CineBrasil #3: As Três Marias (2002)

“As Três Marias”, filme de 2002, não se encaixa em nenhum dos lastimáveis rótulos preconceituosos que nós brasileiros damos para nossa produção cinematográfica nacional. Adaptado a partir da obra de Wilson Freire, um cordel homônimo, e dirigido por Aluízio Abranches, o filme conta uma boa história de vingança que se abate sobre a família de Filomena Capadócio (Marieta Severo). Ela tem os seus filhos e marido brutalmente assassinados pelos filhos de  Firmino Santos Guerra (Carlos Vereza). O motivo dessas mortes é magistralmente explicado através de pouquíssimas cenas fragmentadas, que vão aparecendo e reaparecendo ao longo do roteiro. Por causa do ocorrido, Filomena arquiteta sua vingança através da ação conjunta de suas filhas, Maria Francisca (Julia Lemmertz), Maria Rosa (Maria Luisa Mendonça) e Maria Pia (Luiza Mariani). Cada filha teria de ir atrás de um matador para cada filho de Firmino e também para o próprio, entretanto, cada matador apresenta-lhes-ia um empecilho para realizar a ação, o que deveria ser contornado pelas Marias.

O filme se passa no nordeste dos coronéis e tem o cenário muito bem construído através de várias tomadas em plano aberto que não mostram, necessariamente, paisagens de beleza primorosa; às vezes é uma campina sem grandes vegetações, às vezes uma estrada, até quando é trazido num ambiente urbano, notamos um espaço que não tem muitos atrativos, o que faz com que o foco permaneça no que realmente interessa; as três Marias. Isso também constrói a aridez com que a história é contada, sem firulas, mostrando a face feia, fria e crua da vingança. Talvez a única coisa dispensável na montagem do filme seja algumas transições entre os cenários, porque ficaram muito artificiais, o que acaba não casando com a linguagem da obra. Mas não chega a ser algo que desmotive a audiência.

Corroborando com a importância da construção das personagens, é importante prestarmos a atenção no plot twist (o momento em que a direção do roteiro muda completamente) que, apesar de bastante previsível, constrói e empodera bastante as personagens femininas, que afinal de contas, são o centro da história. Isso, junto do fato de o filme ser contado de maneira não cronológica, ser uma história de vingança, ter nas primeiras cenas certa sanguinolência ligeiramente escatológicas, constrói um círculo de características que nos fazem lembrar levemente de alguns filmes de Quentin Tarantino, o que é um ponto bastante positivo, pois o filme não é apenas criativo, mas bem influenciado.

Por fim, pode-se dizer que “As Três Marias” é mais uma prova de que o cinema nacional precisa ser melhor explorado pelos próprios brasileiros (indústria cinematográfica e público), pois, infelizmente, ainda é constante o preconceito de que filmes brasileiros são de extremo mal-gosto, demasiadamente sexuais e com roteiros pouco interessantes (tudo o que esse filme não é, por exemplo). E para completar o disparate contra o patrimônio cinematográfico nacional, ainda precisamos constantemente conviver com a super exposição de obras que não chegam perto da originalidade e qualidade dessa, que nem chegou a ter campanhas de divulgação e foi exibido em apenas dez cinemas em todo o país.

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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.