Cinderella (2015)

“Quero te contar um segredo que vai te ajudar em quaisquer obstáculos que a vida possa te impor: tenha coragem e seja boa.”

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Título: Cinderella

Ano: 2015

Diretor: Kenneth Branagh

Pipocas: 8,5/10

A Disney tem se recriado na última década. Enquanto nas “animações de princesa” a empresa já se encontrou em filmes como Enrolados e, principalmente, “Frozen “- redefinindo a fórmula narrativa clássica para um novo milênio e iniciando uma nova Era de Ouro -, a Casa do Rato ainda está experimentando com suas adaptações live-actions (com atores) dessas histórias de coroa-e-espada. “Encantada” (“Enchanted”, 2007) trazia princesas para o mundo real; “Malévola” (“Maleficent”, 2014) nos levou para mais perto de uma das vilãs mais icônicas da história das animações, e – porque não – Alice no País das Maravilhas (“Alice in Wonderland”, 2010) deixou Tim Burton transformar tudo em algo estranho (e ligeiramente ruim, mas tudo bem). Embora todos esses filmes tenham sido um sucesso comercial (Malévola bateu $700 milhões só nos cinemas, enquanto Alice bateu a histórica cifra de 1 bilhão de dólares), a crítica foi inconstante na recepção dessas subversões do gênero criado pela própria Disney. Assim sendo, “Cinderella” é um deleite exatamente por não tentar reinventar a roda, mas simplesmente ajustando-a para um melhor funcionamento.

“Cinderella” conta a história de… Bem, você já sabe. É exatamente a história da animação clássica, com todo o drama de Ella se tornar órfã e ter que conviver com uma madrasta terrível e duas “irmãs” completamente obtusas; fada madrinha, príncipe, felizes para sempre – embora aqui tenhamos um foco bem maior na relação entre Ella e seus pais, o que torna seu encontro com o príncipe nem uma busca e muito menos seu objetivo, mas uma consequência da criação que recebera e do seu investimento integral no legado de seus pais.

É impossível dar spoilers do enredo exatamente por ele se ater a tudo o que já conhecemos exaustivamente desde 1950. Entretanto, os personagens são trabalhados com humanidade e franqueza, de forma que Ella não se torna uma personagem chata que fala com tudo ao redor e cantarola para as paredes, mas que ainda mantém sua essência inocente, corajosa e bondosa*. No outro ponto do espectro, a vilã Lady Tremaine consegue ser copiosamente cruel, com direito a risadas malévolas, mas ainda sem cair no ridículo.

Os louros dessa conquista se devem em grande parte à Kenneth Branagh, diretor shakespeariano (que também atende por “professor Gilderoy Lockhart”) que sabe adicionar peso e pompa sem deixar o trabalho desandar para o humor involuntário – e o sotaque britânico do áudio original também ajuda tremendamente nesse sentido.

As atuações, por sua vez, conseguem carregar com facilidade os fardos que personagens ao mesmo tempo estereotipados e com certo grau de complexidade trazem; Lily James (Downton Abbey) encanta como Ella em cada cena que aparece, sempre trazendo em cada gesto os ensinamentos de sua mãe e a memória de seu pai (o que na trama é importante para explicar porque a garota se submete aos maus-tratos em casa), e Richard Madden (Game of Thrones, pero no mucho) entrega um príncipe crível e dividido entre suas responsabilidades e os anseios de seu coração.

Mas é Cate Blanchett o destaque do elenco: sua Lady Tremaine, a madrasta cruel, dança na perigosa linha que separa a intensificação que um papel de conto de fadas exige de um exagero gratuito. A vilã tem nuances de doçura, e seus olhos a traem em arrependimento quando ela diz ou age de forma maléfica demais. Ainda assim, Blanchett exibe a característica de grandes atrizes e atores coadjuvantes: brilha quando necessário e no resto do tempo monta o palco para que Lily James o domine em seus sapatinho de cristal.

O que nos leva ao belíssimo figurino e cenários do filme. A cena do baile é majestosa em cada detalhe, das cortinas aos botões das camisas, e é de encher os olhos. Um pouco antes deste acontecimento, a transformação de Ella através da varinha de condão da Fada Madrinha (Helena Bonham Carter) tira o fôlego, recriando com uma perfeição e cuidado ímpares cada movimento mágico do clássico – com destaque para a transformação do vestido -, com direito a “Bippity Boppity Boo” (que aqui é uma palavra mágica, visto que esta versão não é um musical).

O importante é que “Cinderella” revive um clássico sem subvertê-lo – o que por si só, nos dias de hoje, já poderia contar como uma subversão. Ainda assim, consegue atualizá-lo e torná-lo menos unidimensional enquanto mantém a inocência e o reforço constante da mensagem de “tenha coragem e seja boa” ao longo do filme para as crianças. Talvez possamos dizer que se torna um exercício metalinguístico quando pensamos que é um filme corajoso e bondoso numa época em que o cinismo tem prevalecido em histórias semelhantes. Aqui, somos levados para um belíssimo e encantador mundo – isso se você se deixar levar e, às vezes, acreditar em um pouquinho de mágica.

*Aos fãs mais intensos: relaxem, ela ainda fala com os ratos, que correspondem silenciosamente.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.