Classicologia #07 | O bebê de Rosemary (1968) – a semente de um mito

Lançado em 1967 e dirigido por Roman Polanski, “O bebê de Rosemary” é o segundo filme constituinte da chamada “Trilogia dos apartamentos” que conta também com “Repulsa ao sexo” (1965) e “O Inquilino” (1976).

Classificado como pertencente ao gênero terror, ele costuma causar controvérsia entre os fãs da categoria, já que o filme, hoje em dia, não costuma causar tanto “medo” em quem assiste. Vê-lo esperando tomar aqueles sustos típicos é pura ilusão! Porém, é inegável sua contribuição à cultura popular e ao cinema. Considerado uma das obras primas da 7ª arte, “O bebê de Rosemary” é constituído de toda uma riqueza mítica, psicológica, estética e cultural.

O bebê de Rosemary conta a história…

Do casal Rosemary (Mia Farrow) e Guy Woodhouse (John Cassevetes) que se mudam para um apartamento no centro de Nova York. Lá, eles presenciam coisas estranhas além terem vizinhos suspeitamente simpáticos, que se tornam presença constante em suas vidas. Rosemary se sente incomodada com a intromissão de Minnie Castevet (Ruth Godon) e Roman Castevet (Sidney Blackmer) mas mesmo assim acaba aceitando isso visto que seu esposo encarava tudo com naturalidade.

Depois de uma noite repleta de alucinações e a imagem de um demônio, Rosemary fica grávida. Durante sua gravidez os vizinhos começam a se intrometer mais e mais em sua vida pessoal, fazendo que ela tome estranhas bebidas feitas de ervas. No final, Rosemary descobre que tinha sido a escolhida para ser a mãe do filho do demônio. Ela foi “usada” pela seita de bruxas da qual seus vizinhos faziam parte.

Um pouco sobre o diretor

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Roman Polanski nasceu em 1933 em Paris, França. Como Polanski e sua família eram judeus, durante a Segunda Guerra Mundial eles fugiram para a Polônia, com o intuito de se protegerem, o que não foi muito brilhante, já que a mãe de Roman foi morta numa câmara de gás no campo de concentração de Auschwitz.

Viveu como mendigo, comendo coisas roubadas ou encontradas na rua, e fingindo ser católico. Em 1945, depois de sair da prisão, o pai de Polanski o mandou a uma escola técnica, onde começou como ator teatral e depois abraçou de ver a carreira como diretor.

Fez diversos filmes independentes na Polônia. “O bebê de Rosemary” foi seu primeiro trabalho com uma grande produtora, a Paramount Pictures, e seu primeiro trabalho em Hollywood e, depois da morte de sua esposa e da acusação de um estupro, Polanski voltou a Europa.

Noções básicas sobre o filme e sua polêmica classificação

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“O bebê de Rosemary” é baseado num romance homônimo lançado em 1967 pelo escritor americano Ira Levin. Roman Polanski fez questão de seguir o livro à risca, sendo o máximo possível fiel com a obra original, fazendo com que até as roupas fossem feitas de acordo com as mesmas descrições.

Como já foi dito, “O bebê de Rosemary” faz parte da “Trilogia dos apartamentos”. Essa trilogia possui filmes que não são continuação um do outro, o que acontece é que os três filmes são terrores psicológicos que se passam em apartamentos.

Ser classificado como terror leva “Rosemary’s baby” (título original em inglês) a dois caminhos, ou as pessoas que tem medo de filmes do gênero se distanciam dele e nunca assistem, ou quem gosta, assiste e acaba ficando frustrado. Depois de anos diante de vários filmes capazes de levar qualquer pessoa a um susto “infartante”, “O bebê de Rosemary” acaba sendo pré-conceituado e, muitas vezes, não tem suas qualidades reconhecidas por causa do gênero ao qual foi classificado.

Acontecimentos trágicos

Gravado no lendário Edifício Dakota em Nova York, palco da morte de John Lennon alguns anos depois, o filme possui vários mitos, carregando em si uma aura misteriosa e cheia de conspirações. Coincidências podem acontecer, mas quando se trata de um filme de terror ou suspense, tudo é uma “maldição”.

A mais famosa “maldição” tem relação com a morte de Sharon Tate, esposa de Roman Polanski, assassinada a facadas por membros da seita do lendário, mas não menos real, Charles Manson. Sharon estava grávida quando foi assassinada em sua casa junto com mais três amigos que a acompanhava. Além disso, o produtor do filme, William Castle morreu neste mesmo ano e, segundo testemunhas, ele foi ouvido dizendo “Rosemary, pelo amor de Deus, solte essa faca”.

Associações, referências e metáforas

A maioria das obras, seja na música, literatura ou cinema, são um retrato dos acontecimentos da sociedade na época em que são produzidas. O bebê de Rosemary retrata assuntos pertinentes à sua época de maneira metafórica.

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Anton LaVey, fundador da Igreja de Satã

Para começar, em 1966, Anton Szandor Lavey fundou a Igreja de Satã, primeira seita religiosa totalmente dedicada a filosofias satânicas. Mas, na realidade, a seita não pregava o culto ao demônio como conhecemos, e sim ao próprio ser humano como ser individualista e humanista . Além disso, nos anos 60 também predominava a cultura hippie, o auge de grandes bandas de rock and roll que, vistos pelo viés religioso eram (ou ainda são) a própria encarnação do pecado.

Mas, apesar de ser um filme sobre uma seita e o filho do Anticristo, é possível perceber uma metáfora à posição da mulher na sociedade. Rosemary é uma mulher que apesar de ser independente acaba se vendo presa e tendo sua vida controlada, não muito diferente da situação feminina na época, onde apesar das lutas feministas e de muitas conquistas, ainda eram, ou podemos dizer que são a cada passo reguladas através de seus grupos sociais.

O tema feminino principal no filme é a maternidade e a força que o amor de uma mãe ao seu filho tem. O final do filme possui várias interpretações subjetivas, uma delas diz respeito ao fato de Rosemary ser mãe de primeira viagem e o filme poder ser interpretado como as preocupações que toda mulher que engravida pela primeira vez tem. Não só preocupações, mas curiosidade também, principalmente, com a saúde e aparência do filho. A ironia presente no fato de Rosemary ser “a escolhida” pela seita faz uma breve alusão religiosa à Maria, “a escolhida” para ser mãe do filho de Deus.

O bebê de Rosemary deve ser assistido porque…
O bebê de Rosemary

É polêmico e prende a atenção do espectador de forma deliciosa. O enredo é instigante e, o mais legal, usa de coisas comuns para promover o suspense, além de um humor sarcástico quase imperceptível, mas que dá o tom diferenciado à obra.  Além disso, tem atuações brilhantes! Mia Farrow interpreta Rosemary de maneira majestosa, fazendo que o espectador sinta com veemência os estágios de tensão psicológica da personagem. E Ruth Gordon, que ganhou até um Oscar como melhor atriz coadjuvante, é brilhante como a vizinha Minnie!

O bebê de Rosemary requer mais do que um simples assistir. É um filme que precisa ser contextualizado e interpretado, ele abre espaço para as mais diversas discussões, desde sociais até religiosas. Não é suficiente vê-lo, é necessário enxergá-lo!


Classicologia é a coluna quinzenal de Nay Berger (me, myself and I!), e aqui tenho a intenção em tirar aquele “cheiro de poeira” dos grandes clássicos do cinema mundial.


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