Cake – Uma Razão Para Viver (2014)

“- Eu não posso te salvar. Mal posso me salvar e salvar meu filho.

– Não estou pedindo que me salve.”

CAKE IMAGEM

Título: Cake – Uma Razão Para Viver (“Cake“)

Diretor: Daniel Barnz

Ano: 2014

Pipocas: 8/10

Já está ficando lugar-comum afirmar que esse é um dos maiores papéis de Jennifer Aniston. Só que o longa de Daniel Barnz não se limita à bandeira de “filme em que Jennifer Aniston muda de perfil”, pois a publicidade dessa ideia acaba sendo diluída pela qualidade da direção e pelo próprio talento da atriz.

“Cake” traz a história de Claire Simmons (Jennifer Aniston – chorou com você em “Marley e Eu”), uma mulher lidando com traumas profundos e que participa de um grupo de apoio para pessoas com dores crônicas. O filme se inicia em uma das reuniões desse grupo, do qual Claire é expulsa após expor sua dura opinião sobre o suicídio de Nina (Anna Kendrick , que fez você testar sua coordenação motora em “Pitch Perfect”), uma das integrantes do grupo. Tal suicídio acaba de certa forma perseguindo Claire, que passa a ter uma série de sonhos e alucinações com Nina, instigando a protagonista a buscar saber mais sobre as circunstâncias do ocorrido.

Conhecemos Claire já no meio de seu turbilhão emocional e de sofrimento físico – o que a leva a consumir quantidades absurdas de remédios. Uma mulher que construiu uma muralha atrás da qual mantém seus sentimentos bloqueados e escondidos de todos, inclusive dela mesma. O roteiro de Patrick Tobin deixa o público especulando sobre a protagonista e o que pode ter acontecido com ela. Pequenas dicas sobre a história de Claire e seu trauma vão sendo dadas quase a conta gotas. Fragmentos de informações são espalhados, tanto em objetos de sua casa e aparições repentinas de personagens não explicados diretamente, quanto em memórias sobrepostas, misturando recursos narrativos e estilísticos diferentes e interessantes.

A ótima Adriana Barraza (presente no excelente “Babel” e em “Thor”, mas ela deve fazer questão de ser lembrada pelo primeiro) interpreta Silvana, dedicada governanta de Claire com um grande instinto protetor. O entrosamento de Aniston e Barraza enriquece o longa, pois a relação das duas é um elemento importante e um dos fios condutores da história. Dá gosto de ver a evolução do relacionamento das duas e como as atrizes aproveitam com grande sensibilidade os afiados diálogos, os momentos de introspecção e até mesmo os de humor.

Claire é uma mulher sarcástica e esperta (o que gera algumas tiradas espirituosas) que se tornou muito amarga pelo sofrimento. Apesar de vulnerável, atormentada pelo sentimento de culpa e vítima de uma tragédia, Claire não espera que alguém a resgate e tem plena consciência de que sua recuperação deve começar por ela mesma e só se ela quiser. Essas nuances a tornam em uma personagem ainda mais interessante de se acompanhar.

Sua investigação sobre Nina possibilita que crie um ligação importante com o viúvo desta (Sam Worthington, prestes a voltar para o projeto com tendências megalomaníacas da quadrologia de James Cameron para “Avatar”) que, felizmente, não cai na obviedade de um “romance redenção”. Os efeitos do suicídio da colega de grupo em Claire acabam criando uma espécie de estopim que faz com que ela comece, mesmo que não intencionalmente, a confrontar os próprios sentimentos.  A ideia de suicídio a persegue através das alucinações com Nina, como se o subconsciente de Claire a confrontasse através dessa imagem. Se ela supostamente não vê mais valor ou sentido em sua vida e não teme por questões morais e nem religiosas, o que a impede de dar fim à própria existência? Claire Simmons ainda existe? São questões que ela se coloca e que busca responder ao longo do filme.

A excelente atuação de Jennifer é o atrativo principal e a forma como filme é conduzido explora muito bem o potencial de sua personagem. O roteiro é repleto de momentos muito íntimos, que deixam o espectador se aproximar cada vez mais de Claire, tanto para acompanhar suas transformações (ao vermos sua muralha emocional se ruir) quanto para atenuar os extremos de sua situação. Em algumas passagens a câmera é conduzida na mão, seguindo Claire de maneira solta e vacilante, como um recurso interessante para mostrar a perspectiva da protagonista durante suas crises. A trilha sonora é bem discreta, o que acaba acentuando os momentos de solidão de Claire, pois muitas vezes o único som que ouvimos são seus gemidos de dor. Jennifer consegue se conectar muito bem com toda a forte carga emocional e física, transmitindo tudo de uma forma muito verdadeira, o que lhe rendeu  uma merecida indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática pelo papel. Uma atuação intensa, repleta de ações físicas (resumidamente, aquelas que surgem quando o ator está completamente entregue) e sem exageros.

Sem grandes reviravoltas ou um clímax a partir do qual tudo se resolve, “Cake” chama atenção pela sensibilidade com a qual trata de temas tão delicados e mostra um recorte na vida de pessoas comuns, cada uma com suas angústias, mágoas e afetos. Além de uma história sobre luto, dor e tentativa de recuperação, o filme é uma obra sobre relações humanas e como esses laços podem se manifestar através do prazer em rituais simples, como estar reunido com quem se gosta para comemorar e repartir um bolo.

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bellecris

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