Black Mirror: Natal Branco (White Christmas): nós, os passionais

AVISO: esse texto contém spoilers do episódio de Natal de 2014 de Black Mirror (“White Christmas”), cenas perturbadoras e reflexões que vão te deixar na bad. Continue por sua conta e risco.

Ocidentais são fascinados pela ideia da paixão. Acima da honra, do dever e de responsabilidades, nossas sensações se configuram como a justificativa última para qualquer ato que desejemos cometer. Relacionamentos são desfeitos, famílias são abandonadas, projetos tortuosos são assumidos e outros válidos são abandonados sob o manto do “amor”, em sua definição egoísta que serve somente a nós mesmos. “White Christmas”, o episódio de Natal de 2014 de “Black Mirror” nos lembra, em seus contos distópicos, de que nossas paixões ainda vão ser nossa derrota final como espécie.

O episódio, atípico para série, é metalinguístico por se tratar de três contos aparentemente desconexos, mas que possuem um fio condutor entre si – basicamente como a própria “Black Mirror” e seus capítulo. O primeiro conto versa sobre Matt (Jon Hamm, de “Baby Driver“) como prestador de serviços a um grupo que tem dificuldades de se relacionar com mulheres, vendo um encontro potencialmente bom rapidamente degringolar quando a mulher conquistada decide silenciar as vozes na mente de seu parceiro. O segundo conto de “White Christmas” conta sobre outro pretenso trabalho de Matt, agora com a criação de assistentes tecnológicos criados a partir de réplicas da consciência de seus senhores, torturando essas mentes etéreas para fazê-las servir sem resistência. O terceiro, e último conto, mostra como o interlocutor de Matt, Joe (Raff Spall, de “Prometheus”), foi emocionalmente destruído quando sua namorada engravidou dele e fugiu após uma discussão em torno de um possível aborto.

white christmas

Considerando um “crime passional” como um ato que é cometido calcado em paixão, e compreendendo “paixão” como qualquer afetação intensa de nossas emoções, é fácil notar como todos os crimes vistos em “White Christmas” seguem essa lógica. O cliente de Matt, com a necessidade se conectar emocionalmente com outro ser humano, se vê drogado e assassinado pela parceira que escolhe quando esta acha que ele, assim como ela, sofre de um transtorno psiquiátrico (provavelmente algum grau de esquizofrenia). Na busca pela paixão (fosse ela na forma de sexo ou de um relacionamento estável), ele encontrou alguém tão passional quanto ele, porém com um desequilíbrio que a tornou homicida.

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Se o cliente de Matt morreu na busca pela paixão, Greta (Oona Chaplin) melhorou sua vida ao demonstrar total falta de compaixão consigo mesma, ao projetar uma cópia de sua consciência para um aparelho eletrônico para usá-la de agenda e organizador de sua vida. Sem adentrar no debate do que torna a consciência humana (que por si só já renderia todo um texto), as cores brancas das paredes e de virtualmente todos os utensílios da casa – com tons tão estéreis quanto a cadeia na qual sua consciência copiada está trancada – exprimem uma ausência de envolvimento e sentimentos, demonstrando como a falta de paixão é o que torna Greta incapaz de gerar empatia consigo mesma.

Mas todos estes contos anteriores são bússolas que apontam para a trama superior de “White Christmas”: o crime passional por definição que Joe cometeu, de forma a ser posto naquela sala com Matt, o qual busca sua confissão.

Ao contar sua história, nos simpatizamos, em certa medida, com a situação de Joe: sua namorada, Beth (Janet Montgomery) engravida e quer tirar o filho, mas Joe deseja ser pai da criança. Com a reação agressiva à decisão de Beth de abortar, ela o bloqueia de sua vida – com base na mesma tecnologia que já havíamos visto em “The Entire History of You” – e some. Posteriormente, uma série de descobertas lançam Joe ao extremo: ele reencontra Beth e vê que ela manteve o bebê, em seguida acompanhando o crescimento da criança por anos… Até descobrir, após um acidente que tira a vida de Beth, que a filha não era sua, mas de sua ex-namorada com seu melhor amigo.

E é aí que Joe, com um crime, tira duas vidas.

O assassinato que Joe comete é um crime passional no sentido mais cru da palavra: é resultado de uma paixão não-mais-correspondida por Beth, um amor que não podia demonstrar por quem achava ser sua filha, e a intensa sensação de perda e negação do que queria que homens, numa sociedade patriarcal machista, não estão acostumados a sentir. Exposto a toda essa tempestade de sensações, e exigindo respostas do pai de Beth, Joe o mata com um globo de neve naquele “White Christmas”.

Descobrimos em seguida que a filha de Beth também morrera naquele dia, após encontrar o avô morto. Tentando buscar ajuda, a criança morre de hipotermia, relegada ao tempo, vítima de uma briga que nada tinha a ver com ela. Enquanto matara seu ex-sogro com um crime de ação, foi a omissão de Joe que matou a menina. Cedendo às suas paixões, Joe decide também não assumir as consequências delas, condenando uma pequena inocente à morte.

Se o Natal, em “White Christmas”, é alvo e puro, as mãos daqueles que agem controlados por seus impulsos e vontades de forma indiscriminada não estão. Aqueles que dizem “eu te amo” sem sentir, os que abandonam aqueles por quais são responsáveis em busca de uma pretensa felicidade, aqueles que não se responsabilizam pelas consequências de seus atos impetuosos; nós estamos fadados a amargar a pior de todas as leis: a da retribuição. Seja através de uma crença cármica, da bíblica Lei da Semeadura ou por uma simples causa-consequência, todos nós, os passionais, sofreremos a pior de todas as sentenças: sermos abandonados à própria sorte, da mesma forma que abandonamos aqueles que dizíamos amar.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.