Blue Jasmine (2013)

“Ansiedade, pesadelos e um surto nervoso; há um limite para o que uma pessoa pode aguentar antes de que corra para a rua e comece a gritar.”

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Filme: Blue Jasmine

Ano: 2013

Diretor: Woody Allen

PIPOCAS: 8/10

Woody Allen é o nome quando se trata de desconstruir (Harry?) o cotidiano da sociedade atual – e das atualidades que vieram antes dessa -, sempre carregando em sarcasmo, cinismo e, de alguma forma, uma grande dose de simpatia. Em Blue Jasmine, Allen deixa esta fórmula um pouco mais maleável, embora a película ainda seja facilmente reconhecível como de sua autoria.

Blue Jasmine (sem nenhuma tradução ousada para o mercado brasileiro) conta a história de Jasmine (Cate Blanchett, O Curioso Caso de Benjamin Button), uma ex-socialite nova-iorquina que, devido a um escândalo envolvendo seu marido Hal (Alec Baldwin, da impecável série 30 Rock), se vê obrigada a morar com sua irmã adotiva Ginger (Sally Hawkins, Grandes Esperanças [2012]). Esta, devido a continuar vivendo no subúrbio, acabou sendo afastada completamente por Jasmine.

Jasmine é, sem dúvida, uma das protagonistas mais antipáticas de Woody Allen. Mimada, falsa e arrogante, Allen deixa claro ao decorrer do longa que, embora a personagem seja cria dele mesmo, devemos detestá-la tanto quanto ele o faz. Ainda assim, como sempre, o diretor não se entrega ao maniqueísmo prático; diversas vezes vemos uma Jasmine, entre seus surtos psicóticos e delírios esquizofrênicos, frágil, dedicada e sensível – embora estes momentos por vezes sejam seguidos por outra atitude odiosa, normalmente em relação à sua irmã ou ao namorado dela, Chili (Bobby Cannavale, Parker).

Tirando este twist em seu protagonismo, a película é totalmente um filme de Allen, principalmente na parte estética. Os planos contemplativos, as cores saturadas nos takes de paisagem, a trilha sonora embalada por jazz… Desde a abertura com letras brancas em fundo preto até o final em aberto, passando pelas viagens temporais durante o roteiro, Allen não se arrisca e entrega o esperado – realmente esperado, inclusive por pessoas que esgotaram duas sessões do filme durante o único dia de exibição no Festival do Rio (e não, eu não fui uma delas. Fui uma daquelas que chegou esperando ainda encontrar ingresso).

O elenco, como imaginado, está espetacular. Cate Blanchett entrega uma atuação impecável em um papel muito complexo, que varia da histeria depressiva à alegria histérica; Sally Hawkins convence plenamente como Ginger, trazendo a doçura, inocência e dubiedade necessária para a personagem; Alec Baldwin (um dos queridinhos de Allen) entrega novamente à sua já conhecida persona cafajeste, e mais uma vez é bem-sucedido; o elenco de coadjuvantes heterogêneo, que vai desde o (ótimo) comediante Louis CK (do seriado Louie) até Peter Saarsgard (diria que do Lanterna Verde, mas para manter esse filme esquecido, podemos citar A Órfã [2009]), preenche os espaços e suas participações preparadas por Allen com sucesso, ajudando a manter o ritmo do filme e a transição entre os mundos de Jasmine e Ginger.

Em Blue Jasmine, Woody Allen entrega o que poderia ser mais um longa em sua filmografia, mas agrada ao apresentar uma película que consegue ser densa e catastrófica sem perder o humor ácido e cínico que lhe consagrou. Um filme ótimo (em um semestre dificilmente ruim), que nos faz agradecer por Allen ainda se manter ativo atrás (e na frente) das câmeras.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.