Carrie, a Estranha (2013)

“-Não, Carrie! Por favor, não me machuque!

-Por que não? Me machucaram a vida inteira.”

carrie

Filme: Carrie, a Estranha (Carrie)

Ano: 2013

Diretora: Kimberly Peirce

PIPOCAS: 5,5/10

“Chloe Moretz é bonitinha demais para ser a Carrie!” Eu ouvi – e disse – essa frase diversas vezes, desde que a atriz de 16 anos foi escalada para viver a garota telecinética no cinema. Assim sendo, não foi surpresa ela realmente ser fofa/delicada demais para viver Carrie White – mas foi uma surpresa perceber que esta escolha foi de propósito.

Voltando um pouco: “Carrie – A Estranha” é um remake do filme homônimo de 1976 dirigindo por Brian De Palma, o qual por sua vez é baseado no livro de Stephen King. Na estória, Carrie White (Chloë Grace Moretz, Kick Ass 2, A Invenção de Hugo Cabret) é uma garota perturbada, inicialmente devido a opressão de sua mãe extremamente religiosa, Margaret White (Julianne Moore, Como Não Perder Essa Mulher, Magnólia), e posteriormente por suas colegas de escola, encabeçadas por Chris Hargensen (Portia Doubleday, Rebelde com Causa). Mesmo contando com os esforços de sua professora de Educação Física, Srta. Desjardin (Judy Greer, Os Descendentes) e da valentona regenerada Sue Snell (Gabriella Wilde, Os Três Mosqueteiros [2011]), Carrie mantém uma luta perene para manter seus recém-descobertos poderes de telecinese sob controle – até tudo finalmente dar errado.

É complicado não comparar o remake com o original; já faz quase um ano desde que vi a versão de 1976 pela primeira vez, e não quis ver novamente antes de assistir a nova leitura exatamente para não cair neste abismo sem fim de comparações. Ainda assim, é impossível não ver a Carrie dos minutos iniciais da película sem se lembrar da Carrie de Sissy Spacek e pensar que falta alguma coisa, não na atuação de Moretz, mas no próprio clima do filme.

E é aí que reside o principal problema do longa: não há suspense. Enquanto o original nos mantinha grudados à cadeira (mesmo durante momentos com efeitos visuais constrangedores e atuações coadjuvantes de gosto duvidoso), graças ao seu clima de tensão e um “vai-dar-ruim” constante, esta versão de 2013 flerta com filmes da safra neo-slash, como os remakes de Sexta-Feira 13 e Hora do Pesadelo – embora sem cair ao nível deles.

A tensão só fica palpável nas cenas envolvendo a mãe de Carrie, Margaret. Julianne Moore está impecável na pele da extremista religiosa, que crê ter dado a luz a uma “provação”, fruto de pecado. Cada aparição de Moore na tela causava um arrepio na espinha, e sua relação doentia, que varia da agressão física ao amor recíproco (ou seria Síndrome de Estocolmo?) em questão de segundos com Carrie é muito bem explorada, capacitando o filme com uma credibilidade sem a qual ele desabaria em seu primeiro ato.

Chloë Moretz, incumbida com o pesado papel de representar um ícone do suspense/terror, se sai muito bem, e ainda na primeira metade do filme entendemos que a escolha da garota-fofa-demais-para-o-papel foi proposital; os produtores deixam explícito em diversos diálogos que, ao contrário da Carrie de Spacek, sempre estranha, a Carrie de Moretz é uma garota normal, só que com poderes, e posta sob situações extremas. Dentro desta proposta (e fica ao critério do espectador se ela é válida ou não), Moretz se sai muito bem, desenvolvendo o personagem satisfatoriamente ao longo da película, tornando todos os surtos e dilemas de Carrie críveis.

O terceiro elemento digno de menção são os efeitos. Se em 1976 os efeitos visuais eram um problema devido ao seu custo, e diversos atos de Carrie são subentendidos ou mal exibidos, aqui a telecinética mais psicótica do cinema mostra todo seu dom para o caos em alta resolução. Pirotecnia, cabos elétricos, terremotos e sangue de animais diversos: está tudo presente aqui com um detalhamento impressionante.

De resto, o elenco coadjuvante se limita a sua função, sem entregar nada de novo ou inesperado, caindo – com empurrões generosos da dupla de roteiristas com lapsos de preguiça – nos clichês do gênero. Quem mais sofre com isso é a patricinha-mor Chris, que aparece como uma antagonista totalmente unidimensional e caricata. A trilha sonora é esquecível, e a direção também não ousa – pelo contrário: também lança piscadelas para os lugares-comuns do gênero com certa frequência.

No fim, vemos que “Carrie, a Estranha”, não passou apenas por uma atualização de linguagem, mas também tentou se adequar melhor ao grande público jovem atual dos filmes de suspense/terror, que gosta de músicas pop em cenas finais tanto quanto gosta de finais em aberto para possíveis (hediondas) sequências. Julianne Moore e Chloë Grace Moretz são obrigadas a sustentarem sozinhas o filme que, por pouco, não desmorona sobre si mesmo – e sem nem precisar de poderes telecinéticos para isso.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.