Chile: dia 1 | Clubes subterrâneos de reggaetón e chegada em Santiago

Quando saí do Rio, após perder meu voo para São Paulo e gastar R$ 800,00 reais do meu orçamento para uma passagem de última hora antes mesmo de sair do Brasil, eu não estava feliz. Estava nervoso em meu primeiro mochilão internacional, e sabia que meu amigo de viagens também não estava muito confortável em ter ido na frente para São Paulo, mas foi necessário. Eu estava cansado da odisseia que me levou até aquele lugar, e a exaustão mental só era menor do que a física. Ainda assim, em menos de doze horas e pouco depois da minha chegada em Santiago, eu estaria no palco de um clube subterrâneo em no Chile.

chegada em santiago
Santiago. Fonte: theweek.co.uk.

Nossa chegada em Santiago se deu já consideravelmente tarde; era mais de onze horas da noite quando descemos para o ar frio do Chile, e logo percebi que estava sem sinal algum no meu celular para conseguir ligar para o taxista brasileiro, o Davi, que nos buscaria no aeroporto[1]. Meu companheiro de viagens, Eduardo, aparentemente tinha um plano pós-pago que operava magia certamente de origem macabra, e seu celular pegava maravilhosamente bem.

Assim sendo, apesar do meu desespero, não tivemos dificuldades em encontrar o Davi, lusófono em meio à cacofonia hispanohablante da capital chilena. Em plena madrugada, e em nosso primeiro mochilão para fora do país, foi reconfortante ter um brasileiro simpático nos falando um pouco de sua experiência na cidade, apesar de, posteriormente, descobrirmos que o valor cobrado era o dobro de uma tarifa normal; a corrida do aeroporto até o albergue CheLagarto, no centro de Santiago, custou R$ 80,00 em vez dos usuais R$ 40,00. Por outro lado, além de nos servir como um microguia, apontando o que havia perto ao albergue, o Davi também voltou para devolver o celular – novo – que o Eduardo deixou cair no banco de trás. No fim, o gasto em dobro acabou sendo uma economia… Sem fim, na verdade.

Seguimos para o CheLagarto, nosso albergue em Santiago. A rede CheLagarto é conhecida mundialmente, e nada há a dizer senão que é excelente, com boas instalações, e, em Santiago, incrivelmente bem localizada, como Davi nos havia apontado. Descobriríamos que perto do metrô e no coração de Santiago, a estadia ligeiramente mais cara do CheLagarto nos economizaria em transporte.

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Fizemos check-in e nos dirigimos ao nosso quarto, ainda inebriados com a sensação de estarmos mochilando em outro país. Nos preparávamos para deitar quando meu celular, conectado ao bom Wi-Fi do albergue, vibrou: mensagens de locais. Nos preparando para a viagem, começamos a tentar contato com diversos habitantes da cidade para termos mais companhia e conhecermos lugares legais após nossa chegada em Santiago, e logo na primeira noite funcionou: nos chamavam para ir ao bairro boêmio de Santiago, Bellavista, para conhecer um clube. Olhei para Eduardo, perguntei se ele topava, e ele me deu sua resposta padrão para as minhas ideias idiotas: “se você quiser, eu topo”[2].

Eu quis, ele topou.

Rua no bairro Bellavista. Fonte:: santiagodochile.com.

Embarcamos em um táxi e pagamos 3000 pesos chilenos – cerca de 15 reais – para irmos até Bellavista. Passamos pela rua Pio Nono, a principal, cheia de bares borbulhantes àquela hora, pouco depois da meia-noite, e fomos até o final dela. A rua desemboca no zoológico e, logo ao lado da entrada do mesmo, está o clube Campus Central, onde encontramos o pessoal com o qual havíamos marcado, e não tardou para encontrarmos o pequeno obstáculo: o idioma.

Numa quadrilha que faria inveja a Carlos Drummond de Andrade, Eduardo falava inglês que Ana falava e Ana falava espanhol que Alberta falava que falava só espanhol mesmo – o qual eu arranhava[3]. Por toda aquela noite, nossas conversas seriam Torres de Babel portáteis, carregando traduções simultâneas e caras confusas pelas ruas de Santiago.

Após conversarmos um pouco e nos assegurarmos que nenhum de nós tinha cara de psicopata à busca de sua próxima vítima, entramos no clube. Pagamos uma pequena quantia na entrada (algo em torno de 20 reais) e, após alguns segundos na pista superior, que tocava música pop, fomos ao andar abaixo, onde a coisa ficou rápida e intensamente latina.

A música estourava nos alto-falantes: reggaetón explodindo pelo ambiente num volume humanamente impossível, e pessoas dançando como se fosse as últimas noites de suas vidas. Havia um palco diretamente à nossa frente, cercado por um cordão de isolamento e um segurança ameaçador. Eu ainda estava rindo com Eduardo, comentando  o quão bizarro era o fato de que estávamos num clube subterrâneo de reggaetón logo na nossa chegada em Santiago, então não notamos quando uma pessoa de nosso grupo, a Ana, tomou a frente e conversou com o segurança.

Eram amigos, e ela estava pedindo para subir ao palco conosco.

Ele deixou.

Em choque, eu e Eduardo nos entreolhamos. “Vamos?”, perguntei, esperando no “não!” dele uma desculpa eficiente para ficar onde eu estava e me ambientar ao lugar. Mas perguntei à pessoa errada, obviamente.

“Se você quiser, eu topo”. Topei, e fomos.

Elaine Benes (Seinfeld) demonstrando meu gingado.

Ana se encarregou de tentar me ensinar a dançar o reggaetón, o que foi obviamente uma causa perdida. Eu me mexia como se tivesse em contrações de parto, jogando meu corpo da esquerda para a direita, como se desviasse de balas muito lentas. Ela ria de mim, o povo abaixo da gente ria de mim, eu ria de mim – com bastante felicidade, inclusive. Olhei para o lado, e Eduardo estava colado contra a parede como uma lagartixa, e também dançando como uma. Entre nós, um homem fazia o que certamente era, em algum lugar do mundo, uma dança de acasalamento, esfregando sua alma em uma garota que estava afim, mas não tanto quanto ele. Fumaça de gelo seco era disparada para cima de tempos em tempos, os canhões de luz rasgavam o espaço, e eu só conseguia sorrir com um misto de desespero e cumplicidade para o Eduardo, que só ria de volta para mim.

Foi assim que eu, um jovem de 21 anos com o requebrado de um espeto de churrasco, me vi em um palco de um clube chileno dançando raggaetón em cima do palco.

E essa foi a primeira noite e minha chegada em Santiago.

***

[1] Dica do Futuro Eu: compre chips locais. Sério.

Além disso, você pode entrar em contato com o Davi no número +56 9971 05749.

[2] Um parêntese importante: se for fazer mochilão acompanhado, o que você mais precisa valorizar não é o conforto, nem a companhia aérea, nem mesmo para onde você vai, mas a companhia. Uma parceria errada estraga uma viagem perfeita, e um bom amigo torna uma viagem catastrófica – ou momentos deprimentes – em histórias dignas de virarem texto em um site. Se possível, escolha um Eduardo para você.

[3] Nomes alterados porque seria babaca se eu não o fizesse.

OBS.: pela natureza aleatória deste relato, obviamente não temos muitas fotos nossas dessa nossa chegada em Santiago. No dia 2 já muda bastante de figura, prometo.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.