Classicologia #09 – Um Cão Andaluz (1929) – O Surrealismo no Cinema

ATENÇÃO!!! Este post contém imagens fortes! Por favor, não prossiga caso tenha problemas em relação a isso!

“A imaginação é o nosso primeiro privilégio, tão inexplicável como o caso que a provoca.” Luis Buñuel

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Tentar explicar o inexplicável, tentar entender a mente, os anseios de outra pessoa… parece difícil e, às vezes, pode ser impossível! Isso acontece com Um cão andaluz, obra aclamada do diretor Luis Buñuel. Com cenas sem encaixamento lógico, ele contém apenas encadeamentos de imagens com inspirações oníricas, ou seja, inspiradas em sonhos, do próprio diretor e de seu amigo, o pintor Salvador Dalí.

O filme é considerado uma das obras máximas do Surrealismo Francês, sendo fonte de inspiração e discussão pertinentes até hoje.

Um cão andaluz conta a história de …

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Bem, isso é difícil dizer, já que o enredo não possui uma sequência lógica de fatos. O filme começa com um barbeiro (Luis Buñuel) afiando uma navalha e em seguida cortando ao meio o olho de uma jovem, cena que se tornou marca do filme (o olho utilizado para esta cena foi um olho bovino). Após isso, vemos um homem, novamente interpretado por Buñuel, vestido com roupas que lembram as de uma freira e andando de bicicleta. De repente ele cai e é observado pela mesma moça do início do filme, que o leva para casa e arruma suas roupas. Nas próximas sequências fora de lógica é mostrado esse mesmo homem observando formigas saindo de sua mão, depois ele assedia a moça do apartamento, apertando seus seios e imaginando-a nua; há uma cena de uma mão jogada no meio da rua e as pessoas olhando-a; há várias cenas que remetem a morte, e, por fim, o homem e a moça do filme enterrados na areia de uma praia.

Luis Buñuel, quem foi?

Luis Buñuel
Luis Buñuel

Nascido em 22 de fevereiro de 1900, Luis Buñuel é natural da cidade de Calanda, na Espanha, porém morreu naturalizado mexicano. Buñuel foi muito próximo do artista Salvador Dalí, de quem recebeu muita inspiração, os dois se tornaram ícones do surrealismo, sendo Dalí conhecido por suas pinturas e Buñuel pelas suas contribuições ao cinema.

Obra
Obra “A persistência da memória”, de Salvador Dalí

Buñuel migrou para os Estados Unidos na época da Guerra Civil Espanhola. Nos EUA, ele foi dublador da Warner Bros e, depois, no México, começou a dirigir filmes de maneira estável. Alguns dos filmes de Buñuel com Os esquecidos (1950) e O discreto charme da burguesia (1972) se tornaram grandes clássicos do cinema citados, inclusive, no livro 1001 filmes para ver antes de morrer.

 O surrealismo no cinema

O cinema possui muitos movimentos, um deles é o Surrealismo, cuja inspiração veio dos sonhos. Ele surgiu no período pós 1ª Guerra Mundial, na França, época de surgimento de regimes totalitários. Ao contrário de outras vanguardas históricas como o Dadaísmo, Cubismo e Futurismo, o Surrealismo dava relevância a linguagem, a comunicação humana, se distanciando das outras que sempre tinham seus temas relacionados a problemas sociais. Apesar de ser uma época difícil, ele utilizava da desilusão humana e se aproximava do clima de novidades e “agito” dos Roaring Twenties (termo usado para se referir a efervescência dos anos 20, contexto em que aconteceu o Surrealismo) para construir algo que não fosse uma crítica externa, mas intrínseco.

Cena de
Cena de “Um cão andaluz”

O Surrealismo no cinema buscava levar o espectador para dentro do filme a fim de fazê-lo tentar reconstruir a narrativa que, como no caso de Um cão andaluz, era desconexa e não-linear.

As obras que mais se destacam nessa fase são as de Luis Buñuel, que além de Um cão andaluz (1929), tem A idade de Ouro (1930) e Terra sem pão (1932) como filmes importantes. Outro filme importante da fase é A concha e o pastor (1927) de Germaine Dulac.

Tentando entender Um Cão andaluz

Dizer exatamente o que o filme significa é algo improvável. Mas, muitas pessoas tentaram decifrar e chegaram a conclusões interessantes. A primeira delas, é a cena da navalha no olho que, se for levada em consideração a intenção do Surrealismo, o olho seria a ligação entre o mundo exterior e o interior do ser humano.

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A cena das formigas saindo da mão seria o desejo de matar, referenciando à expressão “formigas nas mãos”.

“Formiga nas mãos”

Depois temos o trecho onde o personagem masculino arrasta duas cordas e com elas vem um asno morto em cima de um piano, dois padres e algumas tábuas dos Dez Mandamentos, isso pode ser interpretado como o peso que as pessoas carregam por fazer atos que vão contra os “princípios éticos” da sociedade.

Asno morto sobre um piano, imagem que o próprio Buñuel disse ter sonhado quando criança.
Asno morto sobre um piano, imagem que o próprio Buñuel disse ter sonhado quando criança.

Um cão andaluz deve ser assistido porque…

Apesar de não ter sido o primeiro, é considerado o principal filme do Surrealismo Francês. Suas cenas aparentemente sem sentido e chocantes são um prato cheio para amantes de coisas difíceis de entender e polêmicas. O diretor, Luis Buñuel é fonte de inspiração para vários outros diretores que produziram filmes surrealistas mesmo depois desse movimento ter supostamente acabado. São eles: David Lynch (Eraserhead, 1977), Alejandro Jodorowsky (A montanha encantada, 1973), Pedro Amodóvar (A pele que habito, 2011), entre outros. Além disso, o filme tem apenas 15 minutos, e mesmo que você não goste, não ficará com aquele sentimento chato de que perdeu tempo assistindo-o.

Seja do mal! Mostre este gif aos seus amigos! hahahaha
Seja do mal! Mostre este gif aos seus amigos! hahahaha

 Classicologia é a coluna quinzenal de Nay Berger (me, myself and I!), e aqui tenho a intenção em tirar aquele “cheiro de poeira” dos grandes clássicos do Cinema mundial.

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