Clarice Falcão: “Problema Meu” (2016)

Clarice Falcão é uma pessoa insólita – e digo isso com todo o carinho de alguém que ama coisas insólitas. Desde seu despontar no Porta dos Fundos e o lançamento de seu primeiro álbum, “Monomania” (2013), ela mostrou que não estava disposta a fazer nada que a enquadrasse em… Bem, nada. Isso faz com que seu novo trabalho, “Problema Meu”, seja igualmente curioso, tão sonoramente quanto em suas composições sarcásticas, divertidas e levemente perturbadoras.

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É fato que, por ter um estilo muito próprio, se você não for muito com ela, dificilmente vai gostar deste novo álbum – mas quem vê cara não vê cara/som. Para quem gosta, ou no mínimo tolera, vai ter uma grata surpresa. Enquanto “Monomania” é quase um álbum acústico, esse lançamento se afasta drasticamente disso desde os primeiros acordes. A abertura de “Irônico” é composta por batidas eletrônicas, que posteriormente cedem à voz blasé da cantora – que entrega uma letra que diz, literalmente, que “eu gosto de você como quem gosta de um vídeo do Youtube de alguém cantando mal”. A pegada techno também aparece na contemplativa “A Volta do Mecenas”, e os sintetizadores de “Como É Que Eu Vou Dizer Que Acabou” até lembram “Jump”, do Van Halen, no início. É importante ressaltar, contudo, que ao contrário do que é recorrente, o aumento do valor de produção do álbum não engoliu o estilo da cantora. Ainda temos fanfarras, evoluções musicais curiosas e letras sarcásticas saindo pelo ladrão.
Sarcasmo que se une à simplicidade visto em seu trabalho anterior e que é revisitado em algumas canções deste álbum. Em “Eu Escolhi Você”, ela expõe o fato de que escolheu seu novo amor por falta de opção (acontece, certo? Eu acho.); “Deve Ter Sido Eu” é uma música mais simples e potencialmente homicida; o “Banho de Piscina” é de óleo fervendo, e “Vinheta” é… Bizarra.

Com tudo isso acontecendo, novas facetas da Clarice são mostradas em músicas como “Se Esse Bar Fechar”, uma adorável música triste baseada em piano com a qual qualquer um pode se identificar (até porque talvez a vida seja um grande bar que a gente insiste em manter aberto torcendo para que a pessoa que esperamos apareça, para então trocarmos umas palavras amistosas e depois saiamos para um lugar melhor e mais quieto). Em “L’Amour Toujours (I’ll Fly With You)”, ela entrega um cover intimista da canção de Gigi D’Agostino (tenho uma queda por covers intimistas de músicas animadas), e em “Duet” Clarice se embebeda aos poucos ao piano de um lounge bar.

Em suma, depois de eu divagar tanto quanto a própria cantora (não me arrependo de nada), “Problema Meu” é o que você teria caso batesse a banda Two Door Cinema Club com “(500) Dias Com Ela” no liquidificador e tomasse vendo Telecine Touch num sábado às oito da noite. A resignação bem-humorada da Clarice Falcão frente ao fim do amor e a outras desgraças da vida entrega um álbum leve e divertido, com seu conteúdo musical sendo a renovação dela mesma que ela entrega. Então se você precisa de um amigo que lhe diga “nossa, isso é realmente uma m*rda” e ria com você em seguida, “Problema Meu” é um presente seu.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.