Capitão Fantástico (2016) – como educar os filhos para a vida?

Nota: O texto a seguir pode conter pequenos spoilers, portanto, se você se importa com isso e não viu o filme ainda, esteja avisado.

Capitão Fantástico (Captain Fantastic) é um daqueles filmes que já nos primeiros minutos abraça a audiência. Esta, sem defesas, fica completamente engolida pelo filme, seja pela abertura com paisagens estonteantes da vida nas florestas do pacífico norte, ou por causa do carisma de seu protagonista, Ben Cash (Viggo Mortensen), e de sua linda família formada por seis filhos. Infelizmente, ainda muito cedo, descobriremos que a mãe das crianças não está ali com eles porque está passando por um tratamento severo e, para maior tristeza, Leslie, acabaria por se suicidar e a sua família na floresta teria de aprender a lidar com isso. Naturalmente, tornar-se eremita foi uma opção que não agradou aos pais da moça, que pediram para que Ben não aparecesse no funeral sob duras ameaças.

Capitão FantásticoO impasse dá origem a uma viagem com uma missão, pois, Leslie era budista e desejava ser cremada, em vez de ser sepultada. Ben, portanto, arrumou os filhos e foi ao encontro da mãe, para garantir que sua última vontade fosse satisfeita. Embora tudo indique que esse talvez fosse um filme road trip, não é bem isso que acontece. A viagem no cinema é sempre uma metáfora para a busca pelo (auto)conhecimento, contudo, a forma que Ben escolheu para educar os filhos na floresta e o seu relacionamento com eles não exige que qualquer outra faceta seja conhecida entre eles.

Mas o grande embate da história se dá mesmo em âmbito ideológico. Ao optar por educar os filhos na floresta, sem escolas ou quaisquer amarras sociais referentes a limitações de idade, gênero, agrupamento, entre outras coisas, o desenvolvimento das crianças aconteceu de maneira excepcional. Todos são capazes de fazer análises críticas de situações complexas. Coisas que, muitas vezes, os próprios adultos não fazem, por preguiça, medo e incapacidade também. Além disso, o cuidado com as crianças também se dá em âmbito físico e espiritual. Todos são extremamente saudáveis e atléticos, além de não sofrerem com conflitos simplistas, pois têm total ciência de si mesmos, suas limitações e potenciais. A maturidade das crianças, incentivada pelo pai, cria um ambiente em que todos se comunicam livremente e crescem juntos.

Capitão Fantástico

Naturalmente, só consegue ter essa visão quem está por perto – ou seja, a própria família, e os espectadores. Ben precisa, o tempo inteiro, provar para os parentes de Leslie que seus métodos, embora nada ortodoxos, surtem resultados que vão muito além de qualquer expectativa. Ainda assim, a cada embate cultural entre os hippies revolucionários super saudáveis e educados e os cidadãos de bem, responsáveis e enquadrados na sociedade, existe um ranço muito grande. Isso gera revolta, visto que, as crianças são gratas por não terem televisão ou internet e distrações que os impeçam  de ler clássicos da literatura, tomar opções políticas e religiosas elaboradas, falar vários idiomas e estar em paz com seu corpo e a natureza. De certa forma, a crítica feita à sociedade estadunidense média também cabe ao expectador – o que você poderia fazer, se não perdesse tanto tempo com distrações?

Há, porém, um outro lado que nos é revelado pelo arco de duas das crianças. O filho mais velho Bo (George MacKay) e o jovem Rell (Nicholas Hamilton), acabam entrando em conflito com a criação que tiveram e questionam as opções feitas por seus pais (especialmente pelo pai). Para ambos, embora sua educação tenha sido sólida e fundamental para o desenvolvimento de sua personalidade e caráter, ela também os tornou aberrações para a sociedade. Rell, por ser mais jovem, tem uma visão mais rebelde e simplista do que “aberração” significa nesse contexto: algo como os hippies esquisitões que comemoram o aniversário de Noam Chomsky, mas não o natal. Já Bo, o filho mais velho, consegue ver as cosias com mais clareza e o que ele percebe é revelador. Numa frase deliberada, ele diz que exceto pelo que está nos livros, ele não sabe nada. O que isso nos mostra é que, por mais libertadora e revolucionária que tenha sido a pedagogia não-escolar do Capitão Fantástico, ela acabou por alienar as crianças, no sentido de que eles estavam se tornando seres humanos únicos no sentido mais forte da palavra, mas não estavam aprendendo a apresentar isso para o mundo. Apesar de serem Reis Filósofos, nem tinham articulação para se expor como tal, nem saberiam qual é a relevância de pessoas como eles na sociedade. Em suma, as crianças eram como uma lamparina debaixo da cama. Mas, ao que tudo indica, Ben acabaria por encontrar um equilíbrio e seus filhos também.

Capitão Fantástico

Concluindo, é realmente uma pena que um filme com uma mensagem tão forte e poderosa e cheio de atuações magníficas esteja concorrendo apenas ao Oscar na categoria de melhor ator. Isso continua esfregando na nossa cara que embora relevante, a premiação continua sendo extremamente questionável. Porém, Capitão Fantástico é um filme para assistir, pensar e guardar todos os seus ensinamentos na memória, pais, filhos, professores e quaisquer outros tipos de seres humanos.

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Hippie com raiva.