Cinquenta Tons de Cinza (2015)

“-E o que eu ganharia o quê com isso tudo?

-Eu.”

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Título: Cinquenta Tons de Cinza (“Fifty Shades of Grey”)

Diretora: Sam Taylor-Johnson

Ano: 2015

Pipocas: 2/10

Eu me sinto obrigado a começar essa resenha admitindo que entrei no cinema esperando um filme de regular para ruim, mas a vida tende a nos surpreender de diversas formas, de modo que “Cinquenta Tons de Cinza” (“Fifty Shades of Grey”) consegue superar qualquer expectativa negativa e ser um filme realmente – de verdade. Mesmo. – muito ruim.

“Cinquenta Tons de Cinza” “conta” a “história” de Anastasia “Ana” Steele (Dakota Johnson), uma estudante de literatura americana que através de uma entrevista para o jornal da faculdade conhece o bilionário de 27 anos Christian Grey (Jamie Dornan). A atração é mútua, e logo o romance se desdobra, porém de forma inesperada após Grey mostrar a Ana o segredo que o separa dos demais mortais – fora seus bilhões de dólares, é claro.

Começar a falar desse filme é tão complicado quanto começar a apagar um incêndio com um balde d’água, mas acho que vale começar pela parte que 95% das pessoas (de muitas pessoas; a sessão que fui, numa segunda-feira, duas semanas depois do lançamento, estava lotada) foram assistir esse filme: o sexo. Além de tratar a virgindade da personagem principal como “problema” (na legenda; “situation” a ser resolvida no original), quando Grey e Steele chegam às vias de fato, o casal não tem química e, à parte dos seios e dos pelos pubianos (que fizeram todas as mulheres da sala caçoarem de Anastasia por um motivo que até agora não compreendi), a dinâmica física entre os dois não mostra nada – figurativa ou literalmente.

E o filme só serve a isso. Depois do primeiro ato sexual em cena, o longa se torna uma colagem de cenas de sexo sem qualquer história relevante entre uma e outra, e sem desenvolver os personagens em seus meios – o que é, para todos os efeitos, a definição de “filme pornô”. A “trama” tenta vender Grey como um homem completamente doente por causa de suas pretensas perversões sexuais – promessa que se prova inócua, visto que Grey não faz absolutamente nada que já não tenhamos visto numa novela das nove -, quando a real doença do personagem está em sua personalidade abusiva, invasiva e, sinceramente, completamente sem noção. Grey troca o carro da namorada e o vende sem pedir autorização, embora ela demonstre que o automóvel tem valor sentimental, e invade a casa dela somente para fazer sexo com ela e ir embora, como em um sonho bizarro resultado de uma enxurrada de hormônios aleatória. Ainda assim, são estes os atos que Anastasia aceita com maior facilidade, enquanto torce o nariz para meia dúzia de algemas no “quarto vermelho da dor” de Grey.

O triste de verdade é ver os atores tentando. Dakota Johnson se esforça a dar mais profundidade e espontaneidade à sua personagem, principalmente na cena da dança – a única de fato boa do filme -, mas o roteiro não ajuda. Jamie Dornan obviamente também está dando o seu melhor, mas seu personagem risível diz coisas como “eu sou cinquenta tons de f*dido” durante uma briga com a intensidade de Paola Bracho, e qualquer chance de o levarmos a sério se joga do alto da cobertura dele. Como se isso não fosse o suficiente, o roteiro, mesmo nos momentos sem diálogo, tem a sutileza de um trem desgovernado, fazendo que Anastasia saia na chuva tremendo e dizendo “ai meu Deus” depois de conhecer Grey, morder os lábios repetidas vezes em momentos totalmente aleatórios e – a cereja do bolo – por um lápis na boca enquanto a câmera foca no nome “Grey” cravado no mesmo.

Mas há de se defender a roteirista, Kelly Marcel, teve que tirar água de pedra para montar o que iria para as telas. A origem da história como fanfiction (ficção criada por fãs) de Crepúsculo permeia toda a obra (?); impossível não lembrar dos vampiros quando Christian usa seus superpoderes para agilmente salvá-la de um atropelamento, para ficar encarando a garota no momento seguinte e avisá-la do quão ele é perigoso e como ela deveria se afastar (embora ele a persiga o filme inteiro); ou a própria garota, que é declaradamente sem graça e sem qualquer atrativo, que de alguma forma exerce um fascínio inexplicável sobre um homem (psicótico) que ela crê ser totalmente além de seu alcance; ou mesmo na figura do rapaz José, cosplay de Jacob, que se oferece para abraçá-la e aquecê-la na ausência de Christian.

“Cinquenta Tons de Cinza” é um filme sofrível que tem seus ápices nas cenas de sexo por ser quando seus personagens finalmente calam a boca, e deixam a trilha sonora lavar nossa mente da patifaria na nossa frente. Um filme que problematiza o lado errado de seu fraco anti-heroi, nos faz pensar se o maior abuso ocorrido foi o de Grey contra Ana ou dos realizadores do filme contra a audiência. Ainda assim, “still a better love story than Twilight”.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.