Black Mirror: Urso Branco (White Bear): nós, os condenados

AVISO: esse texto contém spoilers do episódio 2 da segunda temporada de Black Mirror (“White Bear”), cenas perturbadoras e reflexões que vão te deixar na bad. Continue por sua conta e risco.

Hamurabi, sexto rei da Primeira Dinastia Babilônica, alçou seu lugar na história não somente por ser o primeiro rei do novo Império Paleobabilônico depois de conquistar Suméria e Acádia, mas principalmente por causa de um código que decretou em seu reino. Levando seu próprio nome, o Código de Hamurabi materializava a Lei de Talião: olho por olho, dente por dente. O que muitas vezes se perde, mas encontramos em “White Bear”, é que nem sempre a Lei de Talião se estabelecia de maneira espelhada assim. Muitas vezes a linha da justiça e da vingança se misturavam – e misturam – em um borrão indistinto.

Essa, inclusive, é uma boa pergunta para estabelecer de cara: o que é justiça e quando ela se torna vingança? Justiça é fazer com que a pessoa pague por seus erros através de uma pena que a reabilite para a sociedade, ou é uma forma da sociedade ter sua alma lavada ao ver o criminoso amargar seus erros de uma forma que acreditem ser justa? Se for a última opção, a questão se complica: considerando que a visão da sociedade do que é justo ou não muda com o tempo, o quão longe estamos de ver “White Bear” (até agora só um episódio da segunda temporada de “Black Mirror“, embora talvez o melhor da série) se tornar realidade?

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Veronica (Lenora Crichlow) cometeu uma atrocidade inimaginável. Qual castigo é suficiente para uma mulher que filmou seu noivo torturando e matando uma criança? Qual punição é cabível para ela, que ajudou o homem a incendiar o corpo da menina em seguida? Uma vida na cadeia é o suficiente? A pena de morte aplacaria a nossa sede de sangue? Provavelmente não. O noivo de Veronica, Iain, se enforcou na cadeia, e o povo o odiou por ter escapado da justiça através da morte. E o que seria pior – ou mais justo? – do que a morte para quem faz coisas tão hediondas?

O Parque de Justiça Urso Branco põe Veronica dia após dia em um inferno próprio, caçada por muitos e filmada pelos demais – sofrendo um nível de tortura psicológica inimaginável para qualquer um, exceto para a garota que ela de fato ajudou a torturar e matar. Ainda assim, a garota sofreu abusos físicos, e Veronica, não. Ela merecia mais? Onde traçamos a linha? Quando seria o suficiente?

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Enquanto “White Bear” se desenvolve em seu começo, com traços de “O Massacre da Serra Elétrica” e ecos de cidades-que-são-vilãs, como em “A Vila” e “O Sacrifício”, e com uma fotografia que nos remete, mais recentemente, a “A Bruxa“, nós nos desesperamos com Veronica, com cada nova face nas janelas a observá-la, a cada pessoa mascarada com lâminas, bastões de beisebol e espingardas, a cada grupo de pessoas psicóticas fazendo vídeos com seus celulares. A trama do episódio se agrava, intensifica e, de repente, é malograda: Veronica é culpada de tortura e assassinato de uma criança. E assim, simples e subitamente, a gente não se preocupa tanto com o destino dela.

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A pessoa ser um monstro a torna menos pessoa? Ser um ser humano podre e personificar o que a humanidade tem de pior faz com que se seja menos humano? É o debate que já importamos lá de “Laranja Mecânica“: o mal, por existir em todas as pessoas, deve ser expurgado quando é tão clara e horrorosamente visível em uma pessoa só?

O ponto, no fim das contas, é: Veronica merece viver um inferno diário, sem memórias e sem futuro, pelo resto de sua vida? Se sim, tem certeza? Caso não… Por que não? E mesmo que essas perguntas fiquem sem retorno, pelo menos uma questão precisamos responder: é possível termos “parque” e “justiça” na mesma frase? Caso diga que não, não é o que acontece nos telejornais sensacionalistas hoje?

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A linha entre justiça e vingança muitas vezes se turva e some quando temos perspectiva; dentro do grande esquema das coisas, nos perguntamos se queremos que uma Veronica de fato se reabilite na cadeia e volte a ter uma vida normal na sociedade, quando ela causou tamanha desgraça não só à família que perdeu sua filhinha, mas a toda uma comunidade. Não sabemos dizer se queremos que Veronica saia da cadeia e se comporte como um de nós, porque isso representaria que a diferença entre nós e ela é somente uma sentença cumprida, e nada nos aterroriza tanto quanto confrontar a podridão que há em nós.

No fim das contas, tudo o que queremos é que o/a culpado/a sofra mesmo, preferencialmente mais do que o sofrer que ele/ela causou – se é que isso é mensurável. Quando aplicamos nosso Código de Hamurabi no século XXI e fingimos que a Lei de Talião de fato é justa, queremos assistir a vergonha do condenado. Queremos expor o que há de pior nele para ignorar o que há de demoníaco em nós. Queremos queimar a bruxa para nos sentirmos mais santos. Esse é o nosso Urso Branco: nosso lembrete constante e vagamente esquecível de que nós, como sociedade, somos essencialmente ruins.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.