Resenha: Blue & Lonesome – Rolling Stones (2016)

Após 11 anos do lançamento do último álbum, A Bigger Band, os dinossauros do rock saíram da caverna para lançar o vigésimo-quinto álbum da carreira, Blue & Lonesome. Em vez de lançarem músicas novas, os Stones escolheram a dedo cada uma das 12 faixas para voltar as suas origens “blueszeiras”. O que é engraçado é que Blue & Lonesome, mesmo sendo um álbum de covers, não soa como um. Ali é possível ver de fato os Rolling Stones tocando e imprimindo em cada acorde sua identidade, e não meninos que se juntavam para tocar blues para tentarem ficar parecidos com seus ídolos.

Blue and Lonesome
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Quem sabe do envolvimento e importância do blues na carreira da banda, fica impressionado com o resultado. A banda em si dispensa comentários, mas merece alguns destaques. Mick Jagger, com seus 73 anos, esbanja potência vocal e fôlego, principalmente quando ao invés de tocar gaita, simplesmente a destrói em suas passagens no decorrer do álbum. As guitarras de Keith Richards e Ronnie Wood se entrelaçam tão bem quanto duas fitas de DNA. Darryl Jones com seu baixo dá toda elegância e suavidade com suas linhas flutuantes e leves, enquanto o baterista Charlie Watts deveria tocar de fraque, tamanha sua elegância sonora tocando blues. O álbum parece que começa meio que no susto, em meio a uma jam session que estava acontecendo de uma maneira despretensiosa. Mick rasgando na gaita dá a abertura ao álbum com Just Your Fool e com ela nos traz a vontade de colocar o volume no máximo. Com uma sonoridade dos clássicos blues dos anos 60, aparece Commit A Crime.

Faixa título ao álbum, Blue and Lonesome traz um som mais cru e arrastado, mas com riffs magníficos e muito bem executados que dão certa leveza a música. Isso sem falar da gaita de Mick que é um detalhe à parte. Semelhante em rusticidade sonora, em All of Your Love podemos perceber Mick com uma entonação vocal mais forte. Merece destaque o pequeno solo de piano em meio à música, que de tão complexo, parece dar nó nos dedos de quem o toca. I Gotta Go é o blues mais rockabilly do disco, devido sua marcação, arranjos e a maneira como é conduzida. E mais um destaque a Mick na gaita. Contando com a participação ilustre de Eric Clapton, Everybody Knows About My Good Thing vem acompanhada de ótimos (e belos) solos de guitarra e dá uma pausa no álbum, trazendo uma calmaria momentânea.

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Com ânimos acalmados depois de I Gotta Go, temos a animada Ride ‘Em On Down que não tem nada de especial, mas é gostosa de ser ouvida, assim como sua sucessora Hate To See You Go. A gaita de início de Hoo Doo Blues faz você se sentir em meio ao faroeste. Traz um som bem rústico e com Mick mais narrando à música do que propriamente cantando. Guitarras leves com um vocal ecoando, dão todo o charme necessário a Little Rain – igualmente e não menos importante do que o solo de gaita na reta final.

Just Like I Treat You é mais uma daquelas que tem menções fortíssimas do rockabilly. Sem muitas firulas e agradável aos ouvidos. Em contrapartida, os minutos finais de Blue & Lonesome, ficam por conta de I Can’t Quit You Baby. Uma música pra fechar um álbum a sua altura e importância com chave de ouro. Interpretação magnífica de Mick Jagger e guitarras que emitem som não ao serem palhetadas, mas sim parecendo tocadas com a alma pelo trio Richards, Wood e Clapton.

Blue & Lonesome é mais do que um simples álbum. É uma memória afetiva da banda, um tributo ao som que amam. E conseguiram homenageá-lo com maestria. É nítido que, como dito anteriormente, não são mais jovens britânicos querendo tocar blues para imitar seus ídolos. São músicos marcados pelo tempo e pela experiência, que retrataram em 12 faixas todo o amor e respeito ao blues. Resumindo, é um daqueles álbuns que não pode faltar na sua estante.

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