Classicologia #06- Ensina-me a viver (1971)- deixando os sentimentos acontecerem.

“Coerência não é realmente uma característica humana.”

large (4)

 Lançado em 1971 e dirigido por Hal Ashby, Ensina-me a viver consta na 45º posição da lista 100 years…100 laughs do AFI, cuja função é classificar os 100 filmes americanos mais divertidos de todos os tempos. Harold and Maude, nome original da obra cinematográfica, apesar de constar nessa lista e realmente conter cenas divertidas, não é exatamente uma comédia, daquelas só para rir, e sim um drama que ameniza seu tema com cenas leves e “fofinhas”.

large (2)

O filme é baseado num roteiro que foi lançado como romance em 1971 por Collin Higgins. A obra teve diversas adaptações, dentre elas uma para a TV, e outras três para o teatro, ganhando, inclusive, uma versão brasileira com a atriz Glória Menezes no papel de Maude.

 Ensina-me a viver conta a história de…

large (1)
“Eu suponho que você ache isso muito divertido, Harold!”

Harold (Bud Cort) é um jovem que tem tudo na vida e mesmo assim sofre um vazio existencial, tentando se matar, várias vezes, de forma falsa apenas para chamar a atenção de sua mãe. Ele compra um carro fúnebre e tem costume de ir a funerais de pessoas desconhecidas. Em um desses funerais ele conhece Maude (Ruth Gordon), uma senhora de 79 anos, viúva, e que também gosta de ir a funerais, mas ao contrário de Harold, ela vai não para se entreter com o clima fúnebre, e sim porque acha “o círculo da vida” divertido.

large (1)

A partir de então, os dois constroem uma amizade onde Maude mostra a Harold as coisas que a vida oferece e que podem ser aproveitadas. Harold acaba se apaixonando por Maude querendo até se casar com ela, mas como já estava programado, a senhora morre.

Temática

large

Ensina-me a viver produz reflexões acerca de vários assuntos, um deles é a morte. No início do filme, o personagem Harold tenta se matar, não de forma real, são apenas encenações. O garoto tem uma vida vazia de sentido, com uma mãe fútil, sempre preocupada com aparências e coisas que não acrescentam nada a ninguém. As tentativas de suicídio do garoto são um aviso a ela, que preocupada com questões vagas, não consegue perceber pelo que seu filho clama.Maude escolheu morrer, ela dizia “que 75 é muito cedo, mas aos 85 você está apenas marcando passo”, segundo ela a idade perfeita para morrer é aos 80, idade que ela faria na semana seguinte ao conhecer Harold.

large (3)
“Todo mundo tem o direito de fazer uma “loucura” consigo mesmo. Você não pode deixar o mundo te julgar demais.”

O filme versa, além da questão da morte, sobre os estereótipos. A mãe de Harold tenta várias vezes conseguir uma namorada para o filho, mas fica desesperada ao saber que o garoto está apaixonado e quer se casar com uma senhora que teria idade para ser a avó dele. Há, no filme, um trecho onde se explicita a reprovação que a sociedade tem acerca de casais “fora do comum”. Algumas pessoas presentes na vida do garoto opinam sobre a relação, mostrando além da reprovação contra o relacionamento, preconceito acerca da velhice. A fala que explicita tudo isso com maior ênfase é a do padre, dizendo a Harold: “o fato de seu jovem e firme corpo se misturando com a carne murcha, caídos… seios…e… flácidas…nádegas, me fazem querer vomitar!”, deixando clara a ideia que a sociedade prega, da beleza e da juventude, como se fossem eternas.

“… ‘cause there’s a million things to be…”

Uma das coisas que mais chama a atenção em Ensina-me a viver é a trilha sonora. Composta pelo então Cat Stevens (depois de se converter ao islamismo, passou a utilizar o nome Yusuf Islam), as músicas do filme se encaixam com maestria no enredo. Leves e alegres elas transmitem a essência do filme, e completam imensamente os diálogos inspiradores entre Maude e Harold.

harold-and-maude-soundtrack-back

A música tema do filme, If you want to sing out, sing out, reflete a ideologia de Maude. Os trechos da música onde se diz “Well, if you want to sing out, sing out, and if you want to be free, be free” (“Bem, se você quer cantar, cante, e se você quer ser livre, seja”), ou “You can do what you want, the opportunity’s on and if you find a new way” (“Você pode fazer o que quer, a oportunidade está aí e você pode encontrar um novo caminho”) são frases que a personagem com certeza falaria e que, com em forma de música se tornam mais fáceis de serem lembradas.

Ensina-me a viver deve ser assistido porque…

large

É um filme que promove auto-reflexão sem ser enfadonho. É sutil, encantador! Nos leva a pensar sobre questões fortes a partir de momentos ingênuos entre os personagens principais. Além disso, para quem não gosta de filmes populares demais, esse é perfeito! Pouco conhecido pelo grande público, ele se tornou cult, apreciado apenas por poucas pessoas anos depois de sua estreia, já que na época, não teve tanto êxito. Uma obra que celebra a vida, o amor, as coisas simples!

“You know love is better than a song, love is where all of us belong”

large

Classicologia é a coluna quinzenal de Nay Berger (me, myself and I!), e aqui tenho a intenção em tirar aquele “cheiro de poeira” dos grandes clássicos do Cinema mundial.

 

The following two tabs change content below.