Análise | Mãe! – Entenda as alegorias, símbolos e significados

Assistir Mãe! é uma experiência incrível, mas esse texto está cheio de spoilers. Leia mesmo assim, ok!? 

Lançado em setembro de 2017, “Mãe!”, de Darren Aronofsky, foi igualmente aclamado e rejeitado pelas pessoas na mídia e na internet. As reações, positivas e negativas, são completamente compreensíveis dado o fato de que essa obra é esteticamente impactante e usa ideias e imagens que, não raramente, beiram o perturbador.

mãe!

Toda a história se passa na casa da personagem de Jennifer Lawrence, que chamaremos de Mãe. Ela é casada com o personagem de Javier Bardem, que chamaremos de Poeta. A princípio, a convivência que eles têm parece harmônica, apesar de ele não encontrar inspiração para escrever e ela soar insatisfeita com o fato de ele não dar a ela toda atenção que poderia, já que ambos estão sozinhos no meio do nada e só têm um ao outro e a casa. Em um dado momento, eles começam a receber visitantes que mudam sua rotina muito drasticamente.

Essa breve sinopse passa a ideia de um filme em que nada muito interessante acontece, contudo, como o próprio diretor afirmou em entrevista, “Mãe!” funciona, o tempo inteiro, a nível alegórico e, assim sendo, é importante ter em mente como se dá a interpretação desse tipo de linguagem, de outra forma, o filme não pode ser compreendido em sua totalidade.

Mãe!

Uma alegoria é um recurso artístico para criar um micro-universo que emule um universo maior – na maioria das vezes, muito maior! Como exemplo, temos o livro “Ensaio Sobre a Cegueira“, de José Saramago, em que o mundo é acometido de uma cegueira branca, exceto uma mulher, que acaba ficando responsável por um grupo de cegos. Nesse caso, de uma maneira muito rasa, podemos entender a cegueira como a alienação da humanidade e, assim, aquela que não é alienada (não é cega), acaba por sofrer com a responsabilidade sobre os demais.

No filme de Aronofsky, a casa é uma representação do mundo enquanto Criação Divina. Por isso existem cenas em que ela está decomposta, depois vem à existência e, eventualmente, ela é destruída e volta a existir de novo. Essa é a continuidade cíclica da eternidade legada aos deuses. Nesse cenário, a Mãe é o arquétipo ou o espírito da Mãe Natureza, o que nos faz entender o porquê de ela estar conectada simbioticamente à casa, sofrendo suas dores e percebendo, o tempo todo, a vida que circula ali. O Poeta, por sua vez, é o Deus criador, bem mais velho do que ela e com interesses que parecem ir além da casa. Vale lembrar que, ao chegar, o primeiro visitante diz ter imaginado que eles fossem pai e filha, não marido e mulher. A convivência de ambos é pacífica, mas fica visível que ele anda entediado, enquanto ela está preocupada em manter a ordem do ambiente e, nas próprias palavras, “construir um paraíso” para ambos.

mãe!

Assim, os visitantes que começam a chegar são encarregados de aprofundar a alegoria cada vez mais na narrativa bíblica usada como base para todo o filme. O primeiro a chegar na casa, (Ed Harris) é Adão, que na primeira noite passa muito mal e é ajudado pelo Poeta. No dia seguinte, ele acorda esplêndido, o que surpreende a Mãe. Em poucos instantes, a campainha toca e uma mulher está à porta. A esposa do primeiro homem aparece (Michelle Pfeiffer), uma alusão à Eva.

Num momento de interação mais profunda entre Eva e a Mãe, a primeira mulher invade a sala do Poeta – o único local da casa onde ele não quer que as pessoas entrem sem ele estar acompanhado. Em seguida, ela leva o marido à sala e juntos eles quebram o bem mais precioso do Poeta. Este arco alude ao Pecado Original. Não é à toa que, logo em seguida, a Mãe é surpreendida por eles transando em um dos quartos da casa.

A Mãe faz moção para expulsá-los dali, mas essa não é vontade do Poeta, que parece ter uma estranha compaixão pelos visitantes demasiadamente inconvenientes. Não demora muito, os filhos do casal aparecem em uma alusão à Caim e Abel. Temos, assim, o primeiro ato de violência da humanidade e um irmão mata o outro. O velório acontece na casa, pois, segundo o Poeta, os visitantes não têm para onde ir. Isso faz com que um sem número de pessoas apareçam e a situação fica completamente fora de controle. Eventualmente, a Mãe expulsa todos de lá debaixo da água do encanamento quebrado e da chuva que caía fora da casa, simbolizando o dilúvio.

Imagem relacionada

A partir daí, temos o início de outro ciclo. O Poeta e a Mãe fazem sexo, a Mãe engravida e isso deixa o Poeta inspirado. Uma curiosidade aqui é que a Mãe, ao saber que está grávida, pára de beber sua água com pó amarelo. Esse elemento, ao que tudo indica, é uma referência ao conto O Papel de Parede Amarelo (The Yellow Wallpaper), de Charlotte Perkins Gilman, que narra a história de uma mulher confinada pelo marido em um quarto,  ficando, assim, aficionada pelo papel de parede do lugar. Esse conto é um marco da literatura feminista, pois é a perspectiva de uma mulher, em primeira pessoa, acusada de histeria pelo próprio marido – algo comum no século XIX. A ligação com o filme se dá porque o escopo feminino é extremamente importante para Mãe!, afinal de contas, o nome do filme é feminino e tudo o que acontece se dá de acordo com sua visão!

Assim, quando o Poeta escreve o que de mais belo poderia existir, ele é publicado e se torna um enorme sucesso. Na noite de um jantar a dois, quando a Mãe está prestes a dar a luz, a casa volta a ser completamente invadida por seguidores do escritor. Porém, dessa vez, o descontrole é imensamente maior do que antes. A casa ganha diversas subdivisões, guerras, cultos ao Poeta, pobreza, mulheres presas e estupradas, orgias, assassinatos, etc. Por fim, temos aí uma nova alusão à humanidade naquilo que ela tem de pior. Isso tudo culmina no parto da Mãe – uma cena tão intensa que, provavelmente, foi responsável pelo rompimento do diafragma de Jennifer Lawrence.

O nascimento do bebê é uma clara alusão à vinda de Jesus Cristo. Assim, como na Bíblia, ele é, inevitavelmente, morto pela multidão, tendo sua carne comida e seu sangue bebido ritualmente, em referência ao momento da ceia cristã. Isso faz com que a Mãe seja levada a um último nível de fúria com toda a situação e se destrua junto com casa num incêndio. Contudo, o Poeta é invulnerável e, ao fim, ele sozinho refaz tudo o que foi destruído numa última cena que espelha perfeitamente a primeira.

mãe!

Estar ciente de todas essas coisas é extremamente necessário para a experiência que o filme tem para oferecer, afinal de contas, fora da alegoria, o filme dificilmente se sustenta já que faltam, propositalmente, histórias de fundo e nuances para os personagens – a princípio, nem nomes eles possuem.

Em conclusão, Mãe! é um filme único, feito para se ver mais de uma vez e ter inúmeras interpretações. Aronofsky optou por usar uma narrativa grandiosa para emular aquela que talvez seja a maior história da humanidade, acrescentando a ela versões e interpretações já existentes e também visões pessoais. O sucesso na sua empreitada é a experiência cinematográfica ímpar e angustiante que é assistir “Mãe!”.


Curtiu o texto? Fala pra gente pessoalmente com um comentário, ou nos nossos grupos do Facebook e do Telegram!

 

The following two tabs change content below.
Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.