Comentário | Brasilidade – a importância de se valorizar a produção de cultura nacional

A chamada “Síndrome de Vira-Lata” consiste, basicamente, em diminuirmos tudo o que fazemos em comparação ao que é feito pelos outros. Jesus colocou isso de outra forma quando disse, ao ser desprezado na cidade onde cresceu, que um profeta não tem honra em sua própria terra. Seja como for, o fato é que, como brasileiros, nós temos a tendência de olhar de baixo para cima para as produções de outros países. Avacalhamos o cinema nacional em virtude da gringa, achincalhamos nossa música para olhar para a Billboard Hot 100 e ridicularizamos nossas próprias expressões para falar sobre como é um must usar vocabulário outsourced no nosso day by day. Percebendo o dano que isso causa, o PontoJão quer te convidar a repensar a maneira como você enxerga a cultura nacional – e, quem sabe, admirar nossa “brasilidade”.

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Nossa tendência de menosprezar o conteúdo nacional, por mais que pareça inofensiva, tem seu principal impacto na retroalimentação que essa tendência gera. Tomemos, por exemplo, o cinema nacional. Muito se fala da qualidade dos filmes nacionais, em grande parte dominada pelos comédias aparentemente feitas para TV, com qualidade de roteiro duvidosa, na melhor das hipóteses, e com uma trama enlatada repetida: pessoas de classe média ou baixa que subitamente se veem com dinheiro. Uma análise das maiores audiências do cinema nacional de 2000 para cá mostra uma tendência que parece corroborar isso:

brasilidade

Ignorando “Os Dez Mandamentos – O Filme” como a piada que seu número é, destacam-se “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro” e “Nosso Lar”, por serem dramas ficcionais, enquanto “2 Filhos de Francisco” e “Carandiru” são dramas baseados em fatos. Excetuando esses filmes, os outros doze são comédias consideravelmente genéricas e repetitivas que esgotam temas já fracamente abordados na película anterior. Isto, com o tempo, causou no brasileiro uma estranha aversão ao nosso cinema, ao ponto de a frase “eu não pago para ver filme nacional” se tornar um jargão fácil de se achar em conversas sobre o assunto. Dessa forma, criam-se dois polos: o público que só consome as comédias ralas e o outro que rejeita a produção nacional por completo.

Nesse meio-tempo, há toda uma gama de filmes que passam desapercebidos, presos no vácuo entre os dois pontos. Filmes relevantes dessa década como “Que Horas Ela Volta?“, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” e “Aquarius” passam desapercebidos pelo grande público; a soma do público desses três filmes soma somente um terço de “Até Que a Sorte Nos Separe”, o último filme da lista acima¹²³ – uma demonstração de como a polarização funciona. Ironicamente, o público que despreza as comédias enlatadas também não vai assistir os dramas elaborados e indicados a prêmios.

Da esq para dir, na ordem citada acima.

Este preconceito com os filmes nacionais dificulta que os realizadores de menor porte consigam investimento para produzir seus filmes, visto que a experiência demonstra que não há brasilidade que atraia o brasileiro para se enxergar no cinema, e, consequentemente, as únicas películas nacionais que ganham distribuição são as bancadas pelos grandes estúdios – no geral, a Globo Filmes -, e isso continua retroalimentando o ciclo de “só consumo comédia/não consumo nada” em relação ao conteúdo nacional.

Esta concepção errônea sobre a qualidade do conteúdo brasileiro não se restringe somente ao cinema, embora este seja talvez o mais afetado por este padrão. A música também entra na mesma dicotomia – escapando somente a MPB – que talvez já devesse se chamar “Música Clássica Brasileira” à essa altura -, que goza de um status social diferente. De resto, é difícil você descobrir o que há na música folkindie ou no rock nacional; ou nos voltamos para os ritmos regionais – para o funk, o sertanejo, o axé ou o brega – e consumimos neste nicho, ou não consumimos nada. Não há uma busca por conteúdo diferente simplesmente porque ele parece não existir.

Vale, então, ressaltar o que há de qualidade no cenário brasileiro – a brasilidade. Daí a iniciativa do PontoJão de dedicar nosso conteúdo a ela – que você poderá reconhecer pela bandeirinha na imagem – e a conhecer, explorar e apresentar conteúdo nacional que seja relevante. Por mais que os conceitos de “bom” e “ruim” sejam (em parte) relativos, há filmes nacionais indiscutivelmente bons, assim como conteúdo musical e mesmo seriados que elevam a nossa brasilidade e nos fazem perceber que talvez o que falta para a produção cultural do país ser melhor é darmos um pouco mais de crédito – e do nosso dinheiro – a ela. E viva nossa brasilidade.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.