Black Mirror: O Momento Waldo (The Waldo Moment): nós, os revoltados

AVISO: esse texto contém spoilers do episódio 3 da segunda temporada de Black Mirror (“The Waldo Moment”), cenas perturbadoras e reflexões que vão te deixar na bad. Continue por sua conta e risco.

Em 1988, uma das mais importantes capitais do mundo quase elegeu um chimpanzé como prefeito da cidade. O Macaco Tião, como era conhecido, tinha 25 anos na época, e teria sido um prefeito bem novo para o Rio de Janeiro. Com 400 mil votos, ele ficou em terceiro lugar, não sendo eleito pelo fato de não ser um candidato validado pelo Tribunal Eleitoral – provavelmente por ser um chimpanzé. Os 400 mil votos contaram como nulos e, embora Tião jamais tenha assumido o cargo para o qual era destinado, o recado da população ficou claro: não aceitamos ser representados pelos políticos que se candidataram. É relevante, no entanto, pensar em “The Waldo Moment” como uma fábula de o que pode acontecer quando o protesto irônico se concretiza na realidade.

the waldo moment

Se em 1988 quase elegemos um chimpanzé no Rio de Janeiro, em 2013 milhões peregrinaram as ruas das capitais brasileiras em um protesto inicialmente contra os valores abusivos de passagens dos transportes públicos, somente para as manifestações tomarem vulto e se tornarem… Bem, sobre tudo. Da corrupção ao comunismo ao sistema de ensino ao capitalismo – todas as causas ganharam bandeiras, literais ou não, sendo arvoradas em meio ao caos social que se instalou. O que restou das manifestações de Junho de 2013?

Enquanto isso, em “Black Mirror”, um boneco controlado por um humorista fracassado ganha a simpatia das ruas ao achincalhar políticos em qualquer chance que tivesse. Chamado de Waldo e controlado por Jamie Salter (Daniel Rigby), o boneco recorre à escatologia e aos palavrões para explicar o quão podre é o sistema político inglês – e, por extensão, o mundial -, concorrendo com candidatos reais, e tendo um posicionamento relevante nos resultados das eleições.

the waldo momento

O problema é que, em algum ponto, a mensagem se perde. Em algum momento as manifestações passam a vender abadá e os votos do chimpanzé são anulados e nada concreto muda nos resultados. O capitalismo a tudo engole e a tudo internaliza, e não tarda para que o governo estadunidense se interesse em Waldo e na forma como o boneco pode ser uma face amistosa e palatável da força estatal. Jamie reluta em deixar sua criação se tornar uma ferramenta de manipulação, mas é tarde demais: não é ele quem detém os direitos sobre a imagem de Waldo, e não tarda para que ele seja substituído.

O que também é parte da lógica da nossa sociedade: você não é insubstituível. Você é um floquinho de neve especial para que a gente possa te vender nossos produtos; esse perfume não é para qualquer um, é para homens como você. Essa carga de trabalho extra não é para te explorar, é porque confiamos em você. Essa maneira que te forçamos a casar e ter filhos – quer queira, quer não – não é um fardo, é uma dádiva, somente dada às mulheres. Agora, a partir do momento que você rejeita a individualidade voltada para consumo, seu destino é um só: o lixo. Seu consumo é insubstituível; a função social que você ocupa, não. Você é só mais um copo de plástico, descartável e ligeiramente útil.

Então Jamie é descartado, e sua criação sai de controle e ganha o mundo. Ao fim do episódio, vemos que o urso azul de “The Waldo Moment” agora é a face de um regime que, aparentemente, exibe traços de autoritarismo, mas que certamente não é transparente com a população. A clássica “crítica social f*$#” saiu de controle, e agora Jamie – no lixo, às margens da sociedade – assiste enquanto sua criatura, antes manipulada por ele, agora controla todo mundo, arrefecendo ânimos exaltados com uma falsa revolta.

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Analisando bem, é isso que nos resta: a revolta em si. Mal direcionada, mal aproveitada e malograda em seus intentos, filhos de um povo que tinha raiva mas nem mesmo sabia de quê. Tinha raiva dos políticos – que são frutos da própria sociedade, só fazendo da falta de caráter uma profissão muito bem remunerada; tinha raiva do comunismo por negar Deus e comer criancinhas, e tinha raiva do capitalismo por vender Deus e matar criancinhas de fome; e, principalmente, tinham raiva de si mesmos, por se sentirem vazios e destituídos de propósito. Ao contrário de seus trabalhos, estudos e vidas domésticas, os revoltados viam nas ruas – ou na crítica a elas – um sentido na vida, tão real quanto o boneco Waldo.

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Ao fim de 1988, 2013 e de “The Waldo Moment”, nos resta a mesma percepção: nossa revolta, pura, simples e explosiva, jamais mudará nada, porque nunca ficaremos revoltados por tempo o suficiente para que as mudanças ocorram. O Macaco Tião, Junho de 2013 e Waldo têm uma característica comum entre si: todos eles representam pessoas com expectativas iradas e irreais que se contentam com sua própria revolta, oca e sem propósito, tão vazias quanto suas vidas.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.