Capitão América: Guerra Civil (2016)

-Desculpe, Tony. Quando vejo uma situação dando errado, não consigo ignorá-la. Gostaria de poder.

-Não. Não gostaria.

-É… Não mesmo.

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Título: Capitão América: Guerra Civil (“Captain America: Civil War)

Diretor: Anthony e Joe Russo

Ano: 2016

Pipocas: 9/10

São muitos os filmes de herois e cada vez mais eles ganham em escala para surpreender o público. Quando anunciaram a quantidade enorme de herois que estariam em “Capitão América: Guerra Civil”, todos se perguntaram como fariam isto funcionar em cena. Para os que ainda tinham essa dúvida, “Guerra Civil” faz isso tendo uma história muito bem amarrada, cenas de ação complexas e dando para cada um dos seus diversos personagem um momento para brilhar – além de uma trama instigante e coesa. Vemos, assim, um dos filmes mais intensos e interessantes do Universo Marvel nos cinemas.

Após uma operação que dá errado na Nigéria, os Vingadores são avisados pelo General Ross (William Hurt) que há um clamor para que haja uma regulamentação da ação dos herois. Através do chamado Tratado de Sorkovia, em homenagem ao país destruído em Vingadores 2, a equipe passaria a fazer parte da estrutura da ONU, e só poderia agir quando e onde a organização permitisse. De um lado, Steve Rogers (Chris Evans), o Capitão América, teme virar uma arma sem capacidade de escolha, servindo interesses muitas vezes escusos. Do outro lado, Tony Stark (Robert Downey Jr.), sentindo o peso de suas ações como Homem de Ferro, capitaneia os esforços para que todos os membros da equipe assinem o Tratado. As diferenças escalam quando após um novo atentado, de proporções ainda maiores, coloca Bucky (Sebastian Stan), o Soldado Invernal, no centro das atenções. É o momento que Steve Rogers decide agir fora da lei para proteger seu amigo de infância, e é também o momento que o Homem de Ferro precisará intervir contra seu amigo Vingador.

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É fácil deduzir como o filme decorre a partir daí; de fato, embora tenha sua cota de viradas de roteiro, “Guerra Civil” não se destaca por ser incrivelmente inesperado. O grande destaque aqui é a forma sóbria e pé no chão – dentro do possível, se tratando de um filme de superherois – que o assunto é tratado.

Ao contrário dos quadrinhos, onde a questão de assinar ou não o Tratado gira em torno das identidades secretas, aqui o foco muda – até porque no Universo Cinematográfico Marvel (MCU) os Vingadores já tem suas identidades conhecidas. A dinâmica trabalhada aqui é, de certa forma, inclusive mais interessante: a questão dos herois se tornarem armas que servem às agendas específicas. Steve Rogers, em um dos muitos diálogos fantásticos com Tony Stark, deixa claro o seu receio de parar de servir os interesses do povo e passar a servir governos, às vezes em missões de caráter duvidoso. “E se nos mandarem para um lugar que não queremos ir?”, ele pergunta. “E se não nos mandarem para um lugar que precisamos ir?”

Esta questão é ainda mais forte quando pensamos na própria ONU que, com seu Conselho de Segurança, frequentemente é questionada em relação aos seus interesses, por privilegiar a ação em alguns países, que são de interesse político e econômico do Conselho, enquanto negligencia outros. Isso torna “Guerra Civil” um filme ainda mais relevante.

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Não fosse essa riqueza o suficiente, o filme não assume um lado; como nenhum dos dois times têm acesso à totalidade da informação, ambos seguem seus instintos com frequência, e cometem erros e acertos baseados nisso. Independente de você concordar com Capitão América ou Homem de Ferro, é impossível defender um deles todo o tempo; ambos se excedem em suas ações, seja explodindo um prédio quando poderia só parar os inimigos em fuga, ou distribuindo fraturas quando o ideal seria se entregar.

Este lado filosófico e político apenas agrega dentro de um filme com muitas cenas de ação de proporções épicas. Motocicletas sendo capturadas em pleno movimento, caminhões sendo arremessados e um número tão alto de pessoas batendo com suas colunas em pilastras que fisioterapeutas provavelmente deviam ganhar ingressos gratuitamente para esse filme: é dessa escala de combate que estamos falando. Temos lutas e perseguições no ar, lutas divididas no solo – com direito a pose antes da batalha começar – e ataques combinados dignos de videogame e quadrinhos clássicos. A escala é tão enorme que “Guerra Civil” se dá ao direito de ter menos easter eggs que outros produtos da Marvel – não precisa esconder coisas para os fãs quando todas essas batalhas servem aos fãs de maneira tão plena.

Inclusive, é em alguns desses exageros que o filme às vezes nos faz soltar um sorriso constrangido. Em meio a essas tensões, momentos de silêncio, em que os herois se encaram em silêncio enquanto a câmera vai de um para outro é meio estranho, e faz parecer que estamos assistindo à uma pesagem do UFC. Também vale citar que falta um pouco de coragem em algumas decisões de roteiro – mas é de Marvel que estamos falando. Mesmo se tratando de guerras civis, a Casa das Ideias têm suas limitações em sangue no cinema.

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Se por aquele lado a mão do estúdio claramente pesou em certas decisões, a direção dos irmãos Russo entrega o que era esperado deles. Assim como “Capitão América 2: Soldado Invernal”, este filme não se entrega às piadas; elas são pontuais, e acontecem de forma muito mais natural na interação entre os personagens do que em “Vingadores 2”, por exemplo, onde quase todos os personagens têm vocação para stand-up. A dinâmica entre Bucky, Rogers e Sam Wilson (Anthony Mackie), o Falcão, rende ótimos momentos em cena, e o foco dado a eles justifica este filme se chamar “Capitão América” e não “Vingadores 2.5”, apesar de ter tantos herois aqui quanto no seu predecessor. Outro que merece destaque aqui é o Amigão da Vizinhança: sem entregar nada, e mesmo com poucas cenas, já podemos afirmar sem medo que finalmente temos o melhor Peter Parker/Homem-Aranha que já vimos no cinema.

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Ao contrário de outros filmes de combates de herois por aí, “Capitão América: Guerra Civil” se constroi em volta de uma trama política densa, motivos palpáveis para que cada heroi assuma um lado, e uma resolução nada fácil e consideravelmente cruel. Mais competente, interessante e intenso do que grande parte dos filmes da Marvel – incluindo “Vingadores 2” -, “Guerra Civil” facilmente sobe para ser um dos melhores filmes do estúdio. Com a troca de Joss Whedon pelos irmãos Russo para os próximos grandes projetos, a Marvel alcança um novo estágio de contar histórias, com a capacidade que vem com a maturidade de mexer com qualquer tema. Um filme muito bom, que certamente agradará quem o estava esperando – seja você #TeamCap ou #TeamIronMan.

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Agora, tendo visto ou não o filme, leia nosso texto apontando com maiores detalhes a visão do Capitão e de Stark sobre a situação.

Agora (sim, tudo isso!) veja nosso comentário sobre a HQ que originou o filme.

Para fechar, ouça um dos nossos casts mais antigos, falando de como estava o Universo Marvel à época, e ver se acertamos nossas previsões.

 

 

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.