PontoBR #08 – Caetano Veloso e os anos 60

Caetano Veloso é um artista que dispensa apresentações. Já em atividade desde os anos 60, aos 74 anos, o músico permanece inovador. Na sua discografia mais recente temos álbuns ao vivo interpretando grandes canções e, de 2012, o excelente disco de inéditas Abraçaço.

Caetano Veloso

Baiano de Santo Amaro, o artista desde cedo envolvia-se com o mundo das artes. Durante algum tempo, ainda jovem, escreveu críticas de cinema para o Diário de Notícias, mas, em 1965 ele iniciaria sua carreira musical, acompanhado a irmã, Maria Bethânia, em apresentações do espetáculo Opinião, no Rio de Janeiro. De lá pra cá, foram muitas composições, discos, prêmios e polêmicas. Caetano se tornou uma das figuras mais influentes no cenário intelectual da cultura brasileira. O recorte que o PontoBR traz hoje é relativo aos três primeiros discos de Caetano Veloso, desconsiderando “Cavaleiro/Samba em Paz” de 1965 e o disco “Tropicália” de 1968, apegando-se mais ao que o músico fez “sozinho”.

Vamos aos discos?

Domingo (1967)

Caetano Veloso - Domingo
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Domingo foi o primeiro disco de Caetano e de Gal Costa. As curiosidades por trás dessa obra começam já nos bastidores. O diretor da gravadora pela qual o disco saiu era João Araújo, pai de Cazuza, e ele convidou ninguém menos que Dori Caymmi (filho de Dorival Caymmi) para produzir o disco. Nada mal para um início de carreira.

O disco, como um todo, tem um tom bastante “bossa-novístico” e aborda temas como a saudade, o amor e o samba. Os destaques da primeira parte do disco vão para o primeiro grande sucesso de Caetano, Coração Vagabundo, a saudosa Onde Eu Nasci Passa um Rio e a esperançosa Avarandado (do amanhecer). Em seguida ainda podemos destacar Nenhuma Dor, que faz uma citação musical sutil à Coração VagabundoCandeias que fala da Bahia com muito carinho e saudade, os sambas de Remelexo Maria Joana, o anseio utópico de Minha Senhora e, novamente, a saudade em Quem me Dera. O disco se encerra com Zabele, uma cantiga doce.

 

Caetano Veloso (1968)

Caetano Veloso
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No ano seguinte, saiu esse disco homônimo que já enveredava para os lados da Tropicália, movimento que teria um álbum próprio  ainda em 1968. A mudança do disco anterior para esse já fica visível no trabalho da capa. Domingo tinha uma arte comportada, com uma fotografia em preto e branco. Agora temos cores, muitas cores, todas vibrantes em desenhos psicodélicos. Inclusive, esse disco bebe direto da fonte da cultura popular da época, tanto em relação ao Brasil quanto ao que vinha de fora. Isso causou certo desconforto no público e em alguns artistas da época.

Os destaques do disco vão para a vanguardista faixa de abertura, Tropicália, as guitarras sessentistas de No Dia em que Vim-me Embora e para fechar a primeira parte do disco Alegria, Alegria, canção essencial de Caetano e da MPB. Adiante temos o caldeirão de referências pop da época de SuperbacanaSoy Loco por ti América, uma ode à América Latina, sem esconder os problemas, uma interessantíssima releitura de Ave Maria, aqui acompanhada por violão, viola e percussão e cantada em latim como nos corais eruditos. Por fim, uma crítica à religião em Eles, com destaque para uma propaganda dos Mutantes no final.

 

Caetano Veloso (1969)

Caetano Veloso
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Neste disco, Caetano segue na experimentação e traz à vida um álbum extremamente eclético, com músicas em português, inglês e espanhol, variando estilos como o Fado, a Bossa Nova, o Tango e Rock Psicodélico da época. Uma curiosidade triste desse disco é que ele foi gravado em dois estúdios, os vocais e violões foram gravados por Caetano e Gilberto Gil em Salvador, pois eles estavam em confinamento na Bahia a mando do governo ditatorial pelo qual passava o Brasil. Caetano, inclusive, havia sido liberto da prisão recentemente. Nesse mesmo ano, o músico seria exilado em Londres.

Os destaques do disco vão para a humorada Irene, as versões de Caetano para as tradicionais Marinheiro Só Atrás do Trio Elétrico, música hino dos primeiros carnavais baianos. A primeira parte do disco se encerra com Os Argonautas que, apesar do nome mitológico grego, é um fado recheado de citações lusófonas. A ligação entre o mundo grego e as grandes navegações portuguesas, aliás, não é uma referência aleatória, já que é inerente ao próprio marco literário de Camões que é Os Lusíadas. Para iniciar a segunda parte do disco, temos um cover de Carolina, canção de Chico Buarque, Chuvas de Verão, música composta por Fernando Lobo, pai de Edu Lobo, a poesia de Acrílico e a loucura de Alfômega.

 

Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu! E nós ficamos por aqui. Diga-nos o que você está achando da coluna nos comentários e também dê recomendações de grandes artistas do Brasil que devem figurar aqui no PontoBR.

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