Classicologia #05 – Cantando na chuva (1952)- Que sentimento glorioso!

“I’m singing in the rain

Just singin’ in the rain

What a glorious feeling

I’m happy again”

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Cantando na chuva (1952) é uma daquelas obras que permeiam a cultura popular de forma tão enraizada que acabam virando uma “parte de nós mesmos”. Impossível, mesmo sem ter assistido ao filme, não conseguir lembrar a coreografia de Gene Kelly cantando, na chuva (!), a icônica musica que deu nome ao filme. Gene era um dos maiores astros de musicais dos anos 50 (ficava páreo com Fred Aistaire) e, além de atuar, teve participação importante no roteiro e na direção. Cantando na chuva é um dos musicais mais lembrados, sendo considerado o mais grandioso de todos, e o 5º melhor filme americano segundo o AFI (American Film Institute).

Cantando na chuva fala sobre…

O filme conta a história de Don Lockwood (Gene Kelly), um ator que tinha como parceira de filmes a atriz Lina Lamont (Jean Hagen). O estúdio de gravação deles, vendo que o casal fazia sucesso começou a vender uma imagem como se fosse um casal na vida real. Apesar do interesse de Lina em Don, ele não suportava a atriz e na estreia de um filme deles, Don foge e acaba entrando no carro de Kathy Selden (Debbie Reynolds). A partir desses acontecimentos o enredo se desenrola tendo como pano de fundo a história da transição do cinema mudo para o cinema falado.

 A origem dos musicais

A origem dos musicais no cinema está intrinsecamente ligada à origem do filme com falas. O primeiro filme (longa-metragem) considerado “falado”, com sincronização de imagem e som foi justamente um musical, chamado O cantor de Jazz, lançado no dia 06 de outubro de 1927 e contava a história de um cantor de jazz que sofria preconceito por ser branco.

Esse filme foi concebido como um filme mudo, porém ele passou por um processo que estava sendo testado na época, o Vitaphone, um recurso que permitia gravar as falas e depois sincronizá-las com as cenas, da mesma forma que é apresentado em algumas cenas de Cantando na chuva.

O fato do primeiro filme “não- mudo” ser um musical foi proposital. Nos anos 20 os musicais da Broadway estavam em alta, e com a inovação das falas em filmes, os diretores foram espertos em juntar uma novidade (falas) com algo que todo mundo estava interessado (musicais) e o resultado foi sucesso imediato, culminando na forma de fazer filmes presente até hoje.

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A concepção de Cantando na chuva

A ideia de Cantando na chuva surgiu em consequência de um catálogo de músicas feito no período de 1927 a 1928, escritas pelo letrista Arthur Freed e pelo compositor Nacio Herb Brown. A dupla Freed-Brown foi contratada pelo diretor da MGM para que fizessem a trilha sonora do primeiro musical do estúdio, surgindo, então, The Broadway Melody (1929). A partir de então a dupla foi responsável pelas composições dos estúdios e no mesmo ano, foi lançado o filme The Hollywood Revue que continha a primeira versão da musica Singing in the rain.

20 anos depois a MGM comprou as participações e o catálogo das musicas de Freed e Brown, incluindo Singing in the rain. No mesmo mês, Freed anunciou que faria um filme com o mesmo nome da canção e que, de inicio, seria inspirado em Excess Baggage, um filme de 1928.

Freed começou a ver o catálogo de canções junto com Stanley Donen, e quando concluiu seu trabalho em Sinfonia de Paris, Gene Kelly entrou no projeto que estava em pré-produção, fazendo alterações nas músicas e roteiro. O papel de Cosmo foi dado a Donald O’ Connor após muita insistência de Kelly, ao contrario de Debbie Reynolds, que só entrou no filme, no papel de Kathy, pois era intenção dos estúdios promovê-la como uma grande estrela, mas que não tinha grandes talentos nem como cantora nem dançarina.

“I’m happy again….”?!

Toda superprodução esconde (ou não!) várias curiosidades em vários sentidos. Cantando na chuva tem como maior foco de atenção em relação aos bastidores na história entre Gene Kelly e Debbie Reynolds. Isso porque o astro maltratava a jovem atriz por causa da sua falta de habilidades, mas, pode-se pensar que a “implicância” de Kelly com Reynolds deve-se ao fato dela ter sido a única coisa no filme sobre a qual ele não teve controle, já que ela era uma aposta dos estúdios e foi praticamente obrigação colocá-la no filme.

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Outra curiosidade visada é em relação à icônica cena de Gene Kelly cantando sob a chuva. No dia da gravação dessa cena, o ator estava com 38 graus de febre e mesmo mal, resolveu repetir e fazê-la com a maior dedicação possível. A chuva desta sequência era composta por água e leite, e foi gravada numa das ruas permanentes dos estúdios da MGM, tendo que passar por algumas adaptações, por exemplo, tiveram que ser cavados seis buracos na rua para que a água ficasse empoçada. Gene Kelly disse que para realizar a cena “pensou em crianças espadanando água nas poças e decidiu que seria criança de novo durante a realização do número”.

Cantando na chuva deve ser assistido porque…

Além de ser divertido e proporcionar boas músicas, possui um pano de fundo histórico em relação ao cinema, ele retrata, de forma leve, as dificuldades na transição do cinema mudo para o cinema falado. O musical possui belas coreografias, fotografia maravilhosa, figurinos invejáveis e, para os preconceituosos contra filmes preto e branco, ele é um clássico colorido! E após assisti-lo, fica mais fácil reconhecer as referências desse filme pela cultura em geral, desde desenhos repaginados, apropriação das coreografias e reutilização das músicas. Depois de saber do sentimento infantil e de pura diversão de Gene Kelly ao realizar a cena da chuva, entendemos, talvez, a ideia que Stanley Kubrick quis passar ao deixar que Alex DeLarge em Laranja Mecânica cantasse Singing in the rain durante uma importante cena… mas, isso já é um assunto para outro texto!

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Classicologia é a coluna quinzenal de Nay Berger (me, myself and I!), e aqui tenho a intenção em tirar aquele “cheiro de poeira” dos grandes clássicos do Cinema mundial.

 

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