotipada de que westerns são apenas filmes com cowboys e pistoleiros matando todo mundo e bebendo em saloons. Ele é uma representação do progresso ao Oeste e as consequências que a ambição desenfreada nesse avanço traria.

Além disso, os cenários e a fotografia do filme inspiram o orgulho por uma conquista, que alinhados a trilha sonora magistral transmite ao espectador a essência da evolução e prosperidade. Uma obra prima que reúne em si os melhores aspectos cinematográficos e históricos!

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Classicologia é a coluna quinzenal de Nay Berger (me, myself and I!), e aqui tenho a intenção em tirar aquele “cheiro de poeira” dos grandes clássicos do Cinema mundial!

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